Cento e quarenta e seis gols, 56 assistências e 311 partidas oficiais. Quando o Atlético-MG oficializou, na manhã desta sexta-feira, 1º de maio de 2026, a rescisão do contrato de Givanildo Vieira de Sousa — o Hulk —, os números já estavam postos. Mas, como o próprio jogador advertiu no vídeo de despedida divulgado em suas redes sociais, eles apenas arranharam a superfície de uma relação que transbordou as quatro linhas do estádio.
A chegada sob desconfiança e a construção de uma identidade
Em 2021, quando o então veterano de 34 anos desembarcou em Belo Horizonte vindo do futebol chinês, a recepção da imprensa e de parte da torcida foi marcada pelo ceticismo. Hulk acumulava passagens de alto rendimento no Porto, no Zenit de São Petersburgo e no Shanghai SIPG, mas o retorno ao futebol brasileiro carregava a dúvida razoável sobre sua adaptação física e competitiva. O mercado brasileiro de 2021 registrava contração de receitas nos clubes em função dos impactos da pandemia sobre a renda de bilheteria — contexto que tornava apostas em salários elevados ainda mais arriscadas politicamente dentro dos conselhos de administração dos clubes.
A desconfiança foi desmontada de forma sistemática. Ainda no primeiro semestre de sua chegada, Hulk liderou o Atlético-MG à conquista simultânea do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil de 2021 — o chamado "bi" atleticano —, feito inédito para o clube naquela geração. A sequência de cinco títulos estaduais consecutivos do Campeonato Mineiro, entre 2021 e 2025, completou o panorama de uma passagem historicamente produtiva. A Supercopa Rei de 2022 consolidou o ciclo vitorioso.
Os números como estrutura, o vínculo como substância
Uma análise exclusiva do SportNavo sobre o desempenho de Hulk ao longo das cinco temporadas no Atlético-MG revela que ele encerrou a passagem como o maior artilheiro do clube no recorte do século XXI em termos de média por partida, considerando jogadores que disputaram mais de 200 jogos. Sua média de aproximadamente 0,47 gols por jogo supera referências históricas recentes do elenco atleticano. Os 56 passes para gol, distribuídos ao longo de 311 partidas, reforçam o perfil de jogador que não operava apenas como finalizador, mas como organizador ofensivo de última linha.
O vídeo de despedida, publicado nas redes sociais na data da rescisão, trouxe um Hulk visivelmente afetado. O atacante confessou que não havia se preparado para aquele momento porque, internamente, acreditava que algumas histórias não precisariam de um ponto final. A fala mais carregada de sentido simbólico veio quando ele recorreu à sua identidade geográfica para descrever o que viveu em Minas Gerais:
"Eu sou o Hulk Paraíba, mas aqui também virei o Hulk Mineiro. Aqui vivi de verdade."
A declaração possui peso sociológico que vai além do afeto individual. O pertencimento regional é uma das estruturas mais consistentes de identificação nos torcedores de futebol brasileiro, e um atleta nordestino que reivindica identidade mineira perante uma torcida do interior produtivo de Minas Gerais representa uma forma rara de integração simbólica. Hulk não foi apenas contratado — foi incorporado.
O custo físico de um ciclo de alta intensidade
Em seu pronunciamento, o atacante também mencionou os sacrifícios físicos acumulados ao longo das últimas temporadas. Aos 39 anos completados em julho de 2025, Hulk continuou sendo acionado como titular em partidas decisivas pelo Atlético-MG durante a temporada 2025/2026, o que por si só representa dado relevante sobre sua condição atlética e sobre a dependência técnica do clube em relação ao seu desempenho. A longevidade no futebol de alto rendimento tem sido objeto recorrente de discussão nas ciências do esporte, e o caso de Hulk oferece evidência empírica de que regimes rigorosos de recuperação e manutenção corporal podem estender carreiras significativamente além das médias históricas para atacantes.
"Os números contam uma parte da história, mas quem viveu sabe: nunca foi só sobre números. Foi sobre presença, sobre entrega, sobre nunca se esconder. Porque tem jogador que passa e tem jogador que marca", afirmou Hulk no vídeo de despedida.
A frase, que empresta o título à cobertura feita pelo portal Lance!, condensa uma distinção que a sociologia do esporte de alto rendimento reconhece como central: a diferença entre o atleta-mercadoria, que circula entre contratos sem criar vínculos, e o atleta-símbolo, que passa a integrar a memória afetiva de uma instituição. Hulk, em Belo Horizonte, ocupou inequivocamente a segunda categoria.
O próximo passo e o que fica no Horto
Com a rescisão formalizada neste 1º de maio, Hulk entra no mercado como jogador livre. Conforme apuração do SportNavo, o Fluminense aparece como principal interessado na contratação do atacante, que seria utilizado não apenas como referência técnica ofensiva, mas como vetor de liderança num elenco em reconstrução após as saídas de figuras como Thiago Silva, Marcelo e Felipe Melo nos últimos anos. O clube carioca enxerga no perfil de Hulk a combinação de capacidade de jogo e autoridade no vestiário que esse tipo de transição geracional exige. Para o Atlético-MG, a tarefa imediata é substituir, dentro do Brasileirão 2026, o peso físico e simbólico de um jogador que marcou 146 gols num único clube — número que, no futebol brasileiro contemporâneo, define gerações.









