"Eu esperava um clima de Copa do Mundo." A frase é de Neymar, dita após o amistoso contra o Chile no Mineirão. O que ele encontrou foi algo mais complexo, mais honesto e, talvez, mais brasileiro do que qualquer cenário que tivesse imaginado: vaias, xingamentos, aplausos e um gol — tudo no mesmo estádio, na mesma noite, da mesma torcida.
O que o Mineirão revelou que os amistosos anteriores escondiam
O empate em 2 a 2 contra o Chile foi, do ponto de vista técnico, um resultado mediano para uma seleção que estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho contra Marrocos. Mas o placar importou menos do que o ambiente. Belo Horizonte recebeu o camisa 10 com aquela mistura contraditória que só o futebol brasileiro produz: parte da arquibancada vaiou sua entrada em campo, outra parte o aplaudiu de pé, e uma terceira — a mais ruidosa em alguns momentos — foi direta nos xingamentos. Quando a bola balançou a rede, o Mineirão inteiro se levantou. Esse é o Brasil que vai à Copa.
Historicamente, a relação entre Neymar e a torcida sempre oscilou entre adoração e cobrança. Em 2013, ele foi o ídolo absoluto da Copa das Confederações, com quatro gols em seis jogos e o Brasil campeão invicto. Em 2014, a fratura na vértebra lombar o transformou em mártir. Em 2022, no Catar, chegou como esperança máxima, sofreu lesão no tornozelo logo na estreia contra a Sérvia e saiu carregado numa cadeira de rodas na eliminação para a Croácia nas quartas de final. Cada ciclo deixou uma camada diferente de sentimento acumulado nas arquibancadas.
O que o Mineirão fez naquele amistoso foi expor todas essas camadas de uma vez. Não foi incoerência da torcida — foi memória afetiva funcionando em tempo real.
Neymar entre a lesão e a estreia marcada para 13 de junho
O contexto que cerca o camisa 10 neste momento é delicado. Para o amistoso deste domingo (31) contra o Panamá, no Maracanã, Neymar está fora — trata-se de uma lesão muscular na panturrilha direita que o impediu de atuar na despedida da Seleção de sua torcida. Carlo Ancelotti, em coletiva realizada neste sábado (30) na Granja Comary, em Teresópolis, foi enfático ao descartar qualquer hipótese de corte: o técnico aguarda o camisa 10 para a estreia no Mundial.
"A preparação foi muito boa, um ambiente muito bonito, animado. É uma grande oportunidade para todos fazermos algo importante para esse país", declarou Ancelotti, ao ser perguntado sobre o estado geral do grupo.
Sobre a ausência de Neymar diante do Panamá, o italiano manteve o mesmo tom de tranquilidade que marca sua gestão. A escalação confirmada tem Alisson; Wesley, Léo Pereira, Bremer e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Raphinha, Vinicius Jr., Luiz Henrique e Matheus Cunha — uma formação que, segundo o próprio Ancelotti, deve ser a base do Brasil no Mundial, com ajustes pontuais na zaga quando o elenco estiver completo.
Marquinhos, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli também ficam fora do jogo deste domingo por terem disputado a final da Champions League entre PSG e Arsenal, neste sábado (30), em Budapeste. O trio se reapresenta ao grupo nos próximos dias.
Ancelotti e a pressão que não pode ser de um só homem
Quando faz uma análise do elenco, Ancelotti escolhe as palavras com precisão cirúrgica. Quando faz uma declaração sobre Neymar, ele redistribui o peso antes que alguém possa colocá-lo nos ombros de um único jogador. Essa é a estratégia do italiano para um grupo que carrega 24 anos sem título mundial — desde o penta conquistado em 2002, no Japão e na Coreia do Sul, com Ronaldo Fenômeno marcando dois gols na final contra a Alemanha.
"Dizem que nesse momento não temos uma estrela, não temos Pelé, Romário, Ronaldo. É verdade, mas responsabilidade compartilhada é muito bom", afirmou o treinador, em entrevista coletiva neste sábado, véspera do amistoso contra o Panamá.
A declaração tem peso histórico. Pelé venceu três Copas (1958, 1962 e 1970). Romário foi o melhor jogador do mundo em 1994 e o artilheiro decisivo do tetracampeonato. Ronaldo marcou 15 gols em Copas do Mundo — recorde que só foi igualado por Miroslav Klose, em 2014. Ancelotti não está diminuindo esses nomes: está dizendo que o Brasil de 2026 precisa de outro modelo para vencer.
Esse modelo passa por uma defesa organizada. O técnico foi direto ao admitir que o trabalho defensivo é o centro da preparação: "Trabalhamos muito defensivamente. Não quero tirar a criatividade dos jogadores da frente. Eles têm muita qualidade, não quero criar confusão. A nível defensivo é uma informação diária até o último jogo dessa Copa", disse o italiano, numa declaração registrada em matéria do SportNavo antes do amistoso.

A escalação contra o Panamá reflete essa lógica. A dupla de volantes Casemiro e Bruno Guimarães tem função dupla — proteger a linha defensiva e dar a saída de bola que libera Vinicius Jr. e Raphinha. Ancelotti confirmou que fará 11 substituições no segundo tempo, o que significa que praticamente todo o elenco disponível terá minutos antes do embarque para os Estados Unidos, previsto para a tarde de segunda-feira (1º de junho).
O Brasil enfrenta o Egito em Cleveland no dia 6 de junho — último teste antes da estreia no Mundial. A data de 13 de junho, em Nova Jersey, contra Marrocos, já está no horizonte de todos. Neymar, lesionado ou não, é a pergunta que o Mineirão começou a responder e que o torneio vai concluir.
No Mineirão, quando a bola entrou, o camisa 10 correu em direção à torcida que segundos antes o vaiava. Ela o aplaudiu. Essa cena, repetida em versões diferentes ao longo de 15 anos de Seleção, é o Brasil que embarca para os Estados Unidos.









