Três pênaltis. Mesmo jogo. Mesmo batedor. Dezassete minutos de puro teatro do absurdo dentro do estádio El Teniente, em Rancagua. O Grêmio empatou em 0 a 0 com o Palestino na quarta-feira, pela 3ª rodada do Grupo D da Copa Sul-Americana, e o protagonista involuntário da noite foi Carlos Vinícius — num script que Buñuel talvez aprovasse, mas que a torcida Tricolor preferiria jamais ter assistido.

O roteiro do pesadelo

Aos 9 minutos do primeiro tempo, Tetê foi derrubado na área pelo goleiro Pérez e o árbitro equatoriano Guillermo Guerrero assinalou a penalidade máxima. Carlos Vinícius tomou a bola com confiança e bateu no canto — Pérez acertou o lado, a bola ainda explodiu na trave. A arbitragem, no entanto, detectou avanço do goleiro antes do chute e mandou repetir. Segunda oportunidade: Vinícius mudou o ângulo, Pérez espalmou outra vez em defesa espetacular, mas foi flagrado novamente saindo da linha antes do contato, desta vez levando cartão amarelo. Terceira e última chance, aos 17 minutos: mesmo com o peso psicológico de dois fracassos consecutivos e o goleiro chileno no limite físico — Pérez precisou de atendimento médico após a sequência —, o camisa 9 gremista desperdiçou de novo, sem qualquer recurso da arbitragem desta vez. Hat-trick às avessas, from the spot.

PSG 5X4 BAYERN DE MUNIQUE | JOGO COMPLETO | SEMIFINAL | CHAMPIONS LEAGUE 2025/26
O roteiro do pesadelo Três pênaltis perdidos por Carlos Viníci
O roteiro do pesadelo Três pênaltis perdidos por Carlos Viníci

Conforme levantamento do SportNavo, casos de um mesmo jogador perdendo três pênaltis em uma única partida oficial são raríssimos no futebol profissional mundial. A lista é tão curta que praticamente se encerra em si mesma. Quem viveu o futebol europeu de perto sabe que até nos grandes estádios — do Camp Nou ao Tottenham Hotspur Stadium — uma sequência dessas seria tratada como evento singular, digno de cápsula do tempo.

Weverton segura o empate, mas o Grêmio sangra

Abalado pela sequência de desperdícios, o Tricolor gaúcho viu o Palestino crescer progressivamente. O time chileno, encorajado pela performance heroica de Pérez, passou a impor um pressing mais intenso e exigiu grandes intervenções do goleiro Weverton. Aos 39 minutos da etapa inicial, o arqueiro brasileiro se esticou para uma defesa difícil num chute de primeira; no segundo tempo, aos 13 minutos, espalmou um perigoso arremate de longa distância de Gallegos. Sem Weverton em noite inspirada, o empate poderia ter virado derrota.

O técnico Luís Castro mexeu no time na reta final tentando dar outro shape ao ataque, mas a noite simplesmente não pertencia ao Grêmio. Aos 35 minutos do segundo tempo, Carlos Vinícius finalmente balançou as redes — alívio momentâneo que durou apenas o tempo de o VAR verificar um toque de mão na origem da jogada. Gol anulado. Aos 41 minutos, o Palestino ficou com dez homens após Fernando Meza receber cartão vermelho direto por entrada violenta em Gabriel Mec. Mesmo com a vantagem numérica nos acréscimos, o Grêmio não furou o bloqueio chileno.

O que isso representa para Vinícius e para o time

Quem passou algum tempo acompanhando o futebol inglês sabe que a mental resilience de um atacante pode ser destruída em questão de semanas por um episódio de magnitude menor do que este. No Bolton de Sam Allardyce, na Leicester de Ranieri, os psicólogos esportivos trabalhavam ativamente para blindar jogadores após falhas em cobranças decisivas. No Brasil, esse suporte raramente recebe visibilidade, mas a necessidade é idêntica. Carlos Vinícius, que tem 32 anos e histórico de passagens por Benfica e Tottenham, carregará o peso desta noite no vestiário e, inevitavelmente, no próximo jogo.

Nas palavras do atacante após a partida, segundo informações do clube, Vinícius admitiu que a sequência foi "muito difícil de processar" e prometeu trabalhar para virar a página o quanto antes. A declaração, ainda que contida, revela a dimensão do impacto psicológico. Uma cobrança perdida é um acidente; duas, uma fatalidade; três, um evento que precisa de resposta técnica e emocional estruturada.

O Grêmio e a matemática da Sul-Americana

A análise exclusiva do SportNavo mostra que, apesar do tropeço constrangedor, a situação do Grêmio no Grupo D ainda é administrável: o clube gaúcho soma 4 pontos após três rodadas, o que mantém a classificação em aberto. O pressing alto que Luís Castro tentou implementar no El Teniente funcionou em trechos, mas a eficiência ofensiva — problema que não é exclusivamente de Vinícius — segue como o calcanhar de Aquiles do time. Nos grupos da Copa Sul-Americana, a margem para desperdício é estreita, e noites como a de Rancagua cobram juros nas rodadas seguintes.

O Grêmio retorna a campo pelo torneio continental na próxima semana, quando recebe o Palestino no estádio Arena do Grêmio, em Porto Alegre, pela 4ª rodada da fase de grupos — uma espécie de revancha imediata que o destino colocou no calendário como se fosse roteiro de série dramática. Para Carlos Vinícius, será a primeira chance real de reescrever a narrativa.