Em 1998, quando a Globo fechou o contrato de exclusividade para transmitir a Copa da França, o principal argumento apresentado à Fifa foi simples e quase incontestável: nenhuma emissora do planeta chegava a mais lares brasileiros. Quase três décadas depois, o mesmo argumento não basta — e a entidade máxima do futebol mundial deixou isso explícito durante as tratativas em curso. O desempenho da cobertura do Mundial de 2026, que começou na última quinta-feira (11), será diretamente considerado nas negociações para a Copa de 2030. A disputa pelo próximo ciclo de direitos começou, portanto, com o apito do árbitro no jogo de abertura.
Globo mobiliza 130 pessoas e tenta reconquistar terreno perdido
A operação montada pela Globo para o Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá é a maior da história da emissora em coberturas externas de futebol. Cerca de 130 profissionais foram enviados para o torneio — entre repórteres, apresentadores, comentaristas, equipes técnicas e nomes do entretenimento que funcionam como âncoras de audiência fora do horário dos jogos. Para ter uma dimensão desse número: é mais gente do que muitas delegações de seleções classificadas para o torneio levaram de comissão técnica e suporte ao todo.
A estratégia da emissora é clara e historicamente consistente. Desde a Copa de 1970 — transmitida em preto e branco para boa parte do Brasil — a Globo construiu sua identidade em torno de grandes eventos esportivos. Nos anos 80 e 90, a cobertura das Copas era um dos pilares de audiência da grade, capaz de suspender novelas e reorganizar toda a programação. Agora, a emissora admite publicamente que quer recuperar os direitos de todos os 104 jogos da Copa de 2030, algo que não acontece desde antes do ciclo atual, quando a LiveMode entrou no mercado e dividiu o bolo de transmissão.
A presença maciça em campo — com nomes do jornalismo e do entretenimento trabalhando em conjunto — é uma mensagem direta à Fifa: a Globo ainda tem capacidade de transformar um jogo do Grupo F entre seleções sem apelo imediato em evento de televisão nacional.
CazéTV aposta nos dados que a Fifa ainda não tinha como medir em 2022
Quando Pelé disputou sua primeira Copa, em 1958, a televisão mal havia chegado ao interior do Brasil. A audiência era calculada por estimativas grosseiras. Hoje, a CazéTV entra na Copa de 2026 com um diferencial que torna obsoleto qualquer debate sobre alcance geográfico: ela é a única emissora a transmitir todas as 104 partidas do torneio e detém os direitos digitais completos, o que inclui o uso de gols, entrevistas e cortes em plataformas como Instagram, TikTok e YouTube.
Esse detalhe — aparentemente técnico — é, na prática, o argumento mais poderoso que o canal pode apresentar à Fifa nas próximas negociações. A entidade quer saber o quanto um parceiro de transmissão consegue amplificar o torneio fora da tela principal. Em 2022, no Qatar, as redes sociais ainda eram tratadas como complemento. Em 2026, elas são o campo onde a guerra de audiência é decidida entre o público de 15 a 35 anos.
"A Fifa indicou às empresas que a cobertura deste ano será considerada nas negociações do próximo ciclo", segundo informações da coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo.
A estratégia da CazéTV é, portanto, menos sobre televisão e mais sobre dados — métricas de engajamento, tempo de visualização, compartilhamentos e crescimento de base em plataformas digitais. Esses números serão o dossiê que o canal apresentará à Fifa quando as negociações de 2030 ganharem forma concreta.
O que a Fifa realmente quer medir neste Mundial
A entidade deixou claro que não avaliará apenas os valores financeiros oferecidos. O alcance da transmissão, a repercussão nas plataformas digitais e o espaço dedicado ao torneio dentro da grade de programação pesarão na decisão. Esse critério múltiplo cria uma situação inédita no mercado brasileiro de direitos esportivos: pela primeira vez, uma emissora de TV aberta e um canal digital nativo competem em condições que não são diretamente comparáveis.
A Globo tem vantagem estrutural em audiência tradicional — pesquisas do Ibope historicamente mostram que jogos transmitidos pela emissora mobilizam entre 25 e 40 pontos de audiência em partidas do Brasil, números que nenhuma plataforma digital isolada se aproximou até hoje. A CazéTV, por sua vez, opera num ecossistema onde a métrica dominante é o engajamento ativo, não o espectador passivo na frente da televisão. São, literalmente, formas distintas de medir o mesmo fenômeno cultural.
O fator que pode definir o jogo — e que nenhum dos dois lados controla completamente — é a entrada da Netflix no mercado. A plataforma já sinalizou interesse em negociar com a Fifa os direitos da Copa de 2030, cuja sede principal se divide entre Marrocos, Portugal e Espanha. Antes disso, a Netflix estreará em Mundiais com a transmissão da Copa do Mundo Feminina de 2027, realizada no Brasil. Essa estreia funcionará como um teste de viabilidade comercial — e os resultados chegarão exatamente no momento em que as negociações para 2030 entrarão na fase decisiva.
O efeito cascata que pode redesenhar o mercado brasileiro até 2030
O cenário que se desenha a partir dessa disputa tem consequências que vão além de qual logotipo aparece no canto da tela durante os jogos. Se a CazéTV conseguir demonstrar à Fifa, com números concretos de engajamento digital ao longo das próximas semanas, que seu modelo alcança audiências que a TV aberta simplesmente não capta mais, isso fortalece a posição do canal em qualquer negociação futura — inclusive com outros torneios, como Champions League e Libertadores.
Para a Globo, o risco inverso também é real. Uma operação de 130 profissionais que não se traduzir em audiência consistente acima de 30 pontos nos jogos do Brasil enfraquece o argumento histórico da emissora. A Copa de 2022 já havia dado sinais de que o modelo de TV aberta sozinha não sustenta mais a exclusividade — a audiência média dos jogos caiu cerca de 20% em relação a 2018, segundo dados do próprio mercado publicitário.
"A emissora admite publicamente o interesse em recuperar os direitos de todos os jogos da Copa de 2030", segundo a coluna Outro Canal, da Folha de S.Paulo.
A Copa de 2030 será a primeira da história com sedes em três continentes simultaneamente — Marrocos, Portugal e Espanha como eixo principal, com partidas comemorativas na América do Sul. Essa dispersão geográfica cria faixas horárias distintas que favorecem o modelo digital: jogos transmitidos de madrugada para o Brasil tendem a migrar naturalmente para plataformas de streaming e redes sociais. A CazéTV já se posicionou para essa realidade; a Globo ainda está construindo sua resposta.
As negociações formais com a Fifa para os direitos de 2030 devem se intensificar no segundo semestre de 2026, quando o desempenho de ambas as coberturas já estiver consolidado em relatórios. A Copa 2026 termina em 19 de julho — e é também nessa data que o placar mais importante desta disputa começa a ser calculado.












