Todo mundo sabe que a Libra fechou contrato com a Globo até 2029. O que ainda não ficou claro para boa parte do mercado é que esse acordo, na visão do presidente do Flamengo Luiz Bap, tem falhas estruturais tão evidentes que ele já avisou publicamente: a renegociação não é hipótese, é questão de tempo. A fala aconteceu durante a São Paulo Innovation Week, mas o recado foi endereçado a um auditório bem maior.
O contrato que revirou o estômago de Bap
A crítica central de Bap mira uma cláusula específica do acordo firmado pela gestão anterior do Flamengo com a emissora: se um clube da Libra for rebaixado para a Série B, a receita do bloco diminui automaticamente. Mas o inverso não existe — se um clube da segunda divisão sobe e passa a integrar o grupo, nenhum centavo adicional é acrescentado ao contrato. Foi exatamente o que ocorreu com o Remo, que subiu em 2025 e passou a disputar a Série A em 2026 sem gerar qualquer ajuste financeiro para o bloco.
"Uma burrice inacreditável. Como você aceita que você perde a receita se o clube cair e, se ganhar, não aumenta nada? Se cada clube que entra você aumenta 38 jogos, como não entra mais dinheiro? Contrato existe pra ser renegociado. Está escrito, mas nós vamos encarar isso. Essas e outras discussões. Vai ser divertido", disse Bap no evento.
O argumento do dirigente tem respaldo numérico. A Amazon Prime Video pagou R$ 264 milhões para transmitir apenas um jogo por rodada do Brasileirão — sem nem ter direito de escolher qual partida exibir. Bap usou esse dado para construir um raciocínio direto: se o Flamengo oferecesse exclusividade total dos seus jogos ao streaming, o valor seria superior ao que o clube recebe dentro da lógica coletiva da Libra.

"A Amazon pagou R$ 264 milhões para transmitir um jogo por rodada e sem saber qual é o jogo. Imagina se o Flamengo chega para Amazon e fala: 'vou entregar todos os jogos pra você de forma exclusiva', eles pagariam mais ou menos que isso?", questionou o presidente rubro-negro.
A narrativa de que a Libra foi um avanço merece revisão
Circulou durante meses a leitura de que a Libra representava uma ruptura com o modelo antigo de comercialização de direitos. Bap desmonta essa narrativa com frieza: o bloco, na prática, reproduziu o mesmo mecanismo dos últimos 25 anos — vendeu tudo para a Globo, de forma centralizada, sem diversificação de plataformas. O bloco rival, a FFU, adotou estratégia diferente e distribuiu seus direitos entre mais de um canal, diluindo o risco e potencialmente ampliando a receita.
Seria exagero chamar de revolução o que a Libra fez — mas é uma revolução em escala de press release, não de balanço financeiro.
A apuração do SportNavo indica que a pressão de Bap por renegociação não é um movimento isolado: ela se conecta diretamente ao projeto de criação de uma liga de clubes no Brasil, tema que voltou à pauta com força em 2026. O presidente do Flamengo defende que a CBF precisa estar dentro dessa estrutura — não como reguladora, mas como parceira institucional que confere legitimidade ao modelo.
Por que a CBF é a chave que Bap quer girar
A posição do Flamengo em relação à CBF surpreende quem acompanhou os embates entre clubes grandes e a confederação nos últimos anos. Mas há lógica comercial por trás: uma liga sem o aval da CBF enfrenta riscos jurídicos e operacionais que podem inviabilizar o projeto antes mesmo de ele sair do papel. Bap entende que o atalho mais seguro passa pela negociação com a entidade, não pelo confronto.
Qual é o prazo real para essas movimentações tomarem forma concreta?
A janela é curta. O contrato com a Globo vai até o fim de 2029, o que significa que qualquer renegociação relevante precisa ser iniciada nos próximos 18 a 24 meses para ter peso real. Se o Flamengo não conseguir alterar as cláusulas assimétricas que Bap critica — especialmente a do rebaixamento sem contrapartida de acesso — o clube chega à renovação de 2030 em posição enfraquecida. A próxima reunião formal da Libra, prevista para o segundo semestre de 2026, deve ser o palco onde Bap apresentará formalmente sua proposta de revisão contratual aos demais clubes do bloco.









