O vestiário ainda cheirava a grama molhada quando a pergunta veio direto ao ponto: havia uma competição mais importante que as outras? O técnico argentino do São Paulo, Luis Zubeldía, não hesitou. Cinquenta e dois anos de história do clube pesam mais do que qualquer cálculo de desgaste físico, e o treinador sabia disso melhor do que ninguém na sala.
"Se eu disser que uma é mais importante do que a outra, estaria dando as costas à história do clube. Sabemos que a Libertadores sempre é o grande torneio para todos os times da América do Sul. Mas dizer que uma é mais importante que outra, não tem sentido", argumentou Zubeldía.
A declaração vem num momento em que o Tricolor acumula três compromissos semanais ao longo de maio de 2026, navegando simultaneamente pelas oitavas de final da Copa Libertadores, pelas quartas de final da Copa do Brasil e pelo segundo turno do Campeonato Brasileiro. Não é uma situação inédita para clubes de grande porte, mas a forma como se administra esse triplo front costuma definir títulos — ou sepultá-los.
O rodízio que Zubeldía aplica para manter o São Paulo em pé
O sinal mais claro da estratégia adotada pelo técnico veio no domingo, dia 11, quando o São Paulo escalou um time majoritariamente reserva e venceu o Atlético-GO pelo Brasileirão. A vitória garantiu pontos sem sacrificar o núcleo titular, que precisa de pernas descansadas para o confronto com o Nacional-URU, do Uruguai, na quinta-feira (15), às 19h, no Gran Parque Central, em Montevidéu — palco historicamente árduo para visitantes sul-americanos. Dois dias depois desse jogo continental, o Tricolor enfrenta o Palmeiras no Choque-Rei, no Allianz Parque, no domingo (18), às 16h.
O elenco de 28 jogadores profissionais é o que torna esse rodízio viável. Zubeldía opera com a lógica de um maestro que distribui as notas entre diferentes instrumentos para que a orquestra não desafine: cada grupo de atletas tem sua janela de recuperação e sua janela de ação. O resultado, ao menos no curto prazo, é que nenhum titular acumulou mais de dois jogos seguidos em sequências de alta intensidade desde o início de maio.
Os reservas do Tricolor e o peso que carregam em campo
Historicamente, times que chegam ao segundo semestre disputando três frentes simultâneas costumam ver seus reservas como muleta — e não como alternativa real. O São Paulo campeão da Libertadores de 1992, treinado por Telê Santana, já enfrentava esse dilema, mas contava com um elenco de profundidade rara para a época, com nomes como Müller e Cafu dividindo minutos sem perda de rendimento coletivo.
O que o SportNavo identificou ao longo do mês é que o grupo atual do Morumbi tem respondido com solidez funcional quando acionado: a vitória sobre o Atlético-GO não foi construída sobre erros do adversário, mas sobre organização defensiva e transições rápidas — características que Zubeldía implantou desde o início da temporada, independentemente de quem estivesse em campo. Esse padrão tático é o que transforma reservas em alternativas confiáveis, e não em remendos.
"Tratamos de encarar cada um dos torneios com a maior energia possível", reforçou o treinador, deixando claro que o discurso interno não admite jogos de segunda categoria.
O nó que o São Paulo precisa desatar até o fim de maio
Zubeldía usou uma metáfora reveladora ao descrever o momento do clube: "Estamos a ponto de começar a desatar um nó que vamos ver como se resolve". A imagem é precisa. Cinco jogos até o fim de maio, com deslocamentos internacionais e clássicos estaduais no meio do caminho, formam um corredor tão estreito quanto o pulmão de uma equipe que ainda não definiu seus titulares absolutos nas três competições.
- 15 de maio — Nacional-URU x São Paulo, Copa Libertadores (oitavas), Montevidéu
- 18 de maio — Palmeiras x São Paulo, Campeonato Brasileiro, Allianz Parque
- Demais rodadas de Brasileirão e Copa do Brasil até 31 de maio
O desafio imediato é o Nacional, clube uruguaio com quatro títulos da Libertadores e tradição de transformar o Gran Parque Central numa fortaleza difícil de escalar — o São Paulo sabe disso desde a campanha de 1992, quando o próprio Tricolor fez valer sua experiência continental para superar adversários de menor badalação, mas de enorme garra regional. O Choque-Rei na sequência exige um time diferente em termos de frescor físico, mas igual em termos de comprometimento tático. Zubeldía tem até quinta-feira para calibrar esse equilíbrio.









