Confesso: eu errei sobre Zé Roberto em 2024. Quando o vi chegar ao Sport Recife pela segunda vez, depois de uma passagem pelo Mirassol e uma temporada apagada no Coritiba, pensei que era mais um atacante de Série B que a Série A engole e cospe em dois meses. Hoje, com ele acumulando 34 jogos e 6 gols no Brasileirão Série A de 2026, preciso rever o diagnóstico — e entender por que demorei tanto para enxergar o que estava diante de mim.
A assinatura técnica que o identifica
Nascido em Teixeira de Freitas em 14 de setembro de 1993, José Roberto Assunção de Araujo Filho carrega no nome comprido uma origem que o futebol brasileiro costuma subestimar: o extremo sul da Bahia, fronteira com o Espírito Santo, região que raramente aparece nos mapas das grandes revelações. Com 184 cm e 84 kg, o atacante tem o biotipo que os olheiros chamam de "centroavante moderno" — altura suficiente para disputar bolas aéreas, mas mobilidade para atuar nas linhas de profundidade. Essa ambiguidade de função é, precisamente, sua assinatura técnica: Zé Roberto não é um nove fixo nem um segundo atacante puro; é o jogador que ocupa o espaço que o adversário deixou, e isso exige leitura de jogo mais sofisticada do que os números imediatos sugerem.

Em 163 jogos de carreira, ele acumula 44 gols e 12 assistências — uma média que, sem contexto, parece modesta. Com contexto, revela um profissional que raramente foi titular absoluto em clubes de orçamento alto, mas que manteve produção em praticamente todos os ambientes por onde passou.
Como ele aprendeu a fazer aquilo
A escola de Zé Roberto foi a dureza das divisões intermediárias. Sua passagem pelo Ceará em 2022 foi o primeiro teste real de nível Série A: 21 jogos e 2 gols no campeonato nacional, números contidos, mas complementados por atuações na CONMEBOL Sudamericana, onde somou 6 jogos, 2 gols e 1 assistência — competição continental que exige adaptação tática e física que a Série B não oferece. Foi nesse período que ele aprendeu a jogar sob pressão de tempo e espaço reduzidos, contra marcações organizadas de equipes argentinas e uruguaias que não concedem meio metro.
O Ceará também lhe deu a Copa do Nordeste como laboratório: 8 jogos e 1 gol numa competição que, apesar de regional, é fisicamente extenuante pelo calendário comprimido e pelo calor do Nordeste. Quem sobrevive bem à Copa do Nordeste em fevereiro e março já chegou temperado ao restante do ano.
Como ele aprimorou ao longo dos anos
O ano de 2023 foi o mais revelador da carreira de Zé Roberto — e, paradoxalmente, o mais fragmentado. Ele atuou por três clubes diferentes: Mirassol, Coritiba e Sport Recife. No Mirassol, pela Série B, foram 19 jogos e 8 gols, seu melhor rendimento em uma única competição até então. No Paulista, pelo mesmo clube, mais 4 gols em 13 partidas. Depois, uma transferência ao Coritiba para a Série A — 12 jogos, 1 gol, 1 assistência — que não decolou. E então o retorno ao Sport, onde fechou 2023 com outros 8 gols em 18 jogos pela Série B.
Não há como somar esses números sem risco de duplicação ou distorção. O que se pode afirmar com segurança é qualitativo: em 2023, Zé Roberto provou que consegue manter produção ofensiva em contextos radicalmente diferentes — um clube de interior paulista em ascensão, um time paranaense em crise e um clube nordestino em reconstrução. Essa adaptabilidade não é acidente; é o resultado de anos aprendendo a jogar sem a proteção de elencos profundos.
Em 2024, já consolidado no Sport Recife, ele somou 5 gols em 23 jogos pela Série B e contribuiu com 2 gols em 8 partidas na Copa do Nordeste. A Copa do Brasil foi o capítulo mais expressivo daquele ano: 8 gols em 18 jogos, uma eficiência que raramente aparece nos perfis de atacantes que a imprensa especializada elege como referência. Conforme registrado pelo SportNavo em coberturas da competição, poucos jogadores da segunda divisão apresentaram esse rendimento no torneio eliminatório naquela edição.

Como aplica em jogos diferentes
A temporada 2026 é a mais difícil que Zé Roberto enfrentou em termos de nível médio dos adversários. Na Série A, com 34 jogos disputados e 6 gols marcados, ele opera num contexto de maior intensidade defensiva — os blocos baixos são mais organizados, os laterais mais velozes, os zagueiros mais experientes. A ausência de assistências na temporada atual não é necessariamente um dado negativo: indica que ele está sendo utilizado como referência ofensiva, o jogador que atrai marcação e libera espaço para os meias, função que exige sacrifício invisível nas estatísticas.
Aos 32 anos, com a camisa 99 nas costas — número que, no Brasil, carrega tanto a irreverência de quem não se enquadra nos padrões quanto a pressão de quem precisa justificar a escolha —, Zé Roberto é um atacante que chegou à Série A pela porta dos fundos e ficou pela consistência. Não é Haaland. Não é Endrick. É o profissional que o futebol brasileiro de médio porte precisa e raramente celebra: o homem que aparece quando o placar está em branco e o time precisa de um gol, não de um espetáculo.
Nos próximos doze meses, o cenário mais realista é a continuidade no Sport Recife — clube que parece ter encontrado nele uma peça de encaixe funcional — com a possibilidade de ampliar sua marca pessoal de gols na Série A, hoje ainda modesta se comparada à produção que demonstrou em competições eliminatórias. Se o Sport mantiver a permanência na elite e Zé Roberto seguir com saúde, uma temporada com dois dígitos de gol no Brasileirão deixa de ser projeção otimista e passa a ser meta razoável.
Está pronto para a Série A — falta o Brasileirão decidir se está pronto para ele.













