— Cara, o Inter não perde faz quanto tempo?
— Desde o ano passado. Literalmente.
— Isso é real ou eu tô ficando louco?

Real. O Internacional chegou a 17 jogos sem derrota em 2026 — 11 vitórias e 6 empates —, superando em um duelo a sequência de 16 partidas invictas que o próprio clube havia construído em 2024, também sob o comando de Roger Machado. A marca atual foi atingida após empate de 1 a 1 com o Fortaleza e foi alcançada em 83 dias de calendário, contra os 100 dias que a série de 2024 levou para se consolidar.

O que Roger Machado mudou estruturalmente no Inter

A diferença mais visível entre as duas sequências está no escopo competitivo. Em 2024, os 16 jogos se concentraram no Campeonato Brasileiro. Em 2026, a invencibilidade atravessa Gauchão, Copa do Brasil e Brasileirão — três competições com exigências táticas distintas e elencos alternados. Isso amplia o peso estatístico da façanha.

Machado também precisou administrar baixas na zaga. Em 2024, o zagueiro uruguaio Rogel assumiu a titularidade no lugar de Mercado por lesão. Na temporada atual, o mesmo Rogel foi convocado para substituir Victor Gabriel e o recém-chegado Juninho. A recorrência da solução indica que o técnico construiu redundância defensiva funcional — um ativo operacional subavaliado quando se lê apenas a tabela de pontos.

O volante Rodrigo Villagra ilustra bem a lógica de custo-benefício da montagem do elenco. Contratado por empréstimo junto ao CSKA, da Rússia, mediante pagamento de 400 mil euros, o argentino — ex-River Plate — tem cláusula de compra obrigatória fixada em 4,6 milhões de euros, condicionada à participação em 60% das partidas da temporada. Desde que se firmou como titular, a partir do jogo contra o Santos, o Inter não perdeu uma vez sequer no Brasileirão.

"Pezzolano focou principalmente na defesa", registrou o portal Bolavip ao analisar os ajustes táticos promovidos pelo treinador uruguaio Paulo Pezzolano — que comandava o time antes de Machado retomar o posto —, descrevendo uma equipe que sofreu apenas dois gols em quatro rodadas durante a fase de consolidação de Villagra.

Os números que os bastidores preferem não comentar

O Colorado encerrou 2025 na 16ª posição do Brasileirão, com 44 pontos, escapando do rebaixamento na última rodada após vencer o RB Bragantino no Beira-Rio. A premiação da CBF pela permanência na Série A foi estimada em cerca de R$ 16 milhões — referenciada pelo valor pago ao 16º colocado em 2024, de R$ 16,3 milhões. Somada à cota de televisão, o Inter garantiu aproximadamente R$ 145 milhões em receita de TV para 2026.

O balanço financeiro de 2025 apresentou superávit de R$ 8,9 milhões, com a dívida total recuando de R$ 977 milhões para R$ 940 milhões — redução de R$ 37 milhões, puxada principalmente pela diminuição de compromissos bancários e ajustes em pendências com atletas e empresários. O Conselho Fiscal recomendou aprovação com ressalvas, em função de uma renegociação contratual com a Liga Forte União que gerou divergência contábil.

Decidiu.

A Copa do Brasil adiciona outra camada à equação. O Inter entrou em campo contra o Athletic com vantagem de 2 a 1 do jogo de ida. A classificação às oitavas renderá R$ 3 milhões adicionais em premiação da CBF, sobre os R$ 2 milhões já assegurados pela participação nesta fase — total potencial de R$ 5 milhões apenas neste estágio do torneio.

"A sequência teve início justamente na vitória sobre o time mineiro pela Copa do Brasil", descreveu o ge.globo, mapeando o encadeamento que passou pelo empate com o Botafogo (2 a 2), vitória sobre o Fluminense (2 a 0), conquista da Recopa Gaúcha sobre o Brasil de Pelotas (2 a 1) e empate com o Coritiba (2 a 2).

O que os 17 jogos revelam sobre o Inter de 2026

A leitura financeira da sequência não é só de receita. O rendimento de 11 vitórias e 6 empates em 17 jogos representa aproveitamento de 76,5% — patamar de candidato a título, não de equipe que quase desceu de divisão 12 meses antes. Esse delta de desempenho tem implicação direta no valor de mercado dos ativos do elenco.

Jovens como Benjamin, o volante ganês que perdeu espaço por duas lesões consecutivas mas retomou ritmo na equipe sub-20, e o lateral Luiz Felipe, de 19 anos, convocado pela primeira vez para o profissional na Recopa Gaúcha, ganham minutagem em contexto de invencibilidade — o que eleva o piso de negociação em eventuais transferências. Borré, por outro lado, sem marcar há mais de dois meses e com interesse do futebol mexicano mapeado, representa passivo salarial que a diretoria precisará endereçar.

O próximo obstáculo da sequência é o Palmeiras, às 19h30 de quarta-feira no Beira-Rio, pela quarta rodada do Brasileirão. Uma vitória colocaria o Inter a dois jogos do recorde histórico do clube na era dos pontos corridos: 19 partidas invictas, marca construída em 2016 entre Estadual, Primeira Liga e Brasileirão. O aproveitamento atual é de 76,5%.