25 passagens pela polícia pelo mesmo crime — e Raiane Campos de Oliveira, 27 anos, ainda estava em liberdade quando dopou dois turistas britânicos na Praia de Ipanema, em agosto de 2025. A Polícia Civil do Rio encerrou a fuga dela na quarta-feira (14), localizando-a no Complexo do Chapadão, em Costa Barros, Zona Norte, durante uma operação contra o tráfico de drogas que cumpria 51 mandados de busca e apreensão. A prisão fecha o ciclo do trio mais notório do golpe conhecido como Boa noite, Cinderela no Rio de Janeiro — mas abre uma ferida que vai muito além de três mulheres e duas vítimas estrangeiras.

Como o trio escolhia vítimas e apagava rastros em Ipanema

O modus operandi era cirúrgico. Segundo a delegada Patrícia Alemany, da Delegacia de Atendimento ao Turismo (DEAT), ela age do mesmo jeito: dopa as vítimas. Em seguida, essas pessoas desmaiam e elas praticam o crime. E foi o caso desses dois turistas britânicos que chegaram a ficar hospitalizados. É um crime grave. Raiane, Amanda Couto Deloca (23 anos) e Mayara Ketelyn Américo da Silva (26 anos) frequentavam bares da Lapa, Pedra do Sal, Copacabana, Ipanema e Leblon — áreas de alta concentração turística — e abordavam homens desacompanhados. Naquela madrugada de agosto de 2025, os dois britânicos conheceram o trio em um bar na Lapa e aceitaram caipirinhas oferecidas pelas mulheres. A partir daí, relataram não se lembrar de mais nada.

O desfecho foi filmado por uma testemunha: um dos turistas, de 21 anos, cambaleava na areia de Ipanema até cair desacordado. O vídeo circulou nas redes sociais e foi reproduzido pelo Daily Mail e pelo The Mirror, que classificou o momento como chocante e relacionou o caso a outro britânico que morreu após supostamente usar drogas em viagem ao Brasil. A repercussão internacional constrangeu as autoridades cariocas e acelerou a investigação. Um grupo de passantes levou as vítimas à UPA de Copacabana, onde só recuperaram a consciência horas depois. O prejuízo: dois celulares roubados e uma transferência bancária de 16 mil libras esterlinas, equivalente a mais de R$ 110 mil.

A queda das duas primeiras e a fuga de Raiane pelo Chapadão

Amanda Couto Deloca foi a primeira a cair, presa ainda em agosto de 2025. Mayara Ketelyn Américo da Silva foi capturada em setembro do mesmo ano. Raiane, apontada pela polícia como a chefe da quadrilha, conseguiu se esconder no Complexo do Chapadão por quase nove meses — comunidade onde, segundo as investigações, o trio já morava antes dos crimes. O que a entregou foi um detalhe banal: ela passou a ser monitorada após pedir comida por um aplicativo de delivery. Na delegacia, exerceu o direito ao silêncio e se recusou a prestar depoimento. Contra ela pesava um mandado de prisão preventiva expedido pela 19ª Vara Criminal do Rio.

Reparemos no detalhe: Raiane havia sido presa anteriormente por dopar um turista inglês em um samba na Pedra do Sal em 2023, foi condenada a seis anos em regime semiaberto e depois absolvida pela 8ª Câmara Criminal por falta de provas. Acumulou 25 passagens pela polícia pelo mesmo tipo de crime e seguiu em liberdade o suficiente para liderar um novo ataque que virou manchete internacional. A trajetória dela não é uma anomalia — é o retrato de um sistema de reincidência que a apuração do SportNavo identificou como padrão em crimes de alta especialização técnica como o Boa noite, Cinderela.

O que a reincidência de Raiane diz sobre o sistema de segurança pública

Há quem argumente que absolvições como a de 2023 refletem apenas o princípio do in dubio pro reo e que o sistema funcionou dentro de suas regras. O contra-argumento tem fundamento jurídico — mas ignora o custo prático de 25 passagens pelo mesmo crime sem prisão definitiva. O golpe Boa noite, Cinderela envolve substâncias como Rohypnol e GHB — drogas associadas a estupros — que dificultam a produção de prova justamente porque apagam a memória das vítimas. Isso cria um ciclo perverso: quanto mais sofisticado o crime, mais difícil é a condenação, mais curto é o tempo de encarceramento e mais rápido o retorno à atividade criminosa. O caso de Raiane é o exemplo mais documentado desse ciclo no Rio de Janeiro em 2026.

A delegada Patrícia Alemany foi direta ao apontar o vetor de vulnerabilidade: É importante tomar cuidado com as suas bebidas, com seus drinques. Com as pessoas desconhecidas que te abordam. Geralmente, elas agem de forma organizada. O alerta é válido, mas transfere o ônus da prevenção para a vítima — um recurso retórico que não resolve a questão estrutural. A DEAT, delegacia especializada no atendimento a turistas, identificou as três suspeitas rapidamente após o crime de agosto de 2025. A demora de nove meses para prender a última delas não foi de identificação, mas de localização dentro de uma comunidade onde o Estado tem acesso limitado.

O efeito cascata sobre o turismo carioca e o que vem a seguir

As reportagens do Daily Mail e do The Mirror sobre o caso de Ipanema chegaram a leitores britânicos com uma mensagem clara: o golpe tem se tornado cada vez mais comum no Brasil, envolvendo substâncias que as autoridades associam a crimes sexuais. Essa narrativa, amplificada pelo vídeo do turista cambaleando na orla, gerou um dano de imagem para o Rio que nenhum press release da Secretaria de Turismo neutraliza com facilidade. O Rio recebe milhões de visitantes estrangeiros por ano — e casos como este constroem percepção de risco de forma desproporcional ao número real de ocorrências, mas proporcional à violência do método.

Com as três integrantes do trio agora sob custódia — Amanda presa desde agosto de 2025, Mayara desde setembro e Raiane desde 14 de maio de 2026 —, o processo penal segue para a fase de instrução na 19ª Vara Criminal do Rio, com as três indiciadas por roubo qualificado e associação criminosa. Acompanhar o andamento do processo é o movimento mais concreto para quem quer entender se o sistema conseguirá, desta vez, manter a condenação que a ficha criminal de Raiane há muito justificaria.