A câmera de onboard mostrava um carro atravessado na pista. Era setembro de 2001, no circuito de Lausitz, Alemanha. O piloto havia saído dos boxes, rodado e parado perpendicular à reta principal. O canadense Alex Tagliani chegou a mais de 300 km/h e não teve tempo de desviar. Alessandro Zanardi perdeu as duas pernas naquele impacto. Tinha 34 anos.

O que dizem os envolvidos

A família confirmou a morte na noite de 1º de maio de 2026, sem divulgar a causa. Zanardi tinha 59 anos e deixa esposa e um filho. O comunicado foi direto:

"Alex faleceu em paz, cercado pelo amor de sua família e amigos. A família agradece de coração a todos que estão demonstrando apoio neste momento e pede que sua dor e privacidade sejam respeitadas durante este período de luto."

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, publicou uma nota que capturou o que muitos sentiam ao ouvir a notícia:

"A Itália perde um grande campeão e um homem extraordinário, capaz de transformar cada prova da vida em uma lição de coragem, força e dignidade. Com seus resultados esportivos, seu exemplo e humanidade, deu a todos nós muito mais do que uma vitória: deu esperança, orgulho e a força de nunca se render."

A carreira de Zanardi no automobilismo começou no kart e ganhou tração real na Fórmula 3000 de 1991, quando terminou em segundo lugar — atrás apenas do brasileiro Christian Fittipaldi. Aquela colocação lhe abriu a porta da Fórmula 1, onde estreou na Jordan. Depois de temporadas sem resultados expressivos na categoria, migrou para a Fórmula Indy americana.

O que dizem os números

A trajetória de Zanardi na CART (Champ Car) é um dos casos mais interessantes de late bloomer no automobilismo de elite. Em 66 corridas disputadas, registrou:

  • 15 vitórias — taxa de aproveitamento de 22,7%, acima da média histórica de campeões da categoria
  • 28 pódios — quase 42% das corridas terminadas entre os três primeiros
  • 2 títulos consecutivos, em 1997 e 1998, período em que dominou o campeonato com consistência raramente vista por pilotos europeus na série americana

Depois do acidente de Lausitz, os números que importavam mudaram completamente de categoria. Zanardi migrou para o paraciclismo em handbike — modalidade em que o atleta pedala com os braços numa bicicleta deitada. O resultado foi uma das histórias mais improváveis do esporte paralímpico moderno:

  • Londres 2012: ouro na corrida de estrada, ouro no contrarrelógio e prata na prova de 4 km
  • Rio 2016: repetiu o desempenho com mais dois ouros e uma prata
  • Total: 4 medalhas de ouro e 2 de prata em apenas dois ciclos paralímpicos

Para contextualizar: a taxa de conversão de atletas que trocam de esporte após amputação bilateral e chegam ao pódio paralímpico em menos de dez anos é estatisticamente ínfima. Zanardi fez isso depois dos 40 anos — idade em que a maioria dos atletas de resistência já encerrou a carreira. A análise do SportNavo sobre trajetórias de atletas paralímpicos mostra que menos de 3% dos competidores que iniciaram a modalidade após os 35 anos conquistaram ouro olímpico na primeira participação.

Em 2020, Zanardi sofreu um segundo acidente grave, ao colidir com um caminhão durante uma descida em circuito italiano na handbike. Ficou em estado crítico por meses. Sobreviveu também a esse episódio.

O que digo eu sobre o quadro

Quando trabalho com dados de performance, existe um conceito chamado baseline shift — o momento em que um atleta ou sistema redefine o patamar mínimo esperado. Zanardi fez isso duas vezes na mesma vida. Primeiro, ao sair da F1 sem grandes resultados e se tornar dominante na CART. Segundo, ao perder as pernas e construir, do zero, uma carreira paralímpica de elite.

Há uma analogia que gosto de usar para explicar o que torna a história dele tão difícil de quantificar: imagine um modelo de regressão treinado para prever desempenho esportivo com variáveis clássicas — histórico de resultados, idade, condicionamento físico, estrutura de equipe. Zanardi quebra todas as premissas do modelo. Ele é o outlier que invalida a curva.

O que a trajetória dele ensina, traduzida em linguagem de dados, é que resiliência não é uma variável suave. É mensurável. São 15 vitórias na CART após anos de anonimato na F1. São quatro ouros paralímpicos conquistados com próteses e handbike. São dois acidentes quase fatais superados. Cada um desses pontos é um dado concreto, não uma metáfora.

Zanardi foi bicampeão da CART em 1997 e 1998, tetracampeão paralímpico em 2012 e 2016, e morreu em 1º de maio de 2026 — mesma data em que, 32 anos antes, o esporte perdeu Ayrton Senna. Para quem acompanha o automobilismo com atenção, a coincidência do calendário tem um peso que vai além da simbologia. Dois italianos de gerações diferentes — Senna brasileiro de coração, Zanardi italiano de corpo e alma — marcados pela mesma data.

Se você nunca assistiu às corridas de Zanardi na CART ou às provas de handbike em Londres e no Rio, os arquivos completos estão disponíveis em plataformas de streaming esportivo. Vale reservar o próximo fim de semana para ver os dois capítulos dessa história — separados por um acidente, unidos pela mesma velocidade.