— Cara, o Tite queria um gringo pra Seleção desde o começo.
— Que história é essa?
— Ele mesmo falou. Guardiola, Klopp ou Ancelotti. Nenhum brasileiro na lista.
Essa conversa aconteceu em bares de todo o Brasil depois que Tite concedeu uma longa entrevista ao GE, três anos e meio após a eliminação para a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, em Al Rayyan. O ex-técnico da Seleção Brasileira abriu o jogo sobre o processo de sucessão e sobre o jogador que mais o impressionou em décadas de carreira.
Os três nomes que Tite entregou à CBF em dezembro de 2022
A revelação é precisa e documentada. Ao sair do cargo logo após a derrota nos pênaltis para os croatas — 1 a 1 no tempo regulamentar, 4 a 2 nas penalidades —, Tite foi chamado pela diretoria da CBF para uma conversa de transição. Nessa reunião, ele estabeleceu uma condição incomum: recusou-se a indicar qualquer nome brasileiro.
"Nacional, não. Internacional, sim. Se vocês escolherem um dos três, vocês vão acertar, porque era unanimidade, os três maiores naquele momento. Todo mundo sabe: Guardiola, Klopp e Ancelotti", revelou Tite ao GE.
Pep Guardiola havia conquistado a Premier League 2021/2022 com o Manchester City. Jürgen Klopp terminara a temporada com o Liverpool em segundo lugar na liga inglesa, mas com a Champions League de 2019 ainda fresca na memória recente. Carlo Ancelotti, por sua vez, acabara de erguer a Liga dos Campeões de 2021/2022 com o Real Madrid, derrotando o Liverpool na final de Paris por 1 a 0. Os três eram, objetivamente, os treinadores mais laureados do futebol mundial naquele momento.
A CBF ignorou a sugestão num primeiro momento. Ramon Menezes assumiu em caráter interino, depois veio Fernando Diniz — que chegou a classificar o Brasil para a Copa do Mundo de 2026 —, depois Dorival Júnior. Só no quarto movimento o nome de Ancelotti entrou de fato. O italiano, que havia deixado o Real Madrid ao fim da temporada 2024/2025 após conquistar o Mundial de Clubes, assumiu o comando da Canarinho para liderar o ciclo final rumo ao torneio que começa em junho de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México.
Por que Tite descartou técnicos brasileiros sem dar um nome sequer
A postura de Tite merece análise histórica. Desde 1958, quando Vicente Feola conduziu o Brasil ao primeiro título mundial, o país adotou uma tradição quase inabalável de técnicos nacionais à frente da Seleção. Feola, Aymoré Moreira em 1962, Mário Zagallo em 1970, Carlos Alberto Parreira em 1994, Zagallo novamente em 1998, Parreira outra vez em 2006 — a lista é longa e homogênea.
Tite quebrou essa lógica discursiva em 2022, não por desprezo ao futebol brasileiro, mas por uma leitura pragmática do momento. Em suas palavras ao GE, ele pediu à CBF que preservasse a estrutura técnica da Seleção — análise de desempenho, departamento de performance, rede de contatos — até que o novo treinador chegasse para buscar informações e montar seu próprio staff. A mensagem implícita era clara: o problema não era metodológico, era de gestão de ciclo.
"Coloquei para eles: que tenham luz para a escolha, estou saindo, mas mantenham a estrutura básica da Seleção até escolherem o técnico", disse Tite.
A recusa em indicar brasileiros não foi desdém — foi estratégia de blindagem. Tite sabia que qualquer nome nacional que ele sugerisse viraria alvo político imediato. Ao apontar três estrangeiros de reputação global, ele transferia o peso da decisão para a CBF sem expor colegas de profissão ao desgaste de uma indicação pública de um técnico recém-eliminado.
O SportNavo mapeou os ciclos de troca de comando desde 2002: o Brasil trocou de técnico seis vezes entre o pentacampeonato e a chegada de Ancelotti, com aproveitamento médio de 68,3% nos jogos das Eliminatórias Sul-Americanas. Nenhum desses ciclos teve continuidade de mais de quatro anos com o mesmo treinador — dado que reforça a instabilidade estrutural que Tite tentou, sem sucesso, mitigar com sua recomendação.
Neymar acima de Ronaldo Fenômeno — e o que os números sustentam
Neymar marcou 77 gols em 125 jogos pela Seleção Brasileira até sua última partida oficial, tornando-se o maior artilheiro da história da Canarinho, superando Pelé (77 gols em 92 jogos). Ronaldo Fenômeno terminou sua carreira com 62 gols em 98 partidas pela Seleção, com dois títulos mundiais (1994 e 2002) e o troféu de artilheiro da Copa de 2002, com oito gols. Ronaldinho Gaúcho marcou 33 gols em 97 jogos e foi eleito melhor jogador do mundo pela FIFA em 2004 e 2005.
Tite trabalhou com Ronaldo Fenômeno no Corinthians, já na fase final da carreira do Fenômeno, em 2009. Encontrou Ronaldinho Gaúcho no Grêmio, quando o meia ainda era jovem e se preparava para a transferência ao PSG, em 2001. Com Neymar, o convívio foi de 2016 a 2022, seis anos de trabalho contínuo na Seleção.
"O capítulo Neymar comigo foi o maior atleta, com maiores atributos técnicos, que eu vi e que trabalhou comigo", afirmou Tite, citando ainda Renato Augusto, Jadson, Valdivia, Matheus Pereira, Arrascaeta, Pedro e D'Alessandro como outros nomes de alto nível com quem conviveu.
A declaração tem peso técnico, não apenas afetivo. Tite é conhecido por avaliações racionais — foi ele quem, em 2018, apostou em Coutinho e Firmino como titulares numa Seleção que chegou às quartas de final na Rússia. Eleger Neymar acima de Ronaldo Fenômeno — bicampeão mundial, artilheiro da Copa de 2002 com oito gols em sete jogos, Bola de Ouro em 1997 e 2002 — é um julgamento técnico que vai além da saudade.
Quando perguntado se levaria Neymar para a Copa do Mundo de 2026, Tite recuou com elegância: "Isso não compete a mim". A resposta não foi omissão — foi respeito ao trabalho de Carlo Ancelotti, que divulga a lista final de convocados em 18 de maio de 2026, com 33 dias para a estreia do Brasil no torneio.









