O calor de Houston em junho não perdoa. No NRG Stadium, nesta quarta-feira (17), às 14h no horário de Brasília, o ar condicionado vai trabalhar horas extras enquanto Cristiano Ronaldo — 41 anos, 973 gols na carreira, sete Copas do Mundo — pisa no gramado pela última vez em um Mundial. Do outro lado, a República Democrática do Congo. Uma seleção que não via esse palco desde 1974, quando ainda se chamava Zaire e saiu da fase de grupos sem marcar um gol sequer. Cinquenta e dois anos de silêncio. E agora, o retorno acontece justamente contra o maior espetáculo individual que o futebol ainda tem em cartaz.

52 anos de espera e um adversário que o mundo inteiro vai assistir

A RD Congo chegou ao Mundial pelos fundos — ou, mais precisamente, pela repescagem intercontinental. Depois de terminar como uma das melhores segundas colocadas nas Eliminatórias africanas, a seleção congolesa bateu a Jamaica e garantiu sua vaga. Não é o caminho dos favoritos, mas é o caminho que importa. O Grupo K, composto ainda por Uzbequistão e Colômbia, coloca os congoleses diante de Portugal logo de saída — o adversário mais pesado, no jogo mais assistido da chave.

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O atacante Cédric Bakambu, do Betis, capturou bem o espírito do momento.

"É realmente uma loucura, e vamos aproveitar o jogo. Portugal é uma grande seleção que pode ganhar a Copa do Mundo, então eles são os favoritos, e pronto, mas temos que jogar. Temos uma Copa do Mundo com 48 seleções, e a melhor coisa de uma Copa do Mundo tão longa é ter mais seleções africanas que estão fazendo grandes partidas", disse o veterano atacante.

Bakambu não é o único nome conhecido na delegação congolesa. A defesa conta com Aaron Wan-Bissaka e Axel Tuanzebe, ambos ex-Manchester United e, portanto, familiarizados com a pressão de grandes palcos europeus. O ataque tem Yoane Wissa, do Newcastle, como referência de velocidade e profundidade. É um elenco sem estrelas de primeira grandeza, mas com estrutura suficiente para incomodar — como a Nigéria fez com Portugal há apenas sete dias, em Leiria.

A estratégia de Tuanzebe e o plano para calar o NRG Stadium

Tuanzebe foi direto ao ponto quando perguntado sobre a missão de marcar Ronaldo. Sem floreios diplomáticos, o zagueiro do Burnley traçou sua filosofia de jogo com uma clareza que soa quase cirúrgica.

"Cristiano Ronaldo é um jogador de elite, um dos maiores jogadores de todos os tempos, e ainda tem momentos de grandeza pela frente, mesmo estando perto do fim da carreira. Podemos respeitá-lo e elogiá-lo à vontade, mas, no fim das contas, somos concorrentes, e assim que o apito soar para o primeiro minuto de jogo, não o verei como Cristiano Ronaldo, mas sim como mais um adversário, e farei o meu melhor para tentar pará-lo", afirmou o defensor.

A frase tem peso tático além do retórico. A marcação alta e o contragolpe em velocidade — estratégia que a Nigéria usou para segurar Portugal durante boa parte do amistoso de 10 de junho — são ferramentas que a RD Congo domina. Wissa, inclusive, já enfrentou Ronaldo em partidas pelo futebol europeu e minimizou a aura do adversário: "Eu já joguei contra o Cristiano Ronaldo antes, então para mim está tudo bem", disse o atacante do Newcastle, com uma tranquilidade que pode ser lida como confiança ou como estratégia psicológica.

Do ponto de vista dos dados avançados, a RD Congo apresenta um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) relativamente baixo nas Eliminatórias — métrica que mede a intensidade da pressão defensiva de uma equipe. Quanto menor o número, mais agressiva é a marcação. Isso significa que os congoleses tendem a pressionar alto e recuperar a bola em campo adversário, exatamente o tipo de comportamento que tirou Portugal do ritmo contra os nigerianos. Para o leigo: pense no PPDA como um termômetro de quanto uma equipe corre atrás da bola no campo do adversário — e a RD Congo corre bastante.

Ronaldo perdeu gols em Leiria, mas Portugal ainda é favorito

O amistoso contra a Nigéria, disputado no Estádio Dr. Magalhães Pessoa em Leiria no dia 10 de junho, serviu como termômetro e como alerta. Ronaldo esteve em campo por 64 minutos e desperdiçou ao menos duas chances claras — uma cara a cara com o goleiro logo aos 8 minutos, outra dentro da área sem marcação no segundo tempo. As caras feitas pelo camisa 7 a cada oportunidade perdida diziam o que nenhuma estatística precisava confirmar: o craque queria deixar sua marca antes de embarcar para os Estados Unidos.

Quem resolveu foi Francisco Conceição, saído do banco, aos 34 minutos do segundo tempo, após Pedro Neto ter aberto o placar e Akor Adams empatado para os africanos. Vitória por 2 a 1, apertada o suficiente para acender um sinal amarelo, mas suficiente para o técnico Roberto Martínez manter a confiança no grupo. O espanhol, aliás, não revelou o time titular para a estreia, mas deixou claro que João Neves, Vitinha, Bruno Fernandes, Pedro Neto e Ronaldo devem compor o meio e o ataque. Bernardo Silva, que ficou no banco em Leiria, deve entrar no lugar de Trincão.

52 anos de espera e um adversário que o mundo inteiro vai assistir Tuanzebe prom
52 anos de espera e um adversário que o mundo inteiro vai assistir Tuanzebe prom

Um comentarista esportivo presente na coletiva em Leiria resumiu bem o que o amistoso revelou sobre o estado de Ronaldo: "Ele ainda assusta, ainda movimenta a defesa, ainda cria espaços — mas os gols que antes caíam nos pés agora precisam ser buscados com mais esforço", disse o profissional, capturando a tensão entre a lenda que persiste e o atleta de 41 anos que o tempo inevitavelmente alcança.

Portugal chega ao Mundial em busca do primeiro título da história — e com consciência de que este pode ser o último capítulo de sua maior narrativa individual. Ronaldo tem oito gols em Copas do Mundo, nenhum deles marcado no mata-mata. A estreia contra a RD Congo, nesta quarta-feira no NRG Stadium, às 14h (horário de Brasília), com transmissão pela CazéTV, é o primeiro passo de uma jornada que pode terminar em glória ou em despedida silenciosa. Os congoleses, com 52 anos de ausência nas costas e Tuanzebe na zaga, prometem que esse primeiro passo não será dado de graça.