4 nomes. É o número que Ilia Topuria precisou para resumir décadas de história do UFC em uma entrevista de uma hora ao canal DeepCut, publicada nesta semana. O campeão peso leve — que tem cartel invicto no MMA com 16 vitórias, sendo 12 por finalização ou nocaute — escolheu Jon Jones, Georges St-Pierre, Conor McGregor e Anderson Silva como os quatro maiores lutadores da história da organização. A lista não é aleatória: três dos quatro nomes conquistaram cinturões em mais de uma categoria de peso, e todos têm finish rate acima de 60% ao longo de suas carreiras no octógono.

O que Jones, GSP, McGregor e Anderson têm em comum além dos cinturões

Jon Jones é bicampeão peso-meio-pesado e ex-campeão peso-pesado, com cartel de 27 vitórias e apenas 1 derrota oficial no UFC — um DQ por cotovelada ilegal contra Matt Hamill em 2009, resultado que a maioria dos analistas considera controverso. Georges St-Pierre dominou o welterweight por quase uma década e ainda subiu para o middleweight para conquistar o cinturão vago em 2017, acumulando 13 defesas de título ao longo da carreira. Conor McGregor replicou o mesmo caminho de Topuria: featherweight e lightweight, tornando-se o primeiro a segurar os dois cinturões simultaneamente em 2016. Anderson Silva defendeu o cinturão dos médios 10 vezes consecutivas entre 2006 e 2013, marca que permanece como recorde absoluto da divisão.

Do ponto de vista técnico-marcial, o que une esses quatro atletas é a capacidade de ditar o ritmo de uma luta em múltiplos planos — striking de longa distância, clinch, wrestling e grappling. Jones, por exemplo, tem takedown accuracy histórica acima de 50% combinada com um striking differential positivo em praticamente todas as suas lutas no octógono. GSP encerrou sua carreira com takedown accuracy de 76%, uma das mais altas entre campeões de longa data. McGregor e Anderson Silva, por sua vez, construíram legados com base em precisão e timing — não em volume de golpes.

Por que Topuria escolheu Jones como o melhor striker — e a lógica faz sentido

A escolha mais provocadora de Topuria foi eleger Jones como o melhor striker do Mount Rushmore, acima de McGregor e Anderson Silva — dois atletas que construíram carreiras inteiras sobre a qualidade do striking. O campeão peso leve explicou a lógica com precisão técnica:

"E vou te dizer por que escolheria Jon Jones. Talvez ele não tenha aquela frequência de socos e tudo mais, mas toda vez que ele joga algo, ele se protege, ele sabe quando soltar um golpe. Ele tem um grande QI. Por isso eu diria que escolheria o striking dele."

A análise de Topuria toca em um conceito fundamental no MMA de alto nível: striking differential não é sinônimo de volume. Jones tem, historicamente, um striking accuracy acima de 57% nos dados do UFC, enquanto a média da divisão peso-pesado gira em torno de 43%. Mais revelador ainda é o padrão de defesa: Jones raramente fica exposto após soltar combinações, um indicador direto de consciência posicional e controle de distância. Pense em como um maestro de jazz escolhe as notas que não toca — o silêncio entre os golpes de Jones é tão calculado quanto o impacto deles.

McGregor, que assim como Topuria conquistou os cinturões de featherweight e lightweight, aparece na lista com um cartel de 22 vitórias no MMA, sendo 19 por nocaute ou TKO — finish rate de 86% que justifica sua presença entre os maiores. Anderson Silva, por sua vez, tem 34 vitórias no MMA com striking accuracy que chegou a 67% em seu melhor período no UFC, entre 2007 e 2012.

O lutador perfeito na visão do campeão e o efeito cascata nas divisões

Além do Mount Rushmore, Topuria foi desafiado a montar o lutador perfeito combinando atributos de diferentes atletas. Para o grappling, ele ficou dividido entre Charles Oliveira — adversário que enfrentou e nocauteou no UFC 308, em outubro de 2024, para conquistar o cinturão dos leves — e Demian Maia, o especialista em jiu-jitsu brasileiro que encerrou a carreira com 26 vitórias no MMA e é considerado um dos maiores grappling specialists da história do esporte.

Para o cardio, a resposta de Topuria foi imediata: Merab Dvalishvili, seu compatriota georgiano e atual campeão peso-galo. A justificativa veio acompanhada de dado empírico:

"Lembro da última vez que ele veio à minha casa, fizemos, não sei, 10 ou 12 rounds. E eu falei: cara, me deixa em paz, não quero fazer mais nada. E ele estava tentando fazer mais rounds e acabou fazendo, não sei, 35 ou 30 rounds. Ele não cansa. Não sei se é corrida ou o que é, mas ele é diferente."

A escolha de Dvalishvili tem respaldo nos dados: o georgiano tem média de 9,2 takedown attempts por 15 minutos no UFC, com cardio que lhe permite manter esse ritmo do primeiro ao quinto round sem queda perceptível de performance — algo documentado em suas lutas contra Petr Yan e Sean O'Malley.

Para o boxing dentro do MMA, Topuria citou Darren Till, Petr Yan, Conor McGregor e, de forma surpreendente, seu irmão Aleksandre Topuria, que soma cartel de 7-1 no MMA e 2-0 no UFC com vitórias sobre Colby Thicknesse e Bekzat Almakhan em 2025.

"Ele não é mais um lutador do UFC", disse Topuria sobre Till, "mas o boxing dele era bom. Acho que agora ele está lutando no boxe. Conor também era um bom boxeador. Petr Yan. E claro meu irmão. Eu sei como ele bate. E para mim, ele é o melhor boxeador do UFC agora porque eu conheço o nível dele."

O que a lista revela sobre a visão técnica do campeão dos leves

A escolha de Topuria não é apenas uma lista de popularidade — ela funciona como um mapa de influências técnicas. Ao eleger Jones pelo QI de striking e não pelo nocaute power, Topuria demonstra que sua própria filosofia de luta prioriza eficiência sobre espetáculo. Seu cartel no UFC inclui nocautes sobre Josh Emmett, Alexander Volkanovski e Charles Oliveira, todos com striking accuracy acima de 60% na luta, padrão que remete diretamente ao modelo jonesiano de precisão posicional.

A presença de Anderson Silva reforça a valorização do timing sobre o volume — Silva tinha médias de striking que pareciam baixas no papel, mas com accuracy que destruía adversários com uma fração dos golpes que outros lutadores precisavam soltar. GSP representa o modelo completo de campeão que controla wrestling, clinch, takedown e ground and pound sem depender de um único atributo para vencer. McGregor fecha o quarteto com a demonstração de que striking de elite pode funcionar mesmo em uma categoria acima do peso natural.

Em matéria do SportNavo, a análise do Mount Rushmore de Topuria aponta para algo além de uma opinião pessoal: é a declaração de um campeão invicto sobre que tipo de lutador ele quer ser — e quais padrões ele usa para medir a própria evolução. Topuria defende o cinturão dos leves pela primeira vez de forma oficial ainda em 2026, com possíveis adversários incluindo Arman Tsarukyan, que venceu Mateusz Gamrot por decisão unânime e acumula 22 vitórias no cartel. O georgiano tem o mapa — falta o próximo octógono.