Confesso: eu errei sobre Matheus Sales em 2024. Quando ele retornou da Coreia do Sul após a passagem pelo Ulsan Hyundai FC, minha leitura foi a de que se tratava de um jogador em fase terminal de carreira, buscando porto seguro na Série B sem ambição real. Hoje, com 31 jogos disputados pelo Botafogo SP nesta temporada, vejo o porquê de ter errado.

O número que define a temporada

Trinta e um jogos. É o número que define a participação de Matheus Sales pelo Botafogo SP no Brasileirão Série B de 2026. Sem gols, sem assistências — os dados ofensivos são zerados. Para um volante, porém, essa equação raramente é a que importa.

O que impressiona é a consistência de presença: 31 aparições em uma competição que exige deslocamentos por todo o país, com calendário comprimido e elencos menores do que os da elite. Um volante de 31 anos que mantém essa frequência em campo está entregando algo que não aparece na coluna de gols — disponibilidade física e confiança do treinador.

Para dimensionar: o Botafogo SP, em matéria do SportNavo publicada em junho, foi derrotado pelo Operário após um pênalti convertido por Boschilia no fim do primeiro tempo. Em maio, o clube ficou no empate por 1 a 1 com o Athletic, partida marcada por pênalti desperdiçado e cinco cartões. Sales esteve em campo nessas rodadas — e sua regularidade é um dado que o contexto dos resultados tende a obscurecer.

Matheus Sales (Botafogo SP)
Matheus Sales (Botafogo SP)

Como ele chegou aqui

Matheus de Sales Cabral nasceu em Guarulhos, São Paulo, em 13 de maio de 1995. Chegou ao Palmeiras ainda jovem e colheu frutos precoces: foi campeão da Série B em 2013, da Copa EuroAmericana em 2014, da Copa do Brasil em 2015 e do Campeonato Brasileiro em 2016 — quatro títulos em quatro anos consecutivos, numa janela de formação que poucos jogadores brasileiros podem exibir.

Em março de 2016, foi convocado para a seleção olímpica pelo técnico Rogério Micale, para amistosos contra Nigéria, em Cariacica (ES), e contra a África do Sul, em Maceió (AL). A convocação veio no mesmo ano em que o Palmeiras conquistou o Brasileirão — o pico de visibilidade da carreira até aquele momento.

A trajetória seguinte passou por Bahia — onde foi campeão da Copa do Nordeste de 2017 —, Goiás, Coritiba e Atlético Goianiense. No Coritiba, acrescentou o Campeonato Paranaense de 2022 à prateleira. No Atlético-GO, o Campeonato Goiano de 2023. São seis títulos ao longo de uma carreira que percorreu diferentes regiões do futebol brasileiro antes de cruzar o Atlântico rumo à Ásia.

A passagem pelo Ulsan Hyundai FC, na K League 1 da Coreia do Sul, representou o turning point mais incomum da trajetória. Em 2024, foram 12 jogos no campeonato nacional, uma participação na FA Cup coreana — com um gol marcado — e três jogos na AFC Champions League. Não foi uma aventura financeira discreta: a K League 1 remunera acima da média da Série B brasileira, e a AFC Champions League exige nível técnico consistente.

O que o faz diferente dos pares

Na posição de volante, a ausência de números ofensivos não é anomalia — é padrão. O que diferencia Sales de outros meios de campo da Série B 2026 é o currículo de competições disputadas: Série A, Série B, Copa do Brasil, Campeonato Paranaense, Campeonato Goiano, K League 1, FA Cup coreana e AFC Champions League. São sete competições distintas em diferentes países, o que representa uma bagagem de adaptação que a maioria dos volantes da segunda divisão brasileira simplesmente não tem.

Com 178 cm e 69 kg, Sales não é um volante de marcação física imponente. Seu perfil aponta para o meia de contenção que organiza saída de bola — função que exige leitura de jogo mais do que imposição muscular. Essa característica explica tanto a longevidade quanto a mobilidade geográfica da carreira.

Um dado de comparação que contextualiza a regularidade dele: nos 31 jogos desta temporada, Sales disputou mais partidas do que o total de jogadores de linha que o Botafogo SP utilizou como titulares fixos no mesmo período — o que indica que ele não é rotativo, mas peça de referência no esquema.

Os limites a vencer

Aos 31 anos, o horizonte contratual de um volante sem produção ofensiva registrada nesta temporada é naturalmente curto. A Série B não paga os salários da Série A, e o mercado brasileiro tende a encerrar ciclos de jogadores nessa faixa etária com rapidez quando o clube não tem perspectiva de acesso.

O Botafogo SP vive exatamente esse dilema: disputar a Série B significa que cada ponto é negociado em jogos tensos, como os empates e derrotas recentes contra Operário e Athletic mostram. A pressão por resultados pode encurtar o ciclo de jogadores experientes que não pontuam diretamente.

Para os próximos 12 meses, há dois cenários realistas. Se o Botafogo SP alcançar o acesso à Série A, Sales teria a chance de renovar e disputar a elite novamente — o que representaria o retorno ao palco onde esteve com o Palmeiras campeão em 2016. Se o clube permanecer na Série B ou, pior, ameaçar o rebaixamento, a tendência é de não renovação ao fim do vínculo, abrindo espaço para um novo ciclo em clube menor ou até uma segunda passagem pelo exterior.

O que os dados desta temporada não permitem é uma leitura de irrelevância. Trinta e um jogos em uma competição desgastante, aos 31 anos, após passagem pela Ásia, com seis títulos no currículo — isso é a partitura de um músico que não toca mais nos grandes teatros, mas que ainda afina o instrumento com precisão e sabe exatamente qual nota vai soar antes de colocar o arco nas cordas.