Sexta-feira, 29 de maio de 2026. O relógio da sede da Conmebol em Luque, no Paraguai, ainda marcava início de tarde quando as bolinhas do sorteio das oitavas de final da Copa Libertadores entregaram ao futebol sul-americano um dos chaveamentos mais assimétricos da história recente do torneio. De um lado, cinco títulos distribuídos entre Palmeiras, LDU e Fluminense. Do outro, onze — quatro do Flamengo, quatro do Estudiantes, dois do Cruzeiro e um do Corinthians. O mesmo lado da chave. O mesmo caminho até a final de 28 de novembro, em Montevidéu.

O lado mais pesado da história e o preço imediato de carregar tanto troféu

Quem acompanha o futebol europeu sabe que sorteios costumam criar o que os ingleses chamam de group of death — e o que a Conmebol produziu nesta tarde paraguaia é a versão mata-mata desse fenômeno. Flamengo e Cruzeiro se enfrentam logo nas oitavas, garantindo a eliminação de um bicampeão continental antes mesmo das quartas de final. É o custo imediato de concentrar onze títulos num único bracket.

O histórico entre os dois é extenso: 86 jogos oficiais, com o Flamengo à frente — 34 vitórias contra 29 da Raposa e 23 empates. A última vez que se cruzaram na Libertadores foi exatamente nesta fase, em 2018, e o Cruzeiro levou a melhor no Maracanã com um placar de 2 a 0 — gols de De Arrascaeta, hoje ídolo rubro-negro, e Thiago Neves. A ironia histórica não poderia ser mais bem construída.

A logística do confronto também carrega dramaticidade extra. O jogo de ida está marcado para a semana de 11 de agosto, no Mineirão. A volta, decisiva, ocorre no Maracanã na semana de 20 de agosto — vantagem conquistada pelo Flamengo ao terminar o Grupo A com 16 pontos, na liderança, enquanto o Cruzeiro fechou o Grupo D em segundo, com 11, atrás da Universidad Católica do Chile.

Gerson, Jardim e a tensão que extrapola o campo

Se o chaveamento já produzia uma narrativa esportiva densa, os bastidores adicionaram uma camada de tensão que vai além do pressing alto e das linhas táticas. Leonardo Jardim, hoje técnico do Flamengo, passou anos comandando o Cruzeiro e mantém relação pessoal com Pedro Lourenço, dono da SAF mineira — que, segundo relatos, foi pessoalmente ao vestiário rubro-negro antes do duelo pelo Brasileirão, em março, para uma conversa informal.

"Tenho lá muito boas amizades e boas relações. Antes do jogo, o presidente esteve na minha cabine, batemos um papo. Mas dentro de campo é outra coisa, dentro de campo eu sou 200% Flamengo", disse Jardim na ocasião.

Do outro lado, Gerson carrega uma disputa judicial com o clube que o revelou: o Flamengo cobra R$ 42,7 milhões alegando quebra de contrato de direito de imagem na transferência ao Zenit, da Rússia. A defesa do meia contesta, acusa má-fé e diz que o Rubro-Negro deve R$ 6 milhões em luvas. No jogo do Brasileirão, em março, a torcida vaiou Gerson durante os 90 minutos. Ele não deu entrevista, mas deixou uma promessa enigmática: "Na hora certa vou soltar mais coisas". Agosto chegará rápido.

O caminho de Estudiantes e Corinthians até uma possível final de gigantes

Há algo de shakespeariano — ou, para usar uma referência mais contemporânea, de Game of Thrones — na arquitetura desse lado do chaveamento: os maiores não podem conviver até o fim. O Estudiantes de La Plata, tetracampeão (1968, 1969, 1970 e 2009), e o Corinthians, campeão em 2012, estão no mesmo bracket que Flamengo e Cruzeiro. Isso significa que, na melhor das hipóteses, uma final entre Flamengo e Estudiantes reuniria oito títulos de Libertadores num único estádio — algo sem precedente na história do torneio.

O Corinthians, por sua vez, enfrenta o Rosario Central, considerado pelos analistas locais como um adversário de alto nível. Conforme registrado pelo SportNavo, nenhum clube do pote 2 desta edição era particularmente acessível — e o Central, com sua organização tática de clara influência do gegenpressing argentino, representa um desafio real para o time paulista.

"Não tem nenhum time pequeno. Quem vier vai ser um confronto delicado", afirmou Luís Ortega, vice-presidente do Cerro Porteño, antes do sorteio — uma frase que se aplica com ainda mais precisão ao lado da chave com onze taças.

O outro lado e o que o chaveamento revela sobre as semifinais

O Palmeiras, que terminou em segundo no Grupo F com 11 pontos, enfrenta o Cerro Porteño — adversário familiar, já que os dois se cruzaram na fase de grupos: empate de 1 a 1 no Paraguai e derrota por 1 a 0 no Allianz Parque. Abel Ferreira foi direto ao ponto quando questionado sobre a sequência: "O Palmeiras é fortíssimo jogando fora de casa. Seja qual for o adversário, não vamos mudar nossa forma de jogar". Em caso de avanço, o Verdão enfrenta o vencedor de Mirassol e LDU.

A assimetria do chaveamento é clara: enquanto o lado do Palmeiras reúne cinco títulos e adversários relativamente mais gerenciáveis nas primeiras fases, o outro concentra onze taças e elimina um campeão continental já na primeira rodada do mata-mata. Quem sobreviver a esse gauntlet chegará a Montevidéu com uma narrativa construída a ferro e fogo — e com a memória de ter eliminado, no mínimo, dois gigantes do futebol sul-americano. A final está marcada para 28 de novembro no Estádio Centenário, e o caminho até lá, pelo lado pesado da chave, começa em Belo Horizonte, na semana de 11 de agosto.