Quantas finalizações um time precisa para marcar ao menos um gol? Para o Flamengo desta quinta-feira, 14 de maio de 2026, a resposta foi: mais do que 26. O Rubro-Negro desperdiçou toda essa produção ofensiva no Barradão, perdeu por 2 a 0 para o Vitória e foi eliminado da Copa do Brasil na quinta fase — desfazendo a vantagem de 1 a 0 construída no jogo de ida. O que parecia uma classificação administrável virou um colapso com múltiplos autores.
A pergunta que fica não é apenas por que o Flamengo não converteu as chances. A questão mais incômoda é por que Leonardo Jardim levou tanto tempo para perceber que o time precisava de intervenção. Quando o placar já marcava 2 a 0 e o relógio avançava, as substituições ainda demoravam a vir — e quando chegaram, chegaram em bloco, sem lógica progressiva. O time terminou a partida com Bruno Henrique, Wallace Yan, Cebolinha e Pedro no ataque, Jorginho recuado para a defesa como zagueiro improvisado e nenhum meia de criação em campo.
Esse retrato final diz muito sobre o planejamento do banco. Não havia equilíbrio entre linhas, não havia estrutura para sustentar a pressão ofensiva que o resultado exigia. O que havia era urgência mal administrada — e o Vitória, que quis mais durante os 90 minutos, soube explorar cada espaço deixado por um adversário sem plano B definido.
O que os protagonistas disseram sobre a noite em Salvador
Leonardo Jardim reconheceu a falha coletiva sem poupar o diagnóstico. Ao ser questionado sobre o aproveitamento das finalizações, o técnico português foi direto:
"Hoje foi um jogo que tivemos um domínio de posse, 26 finalizações e não concretizamos. Não por falta de atitude e empenho. O primeiro foi um grande gol. No segundo foi um erro em escanteio, em que precisamos ter mais atenção. Perdemos o que era um dos objetivos nessa primeira fase da temporada."
Jardim também justificou a ausência de Nicolás De La Cruz, ausente mesmo com o time necessitando de criatividade para desmontar o bloco defensivo do Vitória. Para o treinador, o estilo físico do confronto tornava o uruguaio inadequado para aquele ambiente: "Vocês viram que foi um jogo muito direto, de muito contato, e esse tipo de jogo não é para o De La Cruz". A explicação tem coerência tática parcial, mas ignora que os substitutos escolhidos também não resolveram o problema de criação.
Sobre a pressão que a eliminação gera no restante da temporada, Jardim foi categórico:
"Neste momento acabamos por perder, e aumenta nossa pressão para tentar conquistar as outras competições. Mas a responsabilidade é a mesma — dentro do grupo nós tínhamos essa responsabilidade de estar nas três competições. Falhamos. Não fomos competentes o suficiente para passar esta eliminatória."
Os números que o Flamengo não consegue explicar
Vinte e seis finalizações com zero gols marcados é um índice de eficiência que coloca o Flamengo entre os piores aproveitamentos de uma partida eliminatória recente no futebol brasileiro. O dado não é isolado — a dificuldade de transformar posse de bola e volume de chutes em gols aparece como padrão ao longo da temporada 2026, e a eliminação no Barradão apenas jogou holofote sobre algo que vinha sendo encoberto pela sequência de dez jogos de invencibilidade.
Os dois gols sofridos reforçam outro problema recorrente: a vulnerabilidade em bola parada. Erick abriu o placar com um chute de fora da área que pegou o goleiro Rossi em má posição, e Luan Cândido fechou o placar aproveitando falha do próprio Rossi em cobrança de escanteio. Ambos os lances são categorizados como situações treináveis — não foram jogadas de genialidade do adversário, mas erros de posicionamento e concentração do Flamengo.
Quando o time domina a posse, ele produz volume. Quando precisa converter esse volume em gols, trava. Quando trava, o banco de reservas demora para reagir. Esse é o ciclo que a eliminação para o Vitória tornou impossível de ignorar, e que a análise pós-jogo de múltiplas fontes aponta com consistência.
O que resta para Jardim depois da Copa do Brasil
A eliminação encerra o sonho da tríplice coroa que o presidente Bap havia anunciado publicamente no São Paulo Innovation Week dias antes da partida. Com a Copa do Brasil fora do horizonte, o Flamengo segue apenas no Brasileirão e na Copa Libertadores — duas competições que exigem consistência exatamente nas áreas onde o time demonstrou fragilidade em Salvador.
A dificuldade dos pontas também merece atenção estrutural. Luiz Araújo fez uma de suas piores partidas pelo clube, e a escassez de criatividade pelos lados do campo é um debate que já existia na gestão anterior, com Filipe Luís. Jardim herdou o problema e ainda não apresentou solução prática para ele.
A queda no Barradão quebrou uma sequência de 13 anos sem derrota do Flamengo naquele estádio — dado que torna o revés ainda mais simbólico. O Vitória avança às oitavas de final da Copa do Brasil com mérito incontestável: foi o time que quis mais, defendeu melhor e soube aproveitar os dois momentos em que o adversário baixou a guarda. O Flamengo, com investimento e elenco incomparavelmente superiores, saiu sem resposta para uma noite que deveria ter sido administrável.
A próxima oportunidade de Jardim demonstrar capacidade de correção vem no domingo, 17 de maio, quando o Flamengo visita o Athletico-PR na Arena da Baixada, às 19h30, pelo Campeonato Brasileiro. Uma derrota ali, com a memória fresca do Barradão, pode transformar a pressão atual em crise de proporções maiores.








