Confesso: eu errei quando defendi, em 2024, que a geração de Vini Jr. tinha estrutura coletiva suficiente para chegar longe na Copa do Mundo. Eu me deixei seduzir pelo Bola de Ouro da FIFA de 2024 e pela qualidade técnica individual do elenco. O que a Copa de 2026 mostrou, mais uma vez, é que prêmio individual não converte em resultado coletivo quando o sistema ao redor não sustenta.

O que os números das últimas quatro Copas realmente dizem

O Brasil não disputa uma final de Copa do Mundo desde 2002, há 24 anos. Não se trata de azar acumulado. As últimas quatro eliminações aconteceram em fases intermediárias e, em ao menos três delas, contra seleções que nenhum analista apontaria como favoritas ao título. A crônica esportiva já batizou esse movimento de "baixar de prateleira" — e a expressão é precisa porque descreve um declínio estrutural, não um tropeço pontual.

Para entender a dimensão da queda, basta olhar o período entre 1993 e 2007: os brasileiros conquistaram cinco Bolas de Ouro e oito Prêmios FIFA de Melhor Jogador do Mundo. Romário (FIFA 1994), Rivaldo (FIFA e Bola de Ouro em 1999), Ronaldo Nazário (FIFA em 1996, 1997 e 2002; Bola de Ouro em 1997 e 2002), Ronaldinho Gaúcho (FIFA em 2004 e 2005; Bola de Ouro em 2005) e Kaká (FIFA e Bola de Ouro em 2007) somaram metade de todas as premiações distribuídas pelas duas entidades no período. Dessa geração atual, apenas Vini Jr. venceu o Prêmio FIFA — uma vez, em 2024. Raphinha acumula indicações e boas temporadas no Barcelona, mas nenhum troféu máximo individual. O contraste com a geração de Ronaldo Nazário é menos sobre talento e mais sobre volume de excelência simultânea.

Por que os clubes brasileiros formam para exportar, não para a Seleção

Parte da explicação está no modelo de negócio dos clubes brasileiros. A venda de direitos federativos de jovens talentos para o mercado europeu representa, em média, entre 25% e 30% da receita corrente das principais agremiações do país. Formar para vender tornou-se estratégia financeira consolidada — e não há nada de errado nisso do ponto de vista empresarial. O problema é o efeito colateral: os clubes exportam os jovens de talento excepcional antes da maturidade e importam atletas latino-americanos com carreiras consolidadas, porém com menos potencial de evolução. O resultado dessa equação aparece nas prateleiras: os clubes brasileiros venceram as 7 últimas edições da Copa Libertadores da América, mas cederam apenas 7 jogadores para a Seleção Brasileira e 25 para representações de outros países.

As seleções de base confirmam o diagnóstico. Sub-17 e Sub-20 brasileiros têm apresentado desempenho aquém do esperado nas últimas competições internacionais, o que sugere que o problema não começa na convocação para a Copa — começa na ausência de um modelo de formação orientado para o desenvolvimento de habilidades coletivas. Quando o clube treina o jovem para ser vendável, o foco recai sobre atributos individuais mensuráveis: velocidade, finalização, drible. O entrosamento, o posicionamento sem bola, a leitura tática de grupo — esses elementos ficam em segundo plano.

"Baixamos de prateleira, algo inexplicável apenas por razões circunstanciais — pênalti desperdiçado, ciclo de preparação conturbado, falta de protagonismo, entre tantas", registrou a análise publicada no UOL Esporte após a eliminação, sintetizando o que boa parte da crônica esportiva já vinha dizendo.

O que ainda falta resolver antes de 2030

A desconexão entre prêmios individuais e futebol coletivo não se resolve com uma convocação diferente nem com a troca de técnico. Exige reformulação de política de base — e essa responsabilidade, como apurado em matéria do SportNavo, recai sobre a CBF e sobre os próprios clubes, que hoje operam com incentivos financeiros alinhados à exportação, não à formação de equipes.

Três pontos concretos precisam ser endereçados antes do ciclo da Copa de 2030. Primeiro, a CBF precisa criar mecanismos que incentivem os clubes a manter jovens talentos por pelo menos duas temporadas completas antes da venda — algo similar ao que a Federação Espanhola fez com a geração de 2008 a 2012, que produziu Xavi, Iniesta e David Villa jogando juntos por anos nos mesmos sistemas táticos. Segundo, as seleções de base precisam de calendário e estrutura de preparação contínuos, não de convocações pontuais para torneios. Terceiro, a comissão técnica da Seleção principal precisa de autonomia real para trabalhar um sistema de jogo por pelo menos dois anos sem interferência de resultados isolados.

A geração atual tem qualidade técnica documentada — Vini Jr. é o único brasileiro a vencer o Prêmio FIFA nos últimos 17 anos, e Raphinha somou 27 gols e assistências pelo Barcelona na temporada 2025/2026. O que falta não é craque. Falta o tecido coletivo que transforma craques em time. E esse tecido não se compra no mercado de transferências: se constrói ao longo de anos, com política de formação orientada para o jogo, não para a vitrine.

"De 1993 a 2007, os brasileiros receberam cinco vezes o Ballon d'Or e oito vezes o Prêmio FIFA de Melhor Jogador do Mundo", lembrou o levantamento do UOL Esporte — e o dado dói mais quando se percebe que, naquele mesmo período, o Brasil estava em três finais de Copa e venceu duas.

Quando o árbitro apitou o fim do jogo que eliminou o Brasil nesta Copa, Vini Jr. ficou parado no gramado por alguns segundos, sozinho, com o troféu de melhor jogador da fase de grupos no banco de reservas. A imagem resume tudo.