O salão de espera da Embaixada dos Estados Unidos em Joanesburgo virou, nas últimas horas, o lugar mais tenso do futebol africano. Era ali, entre formulários e senhas de atendimento, que o destino da preparação dos Bafana Bafana para a Copa do Mundo 2026 estava sendo decidido — não em campo, não na lousa tática do treinador. A seleção da África do Sul, que tinha voo programado para este domingo, 31 de maio, precisou adiar o embarque após pelo menos 20 membros da delegação, em sua maioria jogadores, terem seus vistos ainda em processamento junto à representação diplomática americana.

O nó burocrático que parou os Bafana Bafana em Joanesburgo

O impasse veio à tona por meio da SABC Sport, emissora pública sul-africana, e rapidamente tomou proporções internacionais. Dos 20 integrantes com documentação pendente, dois tiveram seus pedidos de visto negados inicialmente — um dado que elevou o nível de alarme na Federação Sul-Africana de Futebol (SAFA). Para contextualizar a dimensão do problema: em toda a história das Copas do Mundo, situações de impedimento de viagem por questões consulares afetaram seleções africanas em ao menos três edições anteriores, mas raramente com tamanha proximidade do início do torneio.

Horas depois da repercussão do caso, o ministro do Esporte da África do Sul, Gayton McKenzie, foi a público para atualizar o panorama. Segundo o dirigente, o problema principal havia sido solucionado e a maior parte dos jogadores recebeu a documentação necessária para viajar. A nota de alívio, porém, foi parcial.

"O problema principal já foi resolvido, mas ainda há membros da comissão técnica aguardando aprovação final", informou McKenzie em declaração pública.

Entre os que seguiam aguardando liberação estavam um assistente técnico, o médico da seleção, o chefe de segurança e um analista de desempenho — exatamente o grupo de suporte que, em termos operacionais, é tão indispensável quanto qualquer titular em campo. A viagem foi remarcada para segunda-feira, 1º de junho.

O que a logística comprometida revela sobre a preparação sul-africana

A África do Sul estreia na Copa do Mundo no dia 11 de junho, contra o México, na partida inaugural do torneio, pelo Grupo A — que conta ainda com República Tcheca e Coreia do Sul. Antes disso, a equipe tem um jogo-treino agendado contra a Jamaica, no dia 5 de junho, como ajuste final de preparação. Com a viagem adiada em pelo menos 24 horas, a janela de adaptação ao fuso horário e às condições climáticas norte-americanas encolheu de forma considerável.

Para quem acompanha o futebol africano há décadas, o episódio não é uma surpresa isolada. A África do Sul acumula um histórico administrativo turbulento: a seleção ficou 16 anos fora das Copas do Mundo entre 2010 e 2026 — período em que disputou apenas a edição de 2010, como país-sede, sem precisar passar pelas eliminatórias. Naquele torneio, os Bafana Bafana foram eliminados na fase de grupos com três pontos, resultado de um empate com o México (1 a 1) e uma vitória sobre a França (2 a 1), mas saíram pelo critério de saldo de gols. Ou seja, a seleção somou, naquele grupo, tantos pontos quanto uma equipe que vence apenas uma partida em três rodadas de eliminatórias sul-americanas — o que dá a medida exata do nível competitivo enfrentado.

"Estamos trabalhando para garantir que todos os membros da delegação cheguem aos Estados Unidos no menor tempo possível", afirmou a Federação Sul-Africana de Futebol em nota oficial divulgada à imprensa local.

A sede inicial dos sul-africanos na Copa é no México — o que significa que a documentação para os Estados Unidos foi providenciada já pensando em eventuais deslocamentos nas fases eliminatórias. A ironia é que o problema ocorreu exatamente nessa etapa preventiva.

A decisão da federação e o que vem a seguir para os Bafana Bafana

A SAFA precisou acionar canais diplomáticos em tempo recorde para destravar os casos dos dois vistos negados inicialmente. Esse tipo de mobilização institucional — que envolve contato direto entre ministérios, representações consulares e a própria FIFA — costuma levar dias em condições normais. O fato de ter sido resolvido em horas, ao menos parcialmente, indica que houve pressão política coordenada de alto nível.

Do ponto de vista histórico, a Copa de 2026 representa o retorno dos Bafana Bafana ao maior palco do futebol mundial após 16 anos de ausência nas eliminatórias. A última vez que a África do Sul disputou uma Copa sem ser anfitriã foi em 2002, na Coreia do Sul e Japão, quando caiu na fase de grupos com três pontos — curiosamente, o mesmo adversário que enfrentará no Grupo A desta edição, a Coreia do Sul, também estava naquele grupo histórico. A coincidência não passou despercebida pelos analistas sul-africanos.

Com o adiamento da viagem confirmado para segunda-feira e os vistos dos jogadores majoritariamente regularizados, a prioridade imediata da comissão técnica é garantir que o médico e o analista de desempenho — ainda em processamento consular — embarquem no menor prazo possível. O jogo-treino contra a Jamaica, em 5 de junho, funciona como prazo-limite real: chegar depois disso seria comprometer o único ensaio geral antes do duelo inaugural com o México, no dia 11.

O salão de espera da Embaixada dos Estados Unidos em Joanesburgo virou, nas últimas horas, o lugar mais decisivo do futebol africano — e agora, com os vistos encaminhados, os Bafana Bafana podem finalmente olhar para o campo.