27 de setembro de 2025. Camutanga completou 32 anos — e a data chegou no meio de uma temporada que, em números brutos, é a mais densa de toda a sua trajetória registrada: 33 jogos, 2 gols e 1 assistência pelo Vitória na Brasileirão Série A de 2026.
O que ele ainda não resolveu
Camutanga Cleidson Andrade de Souza Silva — nome completo de um zagueiro que carrega o mesmo nome de sua cidade natal, Camutanga, no agreste pernambucano — tem 189 centímetros de altura e 80 quilos. Uma estrutura que deveria, em tese, transformá-lo em referência aérea constante. O problema não está no físico. Está na consistência de produção ofensiva para um jogador que, nas últimas temporadas, oscilou entre ser participativo e quase invisível dependendo do contexto em que esteve inserido.

Sua trajetória passa por Náutico Recife, Atlético Goianiense e Vitória. Em 2022, dividiu a temporada entre os dois primeiros: foi apenas uma partida pela Série A com o Atlético-GO, e mais 10 jogos pelo Pernambucano e 7 pela Série B com o Náutico. Em 2023, já no Vitória, disputou 31 partidas pela Série B — o que foi, até então, sua temporada mais extensa em um único clube. Marcou 1 gol. Em 2024, a Série A trouxe apenas 6 aparições, com maior volume de participações na Copa do Nordeste (6 jogos, 1 gol) e no Campeonato Baiano (12 jogos, 2 gols). O padrão que emerge não é de fracasso — é de fragmentação.
A lacuna que Camutanga ainda não resolveu é precisamente essa: consolidar-se como titular inamovível na elite do futebol brasileiro. Não como reserva qualificada, não como opção para copas estaduais. Como nome fixo na Série A, semana após semana.
Onde está hoje em relação a esse buraco
A temporada 2026 representa o movimento mais concreto que Camutanga já fez na direção desse objetivo. Trinta e três jogos disputados pelo Vitória no Brasileirão é um número que poucos zagueiros do elenco conseguem superar — e que, isoladamente, já distingue esta temporada de todas as anteriores em termos de regularidade na elite.
Os 2 gols marcados nesta Série A também têm peso contextual. Em temporadas anteriores, quando jogava em competições de menor pressão como o Campeonato Baiano ou a Copa do Nordeste, os gols apareciam com mais frequência — 2 pelo Baiano em 2024, 1 pela Copa do Nordeste no mesmo ano. Transpor essa produção para o ambiente da Série A, mesmo que em volume ainda modesto, indica adaptação ao nível de exigência.
O dado da assistência — a primeira registrada em sua carreira profissional conforme os números disponíveis — é um detalhe pequeno, mas sinaliza uma participação mais ativa na construção de jogo. Para um zagueiro de 32 anos que passou anos sendo descrito pelo que fazia na defesa, essa linha de estatística é relevante.
O caminho técnico para tapá-lo
O que separa um zagueiro de rotatividade elevada de um titular consolidado na Série A raramente é talento bruto. É a combinação entre leitura de jogo, capacidade de comunicação com o parceiro de zaga e gestão de minutos em sequências longas de competição. Camutanga, aos 32 anos, tem o histórico para construir essa combinação — mas o tempo de prateleira nesse processo é curto.
Tecnicamente, sua estatura de 189 cm o posiciona bem para disputas aéreas, uma das métricas que clubes da Série A mais valorizam em zagueiros centrais. O desafio está em manter consistência tática nos momentos em que o Vitória é pressionado, especialmente em confrontos fora de casa, onde a equipe baiana historicamente sofre mais. Nessas janelas, o papel do zagueiro de camisa 4 é menos sobre marcar e mais sobre organizar — uma função que exige repertório e experiência acumulada, dois ativos que Camutanga tem em quantidade crescente.
A passagem pelo Atlético Goianiense, ainda que breve, expôs Camutanga a um ambiente de Série A mais competitivo do que o Náutico da Série B. A curva de aprendizado que começou lá, interrompida pela brevidade da experiência, parece estar sendo retomada agora com mais espaço e mais minutos.
O que isso destrava na carreira
Se Camutanga terminar a temporada 2026 com os 33 jogos que já acumula — ou mais — como titular regular do Vitória na Série A, o efeito imediato é contratual e mercadológico. Um zagueiro de 32 anos com sequência comprovada na elite tem valor de negociação diferente de um jogador que aparece em janelas estaduais e desaparece no calendário nacional.
Há também o aspecto de identidade dentro do clube. O Vitória oscila entre permanência e ameaça de rebaixamento a cada ciclo — e zagueiros que sobrevivem a essas turbulências com regularidade tornam-se referências institucionais. Não no sentido de liderança midiática, mas no sentido funcional: são os jogadores que o técnico consulta com os olhos antes de escalar, porque a presença deles já é um dado assegurado.
Para um jogador nascido em Camutanga-PE, que percorreu Náutico, Atlético-GO e chegou ao Barradão, esse tipo de estabilidade seria, aos 32 anos, o capítulo mais sólido de uma trajetória construída em fragmentos. Não é pouco. É, na verdade, o único resultado que ainda falta.
Em 30 de novembro de 2026, quando o Brasileirão encerrar sua rodada final, saberemos se esta temporada foi o ponto de virada ou apenas mais um ciclo bem começado.












