Não, a crise do Bahia não começa nem termina na falta de um centroavante. Essa é a explicação mais cômoda, a que poupa o debate mais incômodo: o que aconteceu com o sistema de jogo que Rogério Ceni construiu ao longo de 2025 e que, nesta reta de 2026, parece ter perdido a coesão estrutural que o tornava previsível no bom sentido? A pergunta correta não é sobre um nome na área. É sobre por que um time com 23 pontos na 17ª rodada, com elenco montado para brigar pelo G-6, chegou ao Couto Pereira carregando o peso de uma sequência de maus resultados e de uma torcida que já não esconde a insatisfação.

A série que colocou Ceni no banco dos réus

O Bahia acumula uma sequência de tropeços que transformou o que era expectativa de título em debate sobre permanência de treinador. Rogério Ceni, que chegou a Salvador com o capital político de quem ergueu a Libertadores pelo Flamengo em 2019 e 2020, viu esse crédito se esvair rodada a rodada. A torcida do Esquadrão de Aço já pede sua saída em coros que ecoam nas redes sociais e, segundo apuração do SportNavo, chegam aos bastidores da diretoria com uma frequência que não pode mais ser ignorada.

O cenário de desfalques agrava o diagnóstico. Para o duelo desta segunda-feira (25), às 20h, Ceni não poderá contar com Ronaldo, Luciano Juba nem Ruan Pablo, todos fora por lesão. Caio Alexandre voltou a treinar com bola, mas ainda sem condições de ser relacionado para a partida. Ou seja, o técnico entra em campo com uma equipe desfigurada em relação ao que projeta como ideal, o que estreita ainda mais a margem para erros táticos.

A série que colocou Ceni no banco dos réus 23 pontos e Ceni no fio da navalha an
A série que colocou Ceni no banco dos réus 23 pontos e Ceni no fio da navalha an
"Caio Alexandre voltou a treinar com bola", informou o departamento médico do clube, sinalizando que o volante pode ser opção nas próximas semanas — mas não ainda.

A escalação provável reflete a limitação do momento: Léo Vieira; Acevedo, David Duarte, Ramos Mingo e Iago; Erick, Jean Lucas e Everton Ribeiro; Olivera, Erick Pulga e Everaldo. Um time que depende da inteligência posicional de Everton Ribeiro para distribuir o jogo e da velocidade de Erick Pulga para criar desequilíbrio individual — dois vetores que funcionam bem quando o time tem posse organizada, mas que se tornam insuficientes quando o adversário pressiona alto e força erros na saída de bola.

O Coritiba que não é vítima fácil no Couto Pereira

Quem imagina encontrar um Coritiba desorganizado no Couto Pereira vai se deparar com um time que, apesar dos tropeços em casa — incluindo a eliminação na Copa do Brasil diante de sua própria torcida —, chegou a esta rodada embalado por uma vitória importante fora: 1 a 0 sobre o Santos na Neo Química Arena, no fim de semana. O resultado não só devolveu confiança ao grupo de Fernando Seabra como recolocou o Coxa no mesmo patamar de pontos do Bahia: ambos com 23, sonhando com a zona da Libertadores.

Seabra terá os retornos do zagueiro Jacy e do lateral-esquerdo Felipe Jonathan, que recuperam a solidez defensiva que faltou nas rodadas anteriores. O único desfalque relevante é Lucas Ronier, ainda em tratamento de lesão. A escalação provável — Pedro Rangel; Lucas Taverna, Jacy, Tiago Cóser e Felipe Jonathan; Vini Paulista, Sebastián Gómez e Josué; Renato Marques, Lavega e Pedro Rocha — aponta para um time compacto, que valoriza a transição rápida e o aproveitamento dos espaços deixados pelo adversário.

O Couto Pereira, neste contexto, funciona como uma espécie de corredor estreito onde qualquer ventania lateral derruba quem não está bem plantado. O Bahia de Ceni, com peças ofensivas ausentes e um meio-campo que precisa se reinventar sem Caio Alexandre, vai sentir a pressão do ambiente paranaense de uma forma que vai além do placar.

O que muda no panorama do Bahia dependendo do resultado desta segunda

A arbitragem do confronto ficará a cargo de Anderson Daronco (RS), com assistência de Michael Stanislau (RS) e Cipriano da Silva Sousa (TO), e VAR conduzido por Rodrigo D'Alonso Ferreira (SC). Daronco é um dos árbitros mais experientes do quadro da CBF, com histórico de jogos de alto impacto — o que reduz a margem para reclamações sobre apitação, argumento que Ceni já utilizou em ocasiões anteriores para desviar o foco das questões táticas.

"Coritiba 1 x 2 Bahia", projetou o analista Celso Ardengh, apostando na capacidade do Esquadrão de se reorganizar sob pressão — mas o palpite carrega mais esperança do que evidência recente.

Uma derrota no Couto Pereira colocaria o Bahia em situação delicada: afastado do G-6, com o Coritiba abrindo vantagem no confronto direto e com a pressão interna sobre Ceni atingindo um nível que dificilmente a diretoria conseguiria ignorar por mais tempo. Uma vitória, por outro lado, não resolve os problemas estruturais do elenco — a ausência de Juba, em especial, é sentida na criatividade pelo lado esquerdo —, mas compra tempo e devolve ao técnico o argumento de que o time responde quando precisa.

O empate, curiosamente, pode ser o resultado mais perigoso para Ceni: mantém a situação de pressão sem oferecer alívio nem o gatilho definitivo para uma ruptura. Clubes que vivem nessa zona cinzenta de indefinição tendem a prolongar o desconforto até que um resultado mais dramático force a decisão. A diretoria do Bahia ainda não sinalizou publicamente qualquer movimento em relação ao futuro do treinador, mas a equipe de reportagem apurou que o contrato de Ceni tem cláusulas de desempenho atreladas à posição na tabela ao fim do primeiro turno — e o primeiro turno está se encerrando.

O próximo jogo do Bahia após esta segunda-feira será em casa, na Fonte Nova, onde a pressão da torcida tem peso diferente. Até lá, a resposta mais concreta sobre o futuro de Rogério Ceni no comando do Esquadrão de Aço virá do apito final de Daronco no Couto Pereira. Em 25 de maio saberemos se Ceni ainda tem crédito suficiente para chegar ao fim do primeiro turno.