A jogada que abriu caminho para o primeiro gol do Brasil na vitória por 3 a 1 sobre a Croácia durou exatos 8 segundos, mas revelou décadas de evolução do futebol brasileiro. Vinicius Junior recebeu pela esquerda, driblou três marcadores croatas em sequência e serviu Danilo para balançar as redes em Orlando. Walter Casagrande não hesitou na comparação: se fosse Neymar executando a mesma jogada, estariam falando do "sucessor do Pelé".

"Foi uma jogada espetacular. Uma jogada que, se fosse o Neymar que tivesse feito, hoje todo mundo estaria falando de genialidade. Estariam falando, iriam estar falando de monstro, de sucessor do Pelé", disparou Casagrande.

Os números sustentam a evolução técnica do atacante do Real Madrid. Desde sua estreia na Seleção em setembro de 2019, contra Peru, Vinicius disputou 35 partidas oficiais, marcou 5 gols e distribuiu 8 assistências. Para comparação, Neymar aos 24 anos - idade atual de Vini Jr. - somava 54 jogos pelo Brasil, com 35 gols e 21 assistências. A diferença estatística é evidente, mas o contexto histórico exige análise mais profunda.

A maturidade tática que faltava ao jovem prodígio

Na Copa do Mundo de 2022, Vinicius Junior disputou apenas 204 minutos em campo, entrando como substituto em quatro das cinco partidas brasileiras no Catar. Tite o escalou como titular apenas contra a Coreia do Sul, na goleada por 4 a 1 nas oitavas de final. O técnico priorizava a experiência de Raphinha pela direita, deixando o então jovem de 22 anos no banco.

Dois anos depois, a situação se inverteu completamente. Dorival Júnior confia no atacante como peça fundamental do sistema ofensivo, utilizando-o pelos dois lados do campo. Contra a França, na derrota por 2 a 0 em novembro, Vini Jr. jogou 72 minutos pela esquerda. Diante da Croácia, assumiu a faixa direita por 63 minutos antes de ser substituído por Endrick.

A versatilidade posicional representa evolução significativa comparada aos primeiros anos na Seleção. Entre 2019 e 2021, Vinicius atuou exclusivamente pela ponta esquerda em 18 das 19 partidas disputadas. O amadurecimento tático no Real Madrid, onde conquistou duas Champions League consecutivas (2022 e 2024), refletiu diretamente em sua utilização pela amarelinha.

Comparações históricas revelam peso da responsabilidade

Casagrande acertou ao mencionar o tratamento diferenciado que receberia caso fosse Neymar executando a jogada. O camisa 10 do Al-Hilal carrega o status de principal referência técnica brasileira desde 2014, quando Pelé oficialmente o declarou "herdeiro" em evento da Copa do Mundo no Brasil. Aquela benção simbólica criou expectativas que nem sempre corresponderam à realidade estatística.

Neymar disputou quatro Copas do Mundo (2014, 2018, 2022 e será a quinta em 2026), marcando 8 gols em 22 partidas do torneio. Pelé, para comparação, fez 12 gols em 14 jogos de Copa, conquistando três títulos mundiais entre 1958 e 1970. Romário somou 5 gols em 7 partidas na Copa de 1994, sendo decisivo na conquista do tetra. Ronaldo Fenômeno marcou 15 gols em 19 jogos de Mundiais, bicampeão em 1994 e 2002.

"O Vinícius Júnior fez uma 'jogadaça' de Pelé e as pessoas ficam contidas. Porque não gostam", completou o comentarista sobre a resistência em reconhecer o talento do jovem atacante.

A pressão sobre Vinicius Junior intensificou após a eliminação nas quartas de final da Copa América de 2024, quando o Brasil perdeu nos pênaltis para o Uruguai. Ele converteu sua cobrança, mas a campanha decepcionante gerou questionamentos sobre o protagonismo da nova geração. Aos 24 anos, enfrenta o mesmo dilema que Neymar viveu aos 22, na Copa de 2014 em casa.

O momento de assumir a herança brasileira

Estatisticamente, Vinicius Junior vive o melhor momento da carreira. Na temporada 2023-24, marcou 24 gols em 39 partidas pelo Real Madrid, conquistou a Champions League e foi eleito o segundo melhor jogador do mundo pela Bola de Ouro - perdendo apenas para Rodri, do Manchester City. No clube merengue, forma dupla letal com Mbappé, somando 19 gols e 11 assistências na atual temporada europeia.

A diferença geracional com Neymar tornou-se evidente nos últimos compromissos da Seleção. Enquanto o camisa 10 sofre com lesões recorrentes no Al-Hilal - perdeu 18 partidas por problemas físicos em 2024 -, Vinicius mantém regularidade impressionante. Disputou 55 jogos na última temporada, entre Real Madrid e Seleção, marcando 26 gols e distribuindo 12 assistências.

Dorival Júnior já sinalizou a transição de liderança técnica. Nas Eliminatórias para a Copa de 2026, escalou Vinicius em 8 das 10 partidas disputadas até aqui, enquanto Neymar apareceu apenas em 2 jogos antes da lesão que o afastou por meses. O Brasil ocupa a quarta colocação com 18 pontos em 12 rodadas, classificado diretamente para o Mundial.

A próxima oportunidade para confirmar o protagonismo será em março de 2025, quando o Brasil enfrentará Colômbia e Argentina pelas Eliminatórias. Vinicius Junior precisará provar que está pronto para carregar a responsabilidade que Pelé, Ronaldo, Ronaldinho e Neymar carregaram em suas respectivas gerações da amarelinha.