— Cara, a Ponte tava ganhando no Lucarelli, tava tudo certo.
— Tava. Até o pênalti.
— Pênalti, VAR, dois gols do mesmo cara... que noite, mano.
A conversa no bar resume o que aconteceu no Moisés Lucarelli neste sábado, 18 de julho de 2026. A Ponte Preta abriu o placar cedo, dominou por longos minutos e viu o Goiás virar o jogo com dois gols de Kadu — o segundo deles convertido de pênalti aos 45 minutos do primeiro tempo — para sair de Campinas com uma vitória por 2 a 1 que vale muito mais do que os três pontos no contexto da Série B.
O começo eufórico (ou tenso)
A Ponte Preta entrou em campo com uma proposta clara: pressionar alto, usar a velocidade dos laterais e transformar o Lucarelli numa fortaleza desde o apito inicial. A estratégia funcionou por exatamente sete minutos. Aos 7', Cadu avançou pela direita, encontrou espaço entre a linha defensiva esmeraldina e cruzou com precisão cirúrgica para Kadu — sim, o mesmo Kadu que depois marcaria pelo Goiás — completar de pé direito para o gol. O lance pegou a defesa visitante em má formação, com a linha alta demais para o volume de pressão que a Macaca impunha.
O gol deu confiança à torcida campineira, que lotou as arquibancadas esperando ver o time dar um passo importante na tabela. O Goiás, porém, não entrou em colapso. A equipe esmeraldina reorganizou rapidamente a saída de bola e começou a construir triangulações no meio-campo que desestabilizaram o pressing da Ponte. Era um jogo tenso, com dois times que precisavam da vitória e que não se entregavam ao improviso.
O meio que decidiu o tom
O intervalo entre os minutos 23 e 24 foi o ponto de inflexão silencioso da partida. Sergio Palacios recebeu cartão amarelo aos 23', e Ramon Menezes levou o seu no minuto seguinte — dois advertidos em sequência, o que elevou o nível de tensão e sinalizou que o árbitro não toleraria entradas duras. Esse contexto de jogo mais físico e nervoso favoreceu o Goiás, que tem atletas com mais experiência em controlar o ritmo quando o campo fica partido.
"Quando dois times se amarelam em dois minutos, é porque nenhum dos dois estava confortável com o placar. Isso abre espaço para quem tem mais frieza no momento decisivo." — comentarista esportivo especializado em Série B
A frieza veio em forma de VAR. Aos 44', a tecnologia de vídeo identificou uma infração de Kevyson dentro da área da Ponte Preta. O lance foi revisado, o árbitro foi ao monitor e apontou para o ponto de pênalti. A decisão sacudiu o Lucarelli. A torcida campineira vaiou, a comissão técnica protestou, mas o pênalti foi mantido. Elvis, encarregado da cobrança, bateu com o pé direito e converteu — empatando o jogo a um minuto do intervalo.
O final que mudou tudo
Se o empate já havia desequilibrado o ambiente emocional da Ponte Preta, o que veio a seguir foi devastador. Ainda no acréscimo do primeiro tempo, aos 45', o Goiás voltou a atacar em velocidade. Lucas Lima encontrou Kadu em posição privilegiada dentro da área, e o atacante esmeraldino finalizou de pé direito pela segunda vez na partida — desta vez para fazer 2 a 1 e virar o jogo antes mesmo do intervalo.
Dois gols em dois minutos, com assistência de dois jogadores diferentes, pelo mesmo atacante. Kadu foi o personagem central de uma noite que começou com ele do lado errado do placar. A virada ainda no primeiro tempo retirou da Ponte Preta qualquer conforto tático para o segundo tempo: o time da casa precisaria de uma reação completa, com o adversário já organizado para defender o resultado.
O técnico da Ponte reagiu imediatamente no intervalo, promovendo duas substituições simultâneas logo no início do segundo tempo: Daniel Gonçalves Baianinho deixou o campo para a entrada de Juan, enquanto Brandão foi substituído por David da Hora. As mudanças indicam que a comissão técnica campineira reconheceu a necessidade de sangue novo para tentar reverter a situação, mas o Goiás soube administrar a vantagem com maturidade, fechando os espaços e controlando o tempo de jogo.
Conforme registrado pelo SportNavo em dados de acompanhamento da competição, o Goiás acumula agora uma sequência de resultados positivos fora de casa na Série B de 2026, o que reforça a consistência da equipe esmeraldina como um dos candidatos ao acesso. A Ponte Preta, por sua vez, vê uma oportunidade perdida em casa — o tipo de resultado que, somado, pode custar caro ao longo de uma temporada de 38 rodadas.
O que cada torcida levou para casa
A torcida do Goiás saiu de Campinas com a certeza de que tem um atacante capaz de decidir jogos em momentos de pressão máxima. Kadu marcou dois gols em 38 minutos, sendo o primeiro pelo lado adversário e o segundo com assistência de Lucas Lima em jogada trabalhada — o tipo de contribuição que eleva o valor de mercado de um jogador e coloca seu nome nas prioridades de renovação contratual. Para um clube que precisa manter seu elenco competitivo durante uma disputa acirrada de acesso, segurar Kadu é uma questão financeira e esportiva ao mesmo tempo.
A Ponte Preta, por sua vez, carrega para casa uma derrota que dói pela forma como aconteceu. Abrir o placar em casa, controlar o jogo por mais de trinta minutos e perder para um pênalti marcado no último minuto do primeiro tempo é o tipo de derrota que abala a confiança e exige resposta rápida da comissão técnica. O calendário não perdoa: a próxima rodada da Série B chega em menos de uma semana, e a Macaca precisará reorganizar seu bloco defensivo e a consistência emocional do grupo antes de entrar em campo novamente.
Para o Goiás, a vitória significa subir na tabela e manter pressão sobre os times da zona de acesso. Para a Ponte, significa olhar para os próximos compromissos com urgência — e entender que partidas como esta, perdidas nos detalhes, são exatamente onde as campanhas de acesso ou rebaixamento são construídas ou destruídas.
Esta partida foi como uma música que começa com o refrão errado: a Ponte Preta tocou a melodia certa no primeiro verso, mas o Goiás reescreveu a letra inteira antes do intervalo — e quando a banda voltou ao palco, a canção já tinha outro dono.










