O UFC foi fundado em 1993, e os nomes que assinam a certidão de nascimento são Rorion Gracie e o empresário Art Davie — com a produção executiva da Semaphore Entertainment Group (SEG), chefiada por Bob Meyrowitz. Isso é fato estabelecido. O que ninguém conta direito é que, desde o primeiro dia, havia duas visões completamente diferentes sobre o que aquele evento deveria ser — e essa tensão fundadora explica por que o UFC virou o que virou, e não outra coisa.

A escola Gracie defende o seguinte

Rorion Gracie chegou ao sul da Califórnia nos anos 1970 com uma missão clara na cabeça. Para ele, o UFC não era um evento de entretenimento — era uma demonstração científica. A família Gracie tinha desenvolvido no Brasil um sistema de jiu-jítsu adaptado para a realidade de um homem menor enfrentando adversários maiores, e Rorion queria provar ao mundo ocidental que essa arte era superior a qualquer outra. Art Davie, que havia estudado artes marciais e era publicitário de carreira, foi o elo que transformou essa ideia em produto comercializável. Juntos, desenvolveram o conceito do War of the Worlds — um torneio eliminatório em que lutadores de estilos distintos se enfrentariam sem regras rígidas, sem luvas pesadas, sem divisão de pesos.

Na visão de Rorion, o formato era secundário. O que importava era a tese: o jiu-jítsu brasileiro venceria qualquer arte marcial em combate real. Royce Gracie, irmão mais novo e escolhido como representante da família justamente por ser fisicamente menor, foi o instrumento dessa demonstração. Royce venceu o torneio inaugural em Denver, Colorado, em novembro de 1993 — e fez isso submetendo lutadores de estilos completamente diferentes, incluindo um especialista em boxe e um praticante de wrestling. Para Rorion, a prova estava feita.

O UFC nasceu como experimento científico disfarçado de espetáculo — e essa ambiguidade de propósito perseguiu o evento por anos.

A escola Davie defende o oposto

Art Davie sempre contou a história com outro acento. Para ele, o UFC era, antes de qualquer coisa, um negócio. A ideia de colocar estilos marciais diferentes para se enfrentar já existia no imaginário popular — Bruce Lee falava nisso nos anos 1970, e o vale-tudo brasileiro tinha história longa. O que Davie enxergou foi uma oportunidade de mercado: empacotar aquilo em um pay-per-view de TV a cabo e vender para um público americano ávido por adrenalina.

Davie foi quem redigiu o business plan original, quem convenceu a SEG a bancar a produção e quem moldou o torneio para ter apelo televisivo — oito lutadores, chaves eliminatórias, uma única noite. Sem essa estrutura comercial, a visão de Rorion teria ficado numa academia de Torrance, Califórnia, e nunca teria chegado a Denver. A divergência entre os dois ficou clara quando Rorion saiu do UFC logo depois dos primeiros eventos. Ele tinha conseguido o que queria — a vitória do jiu-jítsu estava registrada. Davie continuou, tentando transformar aquilo em franquia duradoura.

  • Rorion Gracie — co-fundador, detinha 25% da empresa original, saiu após os primeiros eventos
  • Art Davie — co-fundador e arquiteto comercial do conceito, também deixou a organização nos anos seguintes
  • Bob Meyrowitz / SEG — produtor executivo que manteve o UFC vivo durante os anos de crise regulatória nos EUA
  • Dana White e os irmãos Fertitta — compraram o UFC da SEG em 2001 por cerca de dois milhões de dólares e construíram o que existe hoje

Onde elas divergem na prática

Sabe o que me lembra essa disputa? No muay thai, quando você entra num clinch com alguém mais forte, tem duas filosofias: uma escola diz que você segura, controla o ritmo, gasta o adversário; outra diz que você quebra o clinch imediatamente e volta para a distância onde seu chute é mais eficiente. As duas funcionam — dependendo do lutador. O problema é quando o corner grita orientações opostas entre um round e outro.

Foi exatamente isso que aconteceu com o UFC nos primeiros anos. A escola Gracie queria um laboratório; a escola Davie queria um show. Essa tensão produziu um evento que não era totalmente nenhuma das duas coisas — e isso quase matou o UFC. Os políticos americanos, liderados pelo senador John McCain, chamaram o evento de human cockfighting e conseguiram tirar o UFC de dezenas de canais de pay-per-view nos anos seguintes. A falta de regras claras, que era proposital na visão de Rorion, tornou-se o calcanhar de aquiles comercial que Davie não soube defender.

O ponto de ruptura real foi a venda para os irmãos Lorenzo e Frank Fertitta, em 2001. Dana White, amigo dos Fertitta e ex-gerente de boxeadores, entrou como presidente. Foi aí que as duas visões originais foram descartadas e substituída por uma terceira: o UFC como esporte regulamentado, com regras unificadas (as chamadas Unified Rules of MMA), divisões de peso, sistema de pontuação e árbitros treinados. O experimento de Rorion ganhou legitimidade esportiva. O show de Davie ganhou escala global.

O que tende a prevalecer no debate histórico

Hoje, em 2026, o UFC é a maior organização de MMA do planeta, com eventos em múltiplos continentes e contratos bilionários com plataformas de streaming. Quando se faz a pergunta sobre quem fundou o UFC, a resposta correta é: Rorion Gracie e Art Davie criaram o evento; Dana White e os irmãos Fertitta criaram a empresa que existe hoje. São coisas diferentes, e confundir as duas é como confundir quem plantou a semente com quem construiu a floresta.

A visão que prevaleceu operacionalmente foi a de Davie — o UFC como produto comercial — mas com uma camada de legitimidade técnica que Rorion sempre exigiu. As regras unificadas, a exigência de luvas, os critérios médicos para os atletas: tudo isso é herança da pressão regulatória que a ausência de regras originais provocou. O jiu-jítsu brasileiro, por sua vez, ganhou o que Rorion queria desde o início: reconhecimento mundial como arte marcial eficiente. Hoje nenhum lutador competitivo de MMA ignora o ground game — isso é legado direto de novembro de 1993 em Denver.

Se você quer entender o UFC de hoje, assista aos primeiros eventos com esse contexto na cabeça: você está vendo um experimento científico sendo transmutado ao vivo em entretenimento de massa. A tensão entre essas duas almas ainda aparece em cada debate sobre regras, sobre julgamento de rounds, sobre o que conta como vitória dominante. Vale rever um UFC 1 com esse olho — a história toda está comprimida naquelas primeiras lutas.