163 partidas pelo Chelsea, nove gols, onze assistências e presença em competições europeias em cada uma das temporadas desde sua chegada a Londres — esses são os números que Diego Simeone tem na mesa quando o nome de Marc Cucurella aparece nas conversas internas do Atlético de Madrid. O lateral-esquerdo espanhol tornou-se, nos últimos meses, o perfil mais desejado pela diretoria colchonera para resolver uma lacuna que o próprio técnico argentino admitiu publicamente ao longo da temporada 2025/26.
A brecha que a crise do Chelsea abriu no mercado
O Chelsea encerrou a Premier League 2025/26 na 10ª colocação — posição que, por si só, já seria considerada um fracasso para um clube do porte dos Blues. A consequência direta foi a ausência nas competições europeias para a próxima temporada, algo que não acontecia há mais de uma década. Por dez anos consecutivos, o clube londrino havia garantido participação em torneios continentais, período em que acumulou títulos e reforçou sua reputação como potência europeia. Esse ciclo se encerrou de forma abrupta, impulsionado por instabilidade técnica, mudanças sucessivas de treinadores e um desempenho interno que ficou muito aquém das expectativas da torcida e da direção.
Para o Atlético de Madrid, esse cenário funciona como uma janela que raramente se abre. Cucurella é um jogador que construiu sua carreira com regularidade continental: disputou a Europa League e a Champions League nas temporadas em que vestiu a camisa azul de Londres. Permanecer em um clube sem competições europeias representa uma ruptura significativa na trajetória de qualquer atleta de alto nível — e é exatamente nessa fissura que o Atlético pretende atuar.
"Precisamos reforçar a lateral esquerda", admitiu Simeone em declaração ao longo da temporada, sem nomear alvos, mas sinalizando de forma clara a prioridade do setor para o planejamento do elenco.
O que Cucurella entrega que o mercado dificilmente replica
Reparemos no detalhe que transforma Cucurella em algo além de um simples reforço de posição: ele não é apenas um lateral defensivo eficiente, mas um jogador com capacidade de construção ofensiva e resistência física comprovada em mais de 160 partidas num dos campeonatos mais exigentes do planeta. Sua passagem pelo Brighton antes de chegar ao Chelsea revelou um perfil técnico moldado por Pep Guardiola na seleção espanhola e refinado por uma Premier League cada vez mais vertical e intensa.
Cucurella acumula cinco temporadas na liga inglesa — três pelo Chelsea e duas pelo Brighton — e disputará a Copa do Mundo com a seleção espanhola, o que eleva ainda mais seu valor de mercado e sua visibilidade global. Para o Atlético, contar com um lateral que chegará ao início da temporada europeia em ritmo de alta competição, vindo de um torneio mundial, é um diferencial estratégico que vai além da estatística de desempenho.
Segundo apuração do SportNavo com base em informações do jornal espanhol Marca, o clube madrilenho já iniciou o monitoramento formal do jogador, e a posição de lateral-esquerda foi classificada internamente como setor prioritário de investimento para a janela de transferências. Nenhum valor oficial foi comunicado, mas o perfil de contrato que o Atlético costuma oferecer a jogadores nessa faixa de mercado — entre 25 e 30 anos, com projeção de Copa do Mundo — costuma girar em torno de contratos de quatro anos com cláusulas de renovação automática atreladas a metas coletivas.

Os obstáculos reais antes de qualquer acordo
A negociação, contudo, não será simples. Cucurella é titular absoluto no Chelsea e figura como um dos poucos jogadores do elenco londrino que manteve consistência mesmo durante a temporada irregular dos Blues. Essa condição torna o clube inglês resistente a negociar, especialmente porque uma eventual venda sinalizaria para o mercado que o projeto de reconstrução do Chelsea já perdeu um de seus pilares.
Há ainda a questão financeira. O Chelsea investiu valores consideráveis na contratação de Cucurella em 2022, quando o lateral saiu do Brighton por cerca de 62 milhões de libras — um dos negócios mais caros da história da posição no futebol mundial. Vender o jogador por um valor abaixo desse patamar representaria um prejuízo contábil significativo, algo que a diretoria dos Blues precisa justificar para os acionistas e para o fair play financeiro da Premier League.
O Atlético, por sua vez, opera com um modelo financeiro mais conservador do que clubes como PSG ou Manchester City. A capacidade de investimento colchonera depende de receitas de Champions League — competição que o clube disputa regularmente — e de vendas de jogadores do próprio elenco. Para viabilizar uma contratação de alto impacto, Simeone e a diretoria precisarão, quase inevitavelmente, reduzir folha em outras posições antes de avançar nas conversas por Cucurella.

"O Atlético precisa de um lateral que entenda o sistema de pressão alta e que consiga jogar tanto em bloco baixo quanto na construção ofensiva", descreveu uma fonte próxima ao clube espanhol, segundo o Marca — perfil que se encaixa diretamente nas características que Cucurella demonstrou ao longo das últimas temporadas.
A Copa do Mundo, marcada para o segundo semestre de 2026, funcionará como um termômetro decisivo. Se Cucurella tiver uma campanha de destaque com a Espanha — seleção que chega ao torneio como uma das favoritas — o valor pedido pelo Chelsea tende a subir. Se a seleção espanhola tropeçar e o lateral tiver atuação apagada, a janela de negociação se torna mais favorável para o comprador. O Atlético de Madrid, com a disciplina tática que caracteriza a gestão de Simeone, já traçou esse cenário e aguarda o momento certo para fazer o movimento. Uma transferência como essa tem a estrutura de uma receita elaborada: cada ingrediente precisa ser adicionado na temperatura e no tempo exatos — e o forno, por ora, ainda está esquentando.










