O silêncio de Anfield depois do apito final contra o Aston Villa durou tempo suficiente para que qualquer torcedor dos Reds fizesse o cálculo: 19 derrotas em todas as competições na temporada 2025/26. A pior marca desde 1992/93, quando o Liverpool acumulou 20 reveses — e ainda estava a uma derrota de igualar aquele número maldito.

A narrativa dominante sobre o colapso dos Reds

A leitura mais óbvia aponta para a ausência de Jürgen Klopp como causa primária da queda. O argumento tem apelo emocional, mas é analiticamente fraco. Arne Slot chegou ao clube em 2024 e foi campeão inglês na primeira temporada — dado que a narrativa do "vácuo pós-Klopp" ignora convenientemente. O problema de 2025/26 não é herança; é construção.

O Liverpool foi o clube que mais investiu na janela de verão de 2025 entre as equipes da Premier League. Contratações volumosas, custo elevado, mas sem coerência tática clara. O perfil dos reforços não dialogou com o sistema de Slot — que exige laterais com capacidade de inversão, um pivô fixo no meio e pressing coordenado na linha de pressão adversária. O que chegou foi uma coleção de peças individuais sem encaixe coletivo.

Nas copas nacionais, as eliminações foram precoces e sem contexto de azar. Foram derrotas estruturais, com o time incapaz de manter compactação defensiva em jogos de mata-mata, onde o espaço entre linhas se abre e a transição ofensiva adversária encontra campo livre. Nas quartas de final da Champions League, o PSG explorou exatamente esse vácuo — e eliminou os Reds com uma facilidade que os números de posse de bola do Liverpool (acima de 55% na média da competição) não conseguem camuflar.

A contra-leitura que desafia o diagnóstico simples

Existe, porém, uma leitura alternativa que merece peso. Slot não errou apenas na gestão de elenco — ele errou na adaptação tática ao calendário. O 4-3-3 que funcionou na temporada anterior dependia de um bloco médio bem calibrado e de Mohamed Salah como âncora ofensiva do sistema. Com o egípcio em declínio de rendimento ao longo da temporada e sem um substituto funcional, o lado direito do ataque virou um corredor sem saída.

A narrativa dominante sobre o colapso dos Reds 19 derrotas e uma conta que o Liv
A narrativa dominante sobre o colapso dos Reds 19 derrotas e uma conta que o Liv

Colapsou.

A análise do SportNavo sobre os dados de pressing do Liverpool em 2025/26 revela queda significativa no PPDA (passes permitidos por ação defensiva) em comparação à temporada anterior — indicador de que o time pressionou menos e com menos eficiência. Em jogos fora de casa, a linha de pressão recuou em média 8 metros em relação ao bloco de 2024/25. Esse recuo criou um corredor perigoso entre a linha defensiva e o meio-campo, que adversários como o Aston Villa — com Watkins como referência de profundidade — exploraram de forma sistemática.

A contra-leitura que desafia o diagnóstico simples 19 derrotas e uma conta que o
A contra-leitura que desafia o diagnóstico simples 19 derrotas e uma conta que o

A derrota por 4 a 2 para o Villa pela 37ª rodada da Premier League foi o episódio mais emblemático desse padrão. Dois gols sofridos em transições diretas após perda de posse no terço médio. O esquema não falhou por acidente; falhou por repetição.

Segundo Arne Slot, em coletiva após a partida,

"Não estamos satisfeitos com o que produzimos nesta temporada. Precisamos ser honestos sobre o que não funcionou."
A declaração é correta, mas insuficiente. Honestidade diagnóstica sem reformulação estrutural é só retórica.

O que os dados indicam para a reconstrução em 2026/27

A síntese é incômoda para ambos os lados do debate. Slot não é o problema central, mas tampouco está isento. O clube errou na política de contratações — gastou muito, planejou pouco. E o técnico não conseguiu adaptar o sistema quando o elenco mostrou suas limitações reais.

Para 2026/27, há três variáveis táticas que precisam de resposta antes de qualquer janela de transferências:

  • Pivô de referência: o Liverpool não tem um centroavante que fixe a linha adversária e permita que os meias cheguem com profundidade. Sem esse perfil, o 4-3-3 vira um sistema de posse sem finalidade.
  • Laterais com dupla função: o modelo de Slot exige laterais que avancem e invertam para criar superioridade numérica no terço final. O elenco atual não tem esse perfil nos dois lados simultaneamente.
  • Compactação defensiva: o bloco precisa subir 6 a 8 metros em relação à posição média de 2025/26. Isso exige condicionamento físico específico e automação de movimentos — trabalho de pré-temporada, não de janela.

A vaga na próxima Champions League ainda está em disputa. O Liverpool encerra a temporada em Anfield contra o Brentford no dia 24 de maio, às 12h (horário de Brasília), precisando de resultado positivo e torcendo por tropeços dos rivais que disputam o G-5 da Premier League. Não há margem para erro — e essa frase, depois de 19 derrotas, soa como ironia involuntária de uma temporada inteira.