Mas esse Gyökeres, cara. Você viu o que ele fez no domingo?
Vi. Mas ele é o Kane? É o Lewandowski?
Não. Ele é outra coisa. E talvez seja exatamente isso que o Arsenal precisava.

Há perguntas no futebol que só o tempo responde com precisão cirúrgica. Viktor Gyökeres passou anos sendo a resposta certa para a pergunta errada — revelado na Suécia, esquecido nas divisões inferiores da Inglaterra, redescoberto em Portugal — até que o Arsenal decidiu que a questão era dele para resolver.

Onde ele está no jogo global

A Premier League de 2025/2026 é, talvez, o campeonato mais disputado da última década no que diz respeito à posição de centroavante. Não é exagero: Erling Haaland segue sendo o padrão de referência física e volumétrica, Alexander Isak redesenhou o Liverpool, e o próprio Arsenal conviveu por anos com a ausência de um atacante de área genuíno. Gyökeres chega nesse contexto com 14 gols em 34 jogos na temporada atual — números que, numa leitura fria, podem parecer modestos para um centroavante de elite, mas que ganham textura quando se entende o ecossistema tático em que ele opera.

Para ter um paralelo histórico: quando Thierry Henry chegou ao Arsenal em 1999, ele também levou uma temporada inteira para calibrar seu papel num sistema que não havia sido desenhado para ele. O francês terminou aquela primeira campanha com números que não anunciavam o que viria depois. O futebol de Mikel Arteta, como o de Arsène Wenger nos anos 2000, exige do centroavante uma leitura coletiva antes de liberar o instinto individual. Gyökeres parece estar nessa fase de calibragem — e os 14 gols sugerem que o processo está adiantado.

O que os números dizem na comparação

Quando faz comparações entre centroavantes da Premier League nesta temporada, o analista inevitavelmente esbarra na assimetria de contexto. Haaland joga num City construído para maximizar finalizações; Isak tem o Liverpool de Slot como palco; Gyökeres chegou a um Arsenal que, até recentemente, improvisava Merino como centroavante na Champions League — detalhe que diz muito sobre a urgência da contratação e sobre o processo de adaptação ainda em curso.

Quando faz 14 gols em 34 jogos, ele entrega uma média que poucos centroavantes de clubes do top-6 inglês sustentam na primeira temporada após uma mudança de liga. O próprio Didier Drogba, para citar um nome que os anos 2000 consagraram, marcou 10 gols em sua estreia pelo Chelsea em 2004/2005 antes de explodir com 16 no ano seguinte. A curva de adaptação de grandes centroavantes ao futebol inglês raramente é vertical — ela é, quase sempre, uma rampa.

O currículo que Gyökeres traz de Portugal reforça a tese de que os números atuais são um piso, não um teto. Pelo Sporting, foi artilheiro da Primeira Liga em duas temporadas consecutivas de título — 2023/24 e 2024/25 — e acumulou 63 gols somando clube e seleção em sua última temporada em Lisboa, o que lhe rendeu o Troféu Gerd Müller em 2025. Esse prêmio, criado em homenagem ao maior artilheiro da história da Copa do Mundo, não é dado a jogadores que marcam por acaso.

Onde ele se distingue dos rivais

O que separa Gyökeres dos centroavantes puramente instintivos é a construção do gol antes do gol. Com 189 cm e 90 kg, ele tem a compleição física de um número 9 clássico — pense no Ronaldo Fenômeno de 1997, no Inzaghi que dominava a área de Milão nos anos 2000 — mas combina isso com uma mobilidade que não é comum nesse perfil. Ele não é um pivô estático; ele arrasta marcadores, abre espaços e, quando recebe de costas para o gol, tem repertório técnico para girar.

A ascendência húngara que carrega no sobrenome — Gyökeres significa "raízes" em húngaro — talvez seja uma metáfora involuntária para sua forma de jogar: ele planta os pés, firma posição e cria estrutura para que os outros floresçam. A assistência registrada nesta temporada é um número baixo, mas subestima o quanto ele libera espaços para Saka, Martinelli e Ødegaard operarem com mais liberdade.

Há também o contexto da Copa do Mundo de 2026 pairando sobre sua temporada. As manchetes recentes sobre a Suécia — que espera 32 anos para voltar a uma Copa do Mundo — colocam Gyökeres no centro de uma narrativa nacional que vai muito além do Arsenal. Ao lado de Isak e Elanga, ele carrega a expectativa de um país inteiro de reviver o terceiro lugar de 1994, quando Tomas Brolin e Henrik Larsson eram os heróis de uma geração. Esse peso, longe de ser um fardo, costuma elevar jogadores da sua estatura.

A trajetória que aponta o teto

A história de Gyökeres é, antes de tudo, uma história de paciência estratégica. Revelado pelo Brommapojkarna, em Estocolmo, ele fez sua estreia profissional em 2015 e ajudou o clube a conquistar a Superettan — a segunda divisão sueca — em 2017. Em 2018, assinou com o Brighton, mas a Premier League não chegou: foram empréstimos, adaptações, mais de 100 jogos nas divisões inferiores da Inglaterra, 43 gols acumulados antes de alguém finalmente enxergar o que estava diante dos olhos.

O Sporting de Portugal foi o divisor de águas. Em Lisboa, Gyökeres encontrou o ambiente certo — uma liga tecnicamente exigente, mas com espaço para que um centroavante de área se expressasse sem as pressões imediatas da Premier League. Dois títulos da Primeira Liga, uma Taça de Portugal em 2024/25, dois troféus de artilheiro e o Gerd Müller no bolso: quando o Arsenal bateu à porta, ele chegou como produto acabado, não como promessa.

Aos 27 anos, Gyökeres está na janela de tempo em que centroavantes de alto nível costumam viver seus melhores anos. Lewandowski ganhou sua primeira Chuteira de Ouro europeia aos 28. Drogba explodiu no Chelsea entre os 26 e os 30. A janela está aberta — e o Arsenal, que tem uma conta histórica a acertar no Olímpico de Wembley e na Champions League, precisa que ela permaneça assim.

Onde ele está no jogo global Viktor Gyökeres e o peso de uma camisa 1
Onde ele está no jogo global Viktor Gyökeres e o peso de uma camisa 1

Viktor Gyökeres não veio ao Arsenal para se adaptar. Veio para decidir.