Confesso: eu errei sobre João Pedro em 2024. Quando o Brighton o vendeu ao Chelsea por £55 milhões em julho de 2025, escrevi aqui que o salto seria grande demais rápido demais — que um atacante acostumado à dinâmica do Brighton precisaria de pelo menos uma temporada inteira para se adaptar à pressão de Stamford Bridge. Errei. Agora, diante dos números da temporada 2025/2026, preciso reconhecer isso antes de tentar entender o que Ancelotti estava vendo que eu não vi.
O que os números de João Pedro dizem sobre a temporada no Chelsea
Vinte gols e seis assistências em 49 partidas. Essa é a linha estatística que João Pedro, 24 anos, construiu em sua primeira temporada pelo Chelsea, tornando-o o atacante brasileiro com mais gols em uma única temporada na Premier League desde Roberto Firmino. Para contextualizar: na temporada 2024/2025, ainda pelo Brighton, o atacante havia marcado 14 gols em 37 partidas — um aproveitamento de 0,38 gols por jogo. No Chelsea, essa taxa subiu para 0,41 gols por jogo, mesmo com o aumento de responsabilidade e exposição.
O desempenho individual rendeu a ele o prêmio de Jogador da Temporada 2025/2026 do clube, anunciado pelo Chelsea em 19 de maio de 2026 — ironicamente, horas depois de Carlo Ancelotti divulgar a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo sem o nome do atacante. Na votação dos torcedores e sócios do clube, João Pedro superou o meio-campista argentino Enzo Fernández e o equatoriano Moisés Caicedo, que ficaram em segundo e terceiro lugares, respectivamente.
A temporada ainda incluiu participação decisiva no Mundial de Clubes da FIFA, conquistado pelo Chelsea em 2025, com gols na campanha — incluindo um na semifinal. Ou seja: João Pedro chegou à Copa do Mundo de 2026 como um jogador que havia vencido a competição de clubes mais recente do calendário mundial. Esse dado, por si só, já tornava a ausência na lista uma decisão que merecia explicação técnica detalhada.
O que Ancelotti viu nos atacantes que preferiu a João Pedro
A convocação de Carlo Ancelotti para o setor ofensivo priorizou, segundo apuração do SportNavo, nomes com maior histórico de seleção e perfil tático diferente do que João Pedro oferece. Pedro, do Flamengo, e Richarlison aparecem entre os preferidos do treinador italiano para as posições de ataque — dois jogadores com características distintas entre si, mas que Ancelotti conhece bem e nos quais demonstrou confiança pública.
Pedro tem 27 anos e é o centroavante referência do futebol brasileiro há pelo menos três temporadas — artilheiro da Copa Libertadores em 2022 com o Flamengo, titular da seleção em ciclos anteriores. Richarlison, apesar de um histórico recente marcado por lesões, carrega o peso de ser um dos atacantes com maior número de jogos pela seleção na última década, com perfil de pressão alta e mobilidade que Ancelotti valoriza em sistemas de pressão intensa.

O problema da comparação direta é que João Pedro, em 2025/2026, marcou mais gols do que qualquer outro atacante brasileiro em atividade na Europa. A decisão de Ancelotti, portanto, não foi baseada em forma — foi baseada em algo que os números não capturam completamente: encaixe tático, familiaridade com o sistema e, possivelmente, critérios de liderança dentro do grupo.
A resposta de João Pedro e o que ela revela sobre o caso
O atacante não entrou em confronto público com a comissão técnica. Em nota publicada em suas redes sociais na mesma tarde do anúncio da premiação do Chelsea, ele escreveu com clareza e sem rodeios:
"Procurei dar o meu melhor a todo o tempo. Infelizmente não foi possível realizar esse sonho de defender meu país em uma Copa do Mundo, mas sigo tranquilo e centrado. Alegrias e frustrações fazem parte do futebol. Desejo boa sorte para todos que estão lá e serei mais um torcedor para eles trazerem o hexa para casa."
A escolha das palavras importa. João Pedro não disse que a decisão foi injusta. Não citou números. Não mencionou outros jogadores convocados. Esse tipo de resposta calibrada — especialmente de um atleta de 24 anos que acabou de receber o maior prêmio individual de sua carreira e, ao mesmo tempo, a maior decepção profissional — revela maturidade de gestão de imagem, mas também uma consciência de que qualquer crítica pública a Ancelotti fecharia portas para convocações futuras.
Formado nas categorias de base do Fluminense, João Pedro passou pelo sub-17 e sub-20 do clube carioca antes de ser contratado pelo Watford, da Inglaterra, em 2021, aos 19 anos. A profissionalização precoce no futebol europeu acelerou seu desenvolvimento técnico, mas também significou que ele construiu sua carreira longe dos olhos da comissão técnica da seleção em momentos decisivos de formação de grupo. Esse afastamento geográfico — e a consequente ausência em amistosos e datas FIFA menos relevantes — pode ter pesado na avaliação de Ancelotti sobre o grau de integração do jogador ao sistema.
A ironia cronológica do dia 19 de maio de 2026 é difícil de ignorar: no mesmo dia em que João Pedro foi reconhecido como o melhor jogador de um dos clubes mais ricos e competitivos do mundo, ele também recebeu a confirmação de que esse desempenho não foi suficiente para garantir uma vaga na lista de 26 jogadores que representarão o Brasil na Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá. Não há precedente recente comparável em termos de contraste entre reconhecimento de clube e ausência em seleção.
A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, e João Pedro seguirá sua pré-temporada com o Chelsea. Com contrato longo em Stamford Bridge e 24 anos, ele terá pelo menos mais uma Copa do Mundo no horizonte — mas a de 2026, disputada no continente americano, seria geograficamente a mais acessível de sua carreira para receber suporte da torcida brasileira.
João Pedro foi o melhor atacante brasileiro da Europa em 2025/2026. A Copa vai sem ele.












