O vestiário estava quente — o calor do Catar em dezembro, aquele ar que cola na pele e pesa no peito. Lá fora, o Al Rayyan Stadium guardava o silêncio de uma eliminação. Era o Brasil saindo da Copa do Mundo nas quartas de final, derrubado pela Croácia nos pênaltis por 4 a 2, com Neymar sentado no banco, chuteiras amarradas, nunca chamado. Quase quatro anos depois, o homem que tomou aquela decisão finalmente disse em voz alta o que muitos já gritavam: ele errou.
A confissão que o futebol brasileiro esperava ouvir de Tite
Em entrevista ao portal GE, o técnico Tite não hesitou. Sem rodeios, sem escudo de narrativa, ele encarou a câmera — ou pelo menos a memória daquele dezembro amargo — e colocou o dedo na própria ferida. A escolha de escalar Neymar como quinto batedor, posição que jamais chegou a ser ocupada porque a disputa terminou antes, foi classificada pelo próprio treinador como um equívoco sem possibilidade de defesa.
"Todas as críticas feitas a mim pelo Neymar não ter batido o primeiro pênalti estão corretas. Eu errei. Isso asseguraria a vitória? Não sei. Mas ele deveria ter sido o primeiro batedor", afirmou Tite.
A declaração tem peso diferente vinda de um técnico que acumulou mais de 80 jogos à frente da Seleção Brasileira — uma das passagens mais longas de um treinador na história recente do cargo. Tite chegou em 2016, classificou o Brasil para a Copa de 2018 com folga e construiu uma equipe que chegou a Doha como uma das favoritas ao título. A eliminação para a Croácia encerrou esse ciclo de forma brutal.
A ordem dos batedores que mudou o destino do Brasil em Doha
Na disputa de pênaltis daquela tarde de 9 de dezembro de 2022, Rodrygo foi o primeiro a bater — e desperdiçou. Casemiro converteu o segundo. Pedro acertou o terceiro. Marquinhos parou no goleiro Livakovic no quarto. Com o marcador em 4 a 2 para os croatas, a bola nunca chegou ao pé de Neymar. O camisa 10, que havia marcado no tempo normal e carregava o jogo nas costas, virou espectador da própria eliminação.

Neymar havia balançado a rede aos 105 minutos da prorrogação — o gol que parecia ter colocado o Brasil na semifinal. Mas a Croácia empatou com Bruno Petkovic um minuto depois. Para contextualizar a dimensão do que estava em jogo: aquela Copa do Mundo reuniu o maior número de espectadores presenciais desde 1994, com mais de 3,4 milhões de ingressos vendidos, e o Brasil chegou à fase eliminatória como o time com mais finalizações do torneio. A derrota nos pênaltis — sem que o melhor batedor do elenco chutasse uma única vez — ficou como uma das imagens mais dolorosas da história recente da seleção.
"Eu estava olhando o jogo... e assisti de novo ao jogo. Não teve nenhum lance de perigo maior da Croácia. O jogo não falou, o jogo escondeu", disse Tite, reconhecendo que a partida foi dominada pelo Brasil sem que isso se traduzisse em resultado.
O que muda — e o que não muda — depois da confissão de Tite
A pergunta que o SportNavo levanta aqui não é só sobre o passado. Colocar Neymar como primeiro batedor teria mudado o placar? A resposta honesta é que não há como saber. O que se pode medir é o impacto psicológico: um camisa 10 convertendo o primeiro pênalti — diante de 88 mil torcedores no estádio e de um país inteiro na televisão — altera o peso emocional da cobrança seguinte para todos os outros. A pressão migra para o adversário.
A confissão de Tite chega num momento em que o Brasil se prepara para a Copa do Mundo de 2026, agora sob o comando de Carlo Ancelotti. O debate sobre a ordem dos pênaltis não é apenas histórico — é um manual tático que o novo treinador precisará responder quando a hora chegar. A lição de Doha, registrada agora em palavras pelo próprio técnico que a viveu, está escrita: em grandes decisões, o melhor bate primeiro. Ancelotti estreia à frente da Seleção em junho, nas Eliminatórias, contra o Equador, em Cuiabá, com um elenco que ainda discute quem será o protagonista daqui para frente.









