Diz-se que a Arábia Saudita vive seu melhor momento no futebol mundial. Na verdade, os dados contam uma história mais complicada — e o Grupo H da Copa do Mundo 2026 vai testá-la em tempo real. O técnico alemão Georgios Donis anunciou os 26 convocados nesta semana, cortando quatro jogadores da pré-lista de 30 divulgada em 23 de maio: o goleiro Abdulqudus Attia, o defensor Zakaria Hawsawi, o meio-campista Saleh Abu Al Shamat e o atacante Abdullah Al Salem. São escolhas que revelam uma filosofia clara — e algumas apostas de alto risco.
Os 26 escolhidos por Donis e o que os cortes dizem sobre o modelo de jogo
A lista final tem quatro goleiros fora e três dentro: Ahmed Al Kassar (Al-Qadsiah), Mohammed Al Owais (Al-Ula) e Nawaf Al Aqidi (Al-Nassr). O corte de Attia sugere que Donis prioriza saída de bola pelo goleiro — Al Owais tem histórico consistente nesse quesito pela Saudi Pro League. No setor defensivo, dez jogadores foram mantidos, com destaque para Saud Abdulhamid, único da lista atuando fora da Arábia Saudita, pelo Lens, na Ligue 1.
No meio-campo, oito nomes compõem o setor mais interessante taticamente. Mohammed Kanno e Sultan Mandash, ambos do Al-Hilal, formam a espinha dorsal do sistema de Donis. Kanno, em particular, registrou números expressivos de progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — na temporada 2025/2026 da Saudi Pro League, sendo um dos líderes da competição nessa métrica. Isso importa porque o técnico alemão tende a construir saídas longas desde a defesa, e Kanno funciona como o conector entre as linhas.
No ataque, os quatro escolhidos são Feras Al Brikan (Al-Ahli), Salem Al Dawsari (Al-Hilal), Abdullah Al Hamdan (Al-Nassr) e Saleh Al Shehri (Al-Ittihad). Salem Al Dawsari é o nome mais conhecido internacionalmente — foi ele quem marcou o gol histórico contra a Argentina em 2022. O xG (expected goals) acumulado por Dawsari nesta temporada está acima de 7, o que o coloca entre os atacantes mais eficientes da liga saudita. Para contexto: um xG de 7 em uma temporada indica que o jogador criou chances de qualidade suficiente para marcar sete gols esperados — ele converteu a maioria delas.
- Salem Al Dawsari — xG acumulado na temporada 2025/26: ~7.2 | Artilheiro da seleção na Copa de 2022
- Abdullah Al Hamdan — xA (expected assists) entre os mais altos do elenco, especialista em criar para os companheiros
- Feras Al Brikan — atacante de profundidade, com alto volume de defensive actions na pressão alta, o que combina com o estilo de Donis
O Grupo H pelo ângulo dos dados — por que Uruguai é o jogo mais perigoso
O senso comum aponta a Espanha como o obstáculo principal. Os números sugerem outra leitura. A seleção de Marcelo Bielsa — ou de quem estiver no comando do Uruguai em junho — historicamente apresenta um dos menores índices de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) entre as equipes sul-americanas, o que significa pressão intensa e constante. Contra um bloco saudita que depende de transições rápidas, essa pressão pode sufocar exatamente o que a Arábia Saudita faz de melhor.
A estreia acontece em 15 de junho, em Miami, às 19h (horário de Brasília). Jogar no calor da Flórida em junho pode ser um fator nivelador — o tipo de variável que um time tecnicamente inferior usa a seu favor, como uma banda de garagem que soa melhor ao vivo do que em estúdio. A segunda partida, contra a Espanha, será em 21 de junho, em Atlanta, às 13h. A terceira, contra Cabo Verde, fecha o grupo em Houston, às 21h.
Conforme registrado pelo SportNavo, a Arábia Saudita perdeu por 2 a 1 para o Equador em amistoso realizado em Nova Jersey no último domingo — resultado que acende um sinal de atenção, mas que Donis deve tratar como dado de trabalho, não de alarme. Ainda há dois jogos de preparação: contra Porto Rico na próxima sexta e contra o Senegal em 9 de junho.
Sétima Copa, terceira consecutiva e a pressão de não ser mais surpresa
A Arábia Saudita chega à sua sétima Copa do Mundo e à terceira participação consecutiva — 2018, 2022 e agora 2026. O melhor resultado histórico ainda é a campanha de 1994, quando a seleção chegou às oitavas de final. Em 2022, o milagre contra a Argentina gerou uma expectativa que o torneio não confirmou: a equipe foi eliminada na fase de grupos.
O grande problema de 2026 é exatamente esse: a Arábia Saudita perdeu o elemento surpresa. Qualquer analista adversário já mapeou Salem Al Dawsari, já estudou os padrões de pressão de Kanno, já sabe que Saud Abdulhamid vai avançar pelo lado direito. A pass network saudita — o mapa de conexões entre jogadores durante a construção de jogadas — é conhecida. Donis precisará de variações táticas que os adversários ainda não viram.
O grupo tem 26 jogadores prontos. A resposta sobre se são suficientes para sair da fase de grupos começa a ser escrita em 15 de junho, em Miami, quando o apito inicial contra o Uruguai soar.










