É um vulcão vestindo camisa azul-escura. Só que este vulcão tem precisão cirúrgica e toca a bola com a frieza de quem já marcou mais vezes do que jogou pela própria seleção. Erling Haaland chega à Copa do Mundo de 2026 carregando a Noruega nas costas — e nas chuteiras — depois de 28 anos de ausência dos noruegueses no torneio mais assistido do planeta.
O último capítulo norueguês numa Copa foi em 1998, na França. Naquele grupo histórico, a seleção de Egil Drillo Olsen venceu o Brasil por 2 a 1 na fase de grupos — uma das raras derrotas canarinho nessa fase, e curiosamente parte de um jejum que persiste até hoje: o Brasil jamais venceu a Noruega em quatro partidas disputadas, somando dois empates e duas vitórias nórdicas. Naquele mesmo Mundial, os noruegueses chegaram às oitavas de final, sua melhor colocação histórica. Agora, com a Copa se espalhando por Estados Unidos, México e Canadá a partir de 11 de junho, o roteiro parece mais promissor — mas também mais complicado.
A campanha que silenciou a Itália e abriu o caminho para os EUA
Para entender o tamanho do que a Noruega fez nas eliminatórias europeias, basta um número: oito vitórias em oito jogos, aproveitamento de 100%. No Grupo I das qualificatórias, a seleção de Ståle Solbakken deixou para trás Itália, Israel, Estônia e Moldávia com uma consistência que não se via no futebol nórdico desde os tempos do próprio Drillo na década de 1990. A Azzurra, que já havia ficado de fora das Copas de 2018 e 2022, voltou a viver o pesadelo da repescagem depois de levar 4 a 1 dos noruegueses numa das partidas decisivas do ciclo.
Haaland foi o motor. Com mais gols do que jogos pela seleção, o centroavante do Manchester City redefine o que se espera de um atacante nórdico — historicamente, a Noruega sempre jogou com marcação alta e jogo direto, mas nunca teve um finalizador com esse nível técnico no sistema. Nas eliminatórias, a estatística que assustou os adversários europeus foi justamente essa relação gol-por-jogo que ultrapassa a marca de 1.0 — algo que só os maiores artilheiros de seleções da história conseguiram sustentar por períodos prolongados.
França e Senegal no Grupo I — a herança de 2002 e o novo peso africano
O sorteio realizado em Washington colocou a Noruega no Grupo I ao lado da França, cabeça de chave, do Senegal e do vencedor da repescagem entre Bolívia, Iraque e Suriname. Quem conhece a história das Copas imediatamente pensa em 2002: a França de Zidane, Vieira e Henry entrou como bicampeã e saiu na fase de grupos sem marcar um único gol. O tamanho do favoritismo nunca foi garantia de passagem. Os Bleus chegaram ao Grupo D das eliminatórias europeias com cinco vitórias e um empate em seis jogos, aproveitamento de 88%, liderando à frente de Ucrânia, Islândia e Azerbaijão. É uma equipe em transição geracional, mas ainda calcada numa estrutura de campeã mundial de 2018.
O Senegal, por sua vez, representa o futebol africano em sua versão mais organizada taticamente. Nas eliminatórias continentais, os senegaleses venceram sete jogos, empataram três e sofreram apenas três gols em todo o grupo — uma solidez defensiva que lembra a Costa do Marfim dos anos 2000, só que com maior equilíbrio entre as linhas. A geração que foi vice-campeã africana em 2019 e campeã em 2021 amadureceu, e o bloco coletivo pode ser o fator mais perigoso para a Noruega, cujo sistema depende fortemente da qualidade individual de Haaland.
Três seleções, três estilos radicalmente diferentes. Segundo análise do SportNavo, é exatamente esse choque de culturas táticas que torna o Grupo I um dos mais imprevisíveis do torneio.
O que Haaland precisa — e o que a Noruega não pode ignorar
Há uma tensão estrutural no futebol norueguês que qualquer observador atento percebe: a seleção foi construída para alimentar Haaland, mas Copa do Mundo não se vence só com um atacante. O próprio centroavante reconheceu publicamente que ainda tem espaço para crescer.
"Eu posso ficar melhor. Meu pé esquerdo, meu pé direito, minhas habilidades técnicas, minhas passagens. Ficarei mais envolvido, farei mais gols e mais assistências", afirmou Haaland em entrevista à Manchester City TV.
A declaração é reveladora. Haaland não é um centroavante de 1998 como Ole Gunnar Solskjær — aquele atacante de área pura que aparecia para decidir em dois toques. Ele quer participar mais da construção, ser um ponto de apoio além do gol. Isso é exatamente o que a Noruega precisa para não se tornar previsível contra a organização defensiva senegalesa e a pressão francesa.
O caminho para as oitavas existe e é concreto. No formato com 48 seleções divididas em 12 grupos, avançam os dois primeiros colocados de cada chave mais os oito melhores terceiros colocados. Uma campanha de seis pontos — duas vitórias, uma derrota — pode ser suficiente, dependendo dos resultados paralelos. A comparação histórica mais útil aqui é a Dinamarca de 1998 e 2002: seleção nórdica sem estrelas individuais dominantes, mas com coletivo azeitado, que avançou nas duas edições justamente por consistência e não por brilhantismo.
A Noruega de 2026 tem algo que aquelas seleções dinamarquesas não tinham — um artilheiro que quebrou o recorde de chegada aos 100 gols na Premier League no menor número de partidas da história do torneio inglês. A questão não é se Haaland vai marcar. A questão é se os dez jogadores ao redor dele vão criar os espaços que ele precisa para fazer isso contra adversários que já estudaram cada centímetro do seu jogo.
A estreia da Noruega no Grupo I está prevista para a fase inicial do torneio, em junho. O confronto com a França, provavelmente o jogo mais observado do grupo, será o teste real de maturidade desta geração nórdica — a mais talentosa da história do país — diante de um adversário que combina experiência de finalista em 2022 com a brutalidade física de um elenco formado na Ligue 1 e nas principais ligas europeias. Está pronto o cenário — falta Haaland escrever o roteiro.









