A última vez que um Mundial prometeu tanto e entregou tão pouco em termos de legado foi em 1978, quando a Argentina de Videla usou o torneio como vitrine política enquanto o regime desaparecia opositores. Quarenta e oito anos depois, a Copa do Mundo de 2026, co-organizada por Estados Unidos, Canadá e México, enfrenta uma equação igualmente perturbadora: projeções de US$ 30,5 bilhões em impacto econômico ameaçadas por um ambiente político que 125 instituições de direitos humanos classificaram, em carta pública, como de "deterioração" estrutural das garantias fundamentais.
O boom que era para ser o maior da história do futebol
Nenhum Mundial antes havia gerado projeções econômicas desta magnitude. Estudos da FIFA em parceria com a Organização Mundial do Comércio e consultorias como a Tourism Economics estimavam a chegada de 1,2 milhão a 6 milhões de visitantes internacionais somente nos EUA, com permanência média de 12 dias e gasto diário superior a US$ 400 por pessoa. A criação de 185 mil empregos temporários e permanentes completava o quadro. As 11 cidades-sede americanas — Atlanta, Boston, Dallas, Houston, Kansas City, Los Angeles, Miami, Nova York, Filadélfia, São Francisco e Seattle — investiram em infraestrutura, fan fests e pacotes hoteleiros apostando nesse fluxo. A premissa central era simples e historicamente verificável: turistas estrangeiros gastam, em média, quatro vezes mais do que o torcedor doméstico.
O torneio expandido para 48 seleções, iniciado em 11 de junho e com final marcada para 19 de julho, seria o maior evento esportivo já realizado em solo americano — superando os Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1984 e o próprio Mundial de 1994, quando os EUA receberam 3,5 milhões de espectadores nos estádios com uma seleção que sequer tinha liga profissional nacional consolidada.
A carta que abalou o planejamento das cidades-sede
O documento publicado em 23 de maio por 125 instituições — entre elas a ACLU, a Anistia Internacional dos EUA, o Human Rights Watch, a NAACP e o Southern Poverty Law Center, além de diversos Supporters Groups das próprias cidades-sede — não é uma declaração genérica. Ele elenca riscos específicos e mensuráveis para cada categoria de viajante.
"Há uma deterioração da situação dos direitos humanos nos Estados Unidos e, na ausência de ações significativas e garantias concretas da FIFA, das cidades-sede ou do governo dos EUA, alertamos todos os viajantes sobre os riscos reais desta Copa."
O documento recomenda que pessoas transgênero e não-binárias solicitem vistos utilizando o sexo atribuído no nascimento, alertando que o contrário pode resultar em aumento na fiscalização e recusa de entrada. Para cidadãos de Afeganistão, Burkina Faso e Mianmar, entre outros países com restrições totais impostas pelo governo Trump, a situação é ainda mais crítica: há risco documentado de prisão, detenção e deportação mesmo para indivíduos com autorização prévia de entrada. Grupos de minorias raciais e étnicas e pessoas LGBTQ+ recebem alertas específicos sobre "repressão imigratória violenta" e "riscos sérios" durante o período do torneio.
O contexto político agrava a percepção internacional. Em dezembro de 2025, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, condecorou Donald Trump com o controverso Prêmio da Paz da FIFA — decisão que o Human Rights Watch, um dos signatários da carta de alerta, classificou como violação do próprio código da entidade. Infantino ignorou a manifestação e manteve a premiação.
Hotéis vazios onde deveria haver fila de espera
O efeito cascata já é mensurável. Hotéis nos 11 estádios-sede americanos registram reservas muito abaixo do esperado para um evento desta escala. Torcedores estrangeiros cancelam viagens, devolvem ingressos e aderem a boicotes organizados — movimento que, combinado com os preços exorbitantes praticados pelo modelo de precificação dinâmica adotado pela FIFA, cria um cenário que analistas do setor turístico descrevem como inédito para um Mundial. Mesmo após pressão de fãs e congressistas americanos que forçaram ajustes na política de ingressos, a demanda internacional não se recuperou.
Há aqui uma ironia histórica que um gaúcho de Caxias do Sul não pode ignorar: em 2014, quando o Brasil sediou o torneio com todos os problemas estruturais conhecidos — estádios atrasados, protestos nas ruas, custo estimado de R$ 28 bilhões —, os hotéis de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife esgotaram meses antes. A diferença é que nenhuma carta de 125 entidades alertava torcedores europeus e sul-americanos sobre o risco de serem detidos ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
O que a FIFA pode fazer quando o anfitrião é o problema
Historicamente, a FIFA tem instrumentos contratuais para exigir garantias de segurança e livre circulação dos países-sede. O Acordo de Sede assinado com os EUA prevê, em tese, proteções para todos os participantes do torneio. Mas o precedente recente é revelador: um árbitro internacional foi impedido de entrar no país antes mesmo da bola rolar, e ingressos foram revogados por razões ligadas à política migratória americana — episódios que a entidade não conseguiu ou não quis reverter publicamente.
A projeção de US$ 30,5 bilhões não desaparecerá por completo. O mercado doméstico americano — com 335 milhões de habitantes e crescente interesse pelo futebol, impulsionado pela MLS e pela chegada de Lionel Messi ao Inter Miami em 2023 — pode absorver parte da demanda perdida pelo torcedor estrangeiro. Mas o multiplicador econômico do turista internacional, aquele que gasta quatro vezes mais, que ocupa hotéis de categoria superior e que movimenta restaurantes e comércio por 12 dias consecutivos, não tem substituto doméstico equivalente. A FIFA divulga os dados oficiais de público e receita ao final de cada edição: a comparação com os US$ 30,5 bilhões projetados será feita em agosto, e o número real vai documentar o custo concreto desta equação.










