Confesso: eu errei sobre Willian José em 2024. Quando ele retornou ao Bahia, minha leitura foi a de um atacante em fase terminal de carreira, útil para rotação, incapaz de sustentar uma temporada inteira como referência ofensiva. Os dados de 2026 me corrigiram com precisão cirúrgica.

Do outro lado da equação está Pedro Henrique, 29 anos, centroavante do Cuiabá, com um valor de mercado cinco vezes maior e uma trajetória que passou por quatro países antes de chegar à Brasileirão Série A. Os dois têm 11 gols na temporada. A pergunta real não é quem marcou mais — é quem representa melhor alocação de recurso.

Quanto cada um vale no mercado

A tabela abaixo coloca os dois em perspectiva direta:

Dimensão Willian José Pedro Henrique
Idade 34 anos 29 anos
Clube atual Bahia Cuiabá
Jogos (temporada 2026) 33 29
Gols (temporada 2026) 11 11
Assistências (temporada 2026) 6 3
Valor de mercado €1,20 milhão €6,00 milhões

O valor de mercado de Pedro Henrique é cinco vezes o de Willian José. Uma diferença da ordem de €4,8 milhões — algo próximo ao custo de montar uma estrutura de base por três anos em clubes médios do interior paulista. O mercado precifica, entre outras variáveis, janela de aproveitamento futuro. Pedro Henrique, com 29 anos, ainda tem de quatro a seis temporadas de alto rendimento esperadas. Willian José, aos 34, opera em horizonte mais curto.

Mas o mercado também erra. E a discrepância de €4,8 milhões precisa ser confrontada com o que os dois entregam agora.

Quanto cada um custaria realmente

Willian José produziu 17 participações diretas em gol em 33 jogos — 11 gols e 6 assistências. Taxa de participação: 0,52 por jogo. Pedro Henrique chegou a 14 participações em 29 jogos — 11 gols e 3 assistências. Taxa: 0,48 por jogo.

A diferença parece pequena em decimais, mas em escala de temporada é considerável. Se Pedro Henrique tivesse jogado os mesmos 33 jogos de Willian José mantendo sua taxa, chegaria a aproximadamente 16 participações. Willian José chegou a 17. A diferença é marginal — mas o custo de aquisição não é.

Calculando o custo por participação em gol com base no valor de mercado:

  • Willian José: €1,20 milhão ÷ 17 participações = ~€70.600 por participação
  • Pedro Henrique: €6,00 milhões ÷ 14 participações = ~€428.500 por participação

A distância entre esses dois números é da magnitude da distância entre Recife e Porto Alegre — aproximadamente 3.700 km de diferença que nenhum argumento de potencial futuro apaga completamente quando o critério é eficiência de curto prazo.

Willian José ainda acumula 3 cartões amarelos e zero vermelhos em 2.182 minutos jogados — dado relevante para times que precisam de consistência disciplinar. Pedro Henrique não tem esse detalhamento disponível para a temporada atual, o que impede comparação direta nessa dimensão.

Qual o retorno esperado em 3 temporadas

Aqui o ângulo muda. A análise de ROI em janela de três temporadas — 2026, 2027 e 2028 — favorece Pedro Henrique de forma estrutural.

Willian José completará 37 anos em 2029. A probabilidade estatística de manutenção de rendimento ofensivo acima de 10 gols por temporada nessa faixa etária é historicamente baixa para centroavantes que não possuem perfil de jogo extremamente econômico em termos físicos. Não há dados disponíveis sobre seu estilo de movimentação que permitam afirmar o contrário.

Pedro Henrique, aos 29, está no que a literatura de ciências do esporte chama de peak window para centroavantes — a janela entre 27 e 32 anos onde a combinação de maturidade tática e capacidade física atinge seu ponto mais alto. Sua trajetória por Polônia, Emirados Árabes, China e Portugal indica adaptabilidade a diferentes sistemas, o que tem valor tático real.

Do ponto de vista de revenda, Pedro Henrique também carrega vantagem. Um centroavante de 29 anos com 11 gols no Brasileirão pode atrair interesse de clubes de médio porte europeu ou do Oriente Médio. Willian José, aos 34, dificilmente gerará receita de transferência — seu valor de mercado de €1,20 milhão já reflete esse teto.

Para um clube que pensa em três temporadas, Pedro Henrique oferece:

  • Janela de aproveitamento mais longa
  • Potencial de valorização ou receita de venda
  • Histórico de adaptação a diferentes contextos táticos

Willian José oferece:

  • Custo de aquisição radicalmente menor
  • Produção imediata comprovada
  • Experiência em títulos — Copa do Rei com Real Sociedad e Real Betis, Copa Sul-Americana com São Paulo — que tem peso em vestiário

A escolha financeira mais inteligente

A resposta depende do horizonte de planejamento — e isso não é evasão, é precisão analítica.

Para um clube em janela de curto prazo — brigando por acesso, tentando escapar do rebaixamento ou montando elenco para uma única temporada decisiva — Willian José é a escolha financeiramente mais inteligente. Sua taxa de participação em gol é superior à de Pedro Henrique na temporada 2026, seu custo por entrega é incomparavelmente menor, e ele já demonstrou que consegue sustentar 33 jogos com rendimento consistente. Negar isso seria ignorar os dados.

Para um clube em projeto de médio prazo — construindo identidade, pensando em duas ou três janelas à frente — Pedro Henrique é o investimento mais racional. O diferencial de €4,8 milhões no valor de mercado é real, mas a janela de aproveitamento de cinco anos contra dois justifica parte desse prêmio. A taxa de 38 gols em 87 jogos de carreira recente, em competições variadas, indica que os 11 gols desta temporada não são anomalia estatística.

Minha conclusão: se o critério for ROI imediato, Willian José vence com folga. Se o critério for construção de patrimônio esportivo, Pedro Henrique é a aposta mais sólida. O que não é defensável, com os dados disponíveis, é pagar cinco vezes mais por Pedro Henrique esperando que ele entregue cinco vezes mais gols — porque a temporada 2026 já mostrou que isso não acontece. O prêmio que o mercado cobra é pelo futuro, não pelo presente. Até dezembro de 2026, quando o Brasileirão fechar sua rodada final, teremos a primeira resposta concreta sobre qual dos dois sustentou o nível até o fim — e aí a planilha vai precisar ser refeita.