A quadra Philippe-Chatrier guarda memórias generosas para o tênis brasileiro. Foi ali, no saibro ocre de Paris, que uma paulistana de 26 anos chegou à semifinal de um Grand Slam em 2023 e parou apenas diante da então número 1 do mundo, Iga Swiatek. Neste domingo (24), a mesma quadra foi palco de algo muito diferente. Beatriz Haddad Maia, atual 105ª do ranking WTA, saiu de Roland Garros na primeira rodada pela segunda vez consecutiva — derrotada por Francesca Jones, britânica de 102ª colocação, por 1/6, 7/6 (4) e 6/2, em 2h42 de jogo.

A derrota, por si só, já seria motivo de análise. O que a torna ainda mais alarmante é o contexto: foi a 12ª derrota seguida de Bia em chaves principais de torneios WTA, numa série negativa que começou em setembro de 2025. Para entender a dimensão desse número, é preciso recorrer à história. Desde que o circuito feminino ganhou sua estrutura moderna, em meados dos anos 1990, raramente uma tenista que já habitou o top 10 acumulou sequência tão longa de derrotas sem ao menos uma vitória intercalada — e Bia esteve no 9º lugar do ranking em 2023.

Como Bia desperdiçou vantagens que pareciam decisivas em Paris

A partida desta domingo resumiu, em três sets, tudo o que tem afligido a brasileira nos últimos oito meses. Bia abriu 6/1 no primeiro set com autoridade: devoluções agressivas, forehand de canhota funcionando, e Jones completamente desorganizada. A britânica, que nunca havia vencido uma chave principal de Grand Slam antes deste Roland Garros, mal conseguia manter o saque. O cenário era de vitória tranquila.

No segundo set, a lógica se inverteu. Bia chegou a 4/2 com quebra de saque, posição confortável para fechar a partida em dois sets. A partir daí, os números contam uma história cruel: 50 erros não forçados contra apenas 37 winners, aproveitamento de primeiro serviço de 49% — abaixo do mínimo aceitável para o nível de uma ex-top 10 — e 11 duplas faltas distribuídas ao longo dos três sets. Jones, cujo backhand é reconhecidamente frágil, não precisou fazer nada extraordinário. Bastou manter bolas em jogo enquanto a brasileira se autodestruía.

O tie-break do segundo set foi emblemático: Jones abriu 5/2, Bia reagiu para 5/4, mas não sustentou. A britânica fechou em 7/4. No terceiro set, Bia ainda abriu 2/0, mas não venceu mais nenhum game. Foram seis games consecutivos perdidos para encerrar a partida — exatamente o padrão que o SportNavo identificou em ao menos quatro das últimas derrotas da brasileira: boa entrada, colapso progressivo, incapacidade de segurar o nível quando o adversário cresce.

"Bia mostrou-se ansiosa e impaciente em alguns momentos. Mesmo quando vencia por 3/1 no primeiro set, reclamava demais de si mesma. Soltou um palavrão e golpeou fortemente sua perna esquerda após cometer um erro."

Os números que expõem uma queda sem precedente desde o auge de 2023

Para dimensionar o abismo entre o presente e o passado recente, basta alinhar os dados. Em 2023, Bia Haddad era a 9ª tenista do mundo, semifinalista de Roland Garros e de Wimbledon, com 47 vitórias em 65 partidas na temporada — aproveitamento de 72,3%. Hoje, ela ocupa o 105º posto do ranking, sua pior posição desde 2020, e não vence em chave principal desde setembro de 2025. São oito meses e 12 derrotas seguidas.

A comparação histórica que mais me vem à mente é a de Gabriela Sabatini no fim de carreira, entre 1995 e 1996. A argentina, que chegou ao 3º lugar do ranking e venceu o US Open em 1990, viveu uma sequência de resultados decrescentes acelerados antes de se aposentar aos 26 anos. Sabatini chegou a acumular 9 derrotas consecutivas em 1995 — número inferior ao de Bia, que já está em 12. A diferença fundamental: Sabatini tinha 25 anos e optou por encerrar a carreira; Bia tem 29 e, ao menos por enquanto, segue tentando reverter o quadro.

Outro dado que preocupa: nas quatro partidas anteriores a Roland Garros, Bia perdeu para a chinesa Zhang Shuai (atual 89ª) em Estrasburgo por 6/4 e 6/2, caiu na primeira rodada do WTA 1000 de Roma e foi eliminada precocemente no WTA 125 de Paris. A sequência de torneios menores, como o WTA 125 de La Bisbal, onde sua última vitória veio em abril, revela uma tenista que migrou para o circuito secundário em busca de ritmo — e mesmo ali não conseguiu encadear resultados.

"Beatriz Haddad Maia esteve a um game de finalmente conquistar sua primeira vitória na chave principal de um torneio de nível WTA em 2026. Teria vindo num ótimo momento, logo em um slam, mas a brasileira não conseguiu se aproveitar consistentemente da fragilidade de sua adversária."

O que precisa mudar para Bia voltar a vencer no circuito WTA

Três variáveis concentram o diagnóstico da crise. A primeira é técnica: o saque. Com 49% de aproveitamento no primeiro serviço contra Jones — e 11 duplas faltas — Bia entregou pontos gratuitos durante toda a partida. Para uma tenista cujo jogo de base depende de dominar o serviço para construir o ponto com o forehand, esse índice é estruturalmente inviável. Em 2023, sua média de aproveitamento de primeiro saque girava em torno de 62% nas vitórias em Grand Slams.

A segunda variável é mental. O relato de comportamento em quadra — reclamações consigo mesma no 3/1 do primeiro set, o golpe na própria perna — indica que a ansiedade está interferindo na tomada de decisão nos momentos críticos. Bia perdeu a vantagem de 4/2 no segundo set e de 2/0 no terceiro: em ambos os casos, a queda não foi técnica, foi de gerenciamento emocional do ponto.

A terceira é física. Em pelo menos um momento do segundo set, a brasileira pareceu sentir desconforto físico, segundo relatos da cobertura ao vivo. Após meses de resultados negativos, o desgaste acumulado — tanto muscular quanto psicológico — pode estar comprometendo a capacidade de manter intensidade por mais de um set.

O head-to-head entre Bia e Francesca Jones agora está empatado em 1 a 1: em 2021, na final do WTA 125 Elle Spirit Open, na Suíça, a brasileira havia vencido por 6/4 e 6/3. Naquela época, Bia estava subindo no ranking. Hoje, a situação é oposta — e Jones, aos 25 anos, avança para enfrentar a tcheca Marie Bouzkova (28ª do mundo) na segunda rodada.

É o mesmo cenário que Jennifer Capriati viveu em 2003, quando caiu do 3º lugar do ranking para fora do top 20 em menos de 12 meses após anos de pressão acumulada — só que agora a aposta é diferente: Bia tem 29 anos, está dentro da janela para uma recuperação real, e o saibro europeu, historicamente sua superfície mais favorável, ainda oferece torneios nas próximas semanas para reconstruir ritmo e confiança.