O placar no telão ainda marcava 0 a 0 quando o bloco defensivo do adversário começou a recuar, metro a metro, empurrado por uma pressão que não dava trégua. Era a Portuguesa-RJ em mais uma noite no Grupo F da Série D — e o time da Ilha do Governador já havia decidido, muito antes do apito inicial, que propor o jogo era inegociável. A Portuguesa encerrou a 11ª rodada com 24 pontos, sete vitórias, três empates e uma derrota, e com o melhor ataque entre as 64 equipes da competição: 24 gols marcados, média de 2,18 por partida.

O diagnóstico de uma campanha construída em camadas

Chegar ao topo do Grupo F com esses números não foi produto de uma trajetória linear. A temporada de 2026 começou sob o comando de Fábio Matias, que ao ser apresentado no CT do clube já sinalizava a hierarquia de objetivos: "O maior foco hoje da equipe da Portuguesa é fazer um campeonato seguro no Paulistão e subir na Série D", declarou o treinador. Matias deixou o clube para assumir a Chapecoense, e a equipe passou ainda por Didinho — que já havia trabalhado na Lusa em temporadas anteriores e chegou a estudar os adversários do Grupo F antes mesmo da estreia — antes de chegar ao atual comandante, Caio Couto, de 47 anos.

Três técnicos em um único ano é, sociologicamente, um indicador de instabilidade institucional que costuma comprometer campanhas. No caso da Portuguesa, o dado mais relevante é que a instabilidade na beira do campo não contaminou o vestiário — e a explicação para isso está nos dois pilares que Couto descreve com precisão cirúrgica.

"Eu sintetizo o segredo da Portuguesa em dois pilares: o primeiro é o ser humano, como ele se enxerga. Se você se enxerga pequeno, você não alcançará coisas grandes; mas se você se enxerga grande e capaz, certamente será coroado de bons resultados. O segundo pilar é o modelo de jogo, a forma como a gente entende o futebol e o que temos buscado com a equipe da Portuguesa. Queremos ser uma equipe propositiva, que jogue para frente, intensa, com gosto de fazer gols, fazer bons jogos, e com muita mobilidade."

O modelo ofensivo que transforma a Série D em laboratório tático

A Série D impõe uma lógica inversa à de competições de elite. Enquanto no Campeonato Paulista — onde a Portuguesa enfrentou Corinthians, Palmeiras e São Paulo nesta temporada — o time rubro-verde naturalmente recuava e propunha menos, na quarta divisão do Brasileirão a equipe se vê obrigada a atacar contra blocos baixos e compactos. O técnico anterior, Ademir Fesan, que chegou ao clube no meio da competição e acumulou quatro vitórias, dois empates e uma derrota em sete jogos à frente da equipe, já havia mapeado essa dinâmica com clareza.

"No Paulista, você enfrenta Corinthians, Palmeiras, São Paulo, o normal é você atacar menos. Na Série D, muitas vezes, acontece o inverso. Os times marcam mais baixo e temos que propor o jogo. Por isso, temos que melhorar essa finalização, é o que mais temos trabalhado", relatou Fesan em entrevista coletiva no CT do Parque Ecológico.

A imagem que melhor descreve o ataque da Portuguesa nesta fase de grupos é a de uma enxurrada que encontra o leito do rio estreito: a pressão se acumula, a água sobe, e a passagem acontece pelos flancos quando o centro está fechado. É exatamente com essa mobilidade — jogadores que transitam entre linhas, trocam de posição e surgem de ângulos inesperados — que a equipe tem conseguido furar retrancas que emperrariam times mais estáticos. Caio Couto atribui parte desse rendimento à profundidade do elenco: "Uma das virtudes do nosso elenco é termos bons jogadores e boas peças de reposição em todos os setores do campo, e no ataque não é diferente. Muitas das vezes quem tem vindo do banco está decidindo o jogo para nós."

Os gargalos que o Grupo F ainda expõe

A campanha tem, contudo, uma assimetria que os dados deixam evidente. Dos sete triunfos conquistados, apenas um foi fora de casa — a vitória sobre o Água Santa na 4ª rodada. Nos outros dois jogos como visitante, contra América-RJ e Madureira, a equipe dominou as partidas mas não converteu o controle em gols. O próprio Fesan, quando ainda estava no comando, admitiu o paradoxo: "Dominamos contra o América e o Madureira, mas não aproveitamos." A vitória por 4 a 1 sobre o América-RJ, citada como referência positiva, veio acompanhada de um alerta — o adversário criou grandes chances e teve um pênalti defendido pelo goleiro Bruno.

As condições logísticas da Série D amplificam esse desafio. Viagens superiores a sete horas, gramados irregulares — o campo do América-RJ foi descrito como "muito cheio de buraco, o pé afunda" — e o desgaste físico acumulado em uma competição que, na edição de 2026, aumentou o número de clubes e o número de fases de mata-mata. A resposta da comissão técnica a esse diagnóstico é pragmática e, ao mesmo tempo, reveladora de uma cultura institucional em construção: "Quer campo bom? Vamos trabalhar para chegar na Série A", resumiu Fesan, numa frase que sintetiza a mentalidade que Caio Couto herdou e ampliou.

O acesso à Série C como único horizonte real

Desde a apresentação de Fábio Matias, no início do ano, a hierarquia de metas da Portuguesa foi enunciada sem ambiguidade: o Campeonato Paulista era tratado como competição de sustentação — "fazer um campeonato seguro" —, enquanto o acesso à Série C era definido como o objetivo estrutural da temporada. Essa clareza de propósito tem valor organizacional concreto: evita a dispersão de recursos humanos e táticos, e permite que o elenco canalize energia para uma única meta principal.

Já classificada ao mata-mata da Série D, a Portuguesa enfrenta o Resende neste sábado, fora de casa, no Estádio do Trabalhador, às 15h, pela 12ª rodada do Grupo F. Uma vitória consolidaria ainda mais a liderança e reduziria a dependência de resultados paralelos. Com 24 pontos e o melhor ataque da competição, a Lusa chega ao confronto com margem para administrar — mas, dado o histórico de dificuldades como visitante, a pergunta que a torcida vai querer responder nas próximas semanas é objetiva: a Portuguesa consegue replicar fora de casa a mesma eficiência ofensiva que já dominou o Estádio Luso Brasileiro?