A última vez que um tenista brasileiro sem ranking na ATP conquistou um título profissional de simples nos Estados Unidos, a internet discava em 56k. A façanha de Joaquim Almeida no ITF M15 de Vero Beach, encerrada neste domingo com uma vitória de 6/2, 1/6 e 6/3 sobre Alex Rybakov (número 341 do mundo), não tem precedente rastreável na base de dados do circuito para tenistas brasileiros nessa condição de entrada. Oito match points salvos ao longo da semana. Um ex-top 40 eliminado. E um troféu conquistado por quem nem sabia se conseguiria entrar na chave.
O circuito ITF e a porta mais estreita do tênis profissional
Para entender a dimensão estatística do que aconteceu em Vero Beach, é preciso contextualizar o nível de dificuldade de entrada. Os torneios ITF M15 representam o degrau mais baixo do tênis profissional masculino — mas isso não significa que sejam fáceis. A lista de alternates do qualifying funciona como uma fila de espera: o 1º alternate tem chance razoável de entrar; o 28º, estatisticamente, quase nunca entra. Almeida estava na posição 28. Mesmo assim, viajou de Orlando até Vero Beach, no estado da Flórida, sem garantia alguma de que pisaria numa quadra sequer.
O paraense de 24 anos havia acumulado pontos na ATP anteriormente — seu melhor ranking registrado era o 1.244º posto, alcançado em setembro de 2024 — mas precisou interromper a carreira para trabalhar em período integral e arcar com os custos do circuito. Quando decidiu se inscrever no M15, seu saldo de pontos era zero. A história que se seguiu tem mais de roteiro de filme do que de relatório de torneio.
Oito match points e um ex-39 do mundo no caminho
O dado que mais impressiona nesta campanha não é o título em si — é a resiliência estatística. Salvar oito match points ao longo de uma semana de torneio exige uma combinação rara de frieza, qualidade técnica e, convenhamos, alguma dose de sorte. Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e Almeida caçou com tudo que tinha, incluindo uma lesão na posterior e na virilha que o obrigou a jogar enfaixado e medicado a partir do quarto jogo.
O momento mais crítico da campanha veio nas quartas de final, contra JJ Wolf. O norte-americano chegou a ocupar o 39º lugar no ranking da ATP em fevereiro de 2023 — para referência, essa posição hoje equivale à borda do top 40, território onde se disputam Masters 1000 e Grand Slams com frequência. Atualmente em 947º, Wolf ainda carrega o repertório técnico de quem esteve entre os 40 melhores do planeta. Almeida não apenas o venceu: sobreviveu a match points que, em qualquer análise probabilística, deveriam ter encerrado sua participação.
"Eu fui mesmo sem estar fisicamente no meu melhor. No quarto jogo eu já tinha estirado a minha posterior, minha virilha. Eu estava destruído. Todo enfaixado na perna, com bandanas pra tentar segurar a dor, tomando remédio contra a dor. Eu não esperava esse resultado", revelou Almeida.
A matemática de uma carreira reconstruída do zero
O levantamento que o SportNavo fez sobre o perfil de Almeida revela uma trajetória atípica mesmo para os padrões do circuito ITF. Depois de passar pelo tênis universitário americano — um caminho comum para brasileiros que emigram jovens em busca de bolsas de estudo — ele tentou a transição para o profissional, acumulou pontos até o ranking 1.244, e então precisou parar. Trabalho em período integral, zero de pontos, e um sonho que muitos ao redor dele classificavam como irracional.
"Tudo valeu a pena para conquistar este título. Foram 11 anos vivendo sozinho, perseguindo um sonho que muitos disseram que eu era louco, lunático ou até pior", postou o tenista após a conquista.
A final contra Rybakov ilustra bem o nível técnico que Almeida demonstrou ao longo da semana. O placar de 6/2 no primeiro set aponta domínio claro; a perda do segundo por 1/6 mostra que o adversário ajustou e que o canhoto paraense estava longe de uma performance física ideal; o fechamento em 6/3 no terceiro set, com o corpo já desgastado, é o dado que mais pesa na análise de temperamento competitivo.
O que o ranking vai dizer na próxima atualização
Desde que Gustavo Kuerten conquistou Roland Garros em 2000 e chegou ao número 1 do mundo, o tênis brasileiro convive com a pressão de encontrar o próximo grande nome. João Fonseca, atualmente no top 30, carrega esse peso com mais visibilidade. Mas histórias como a de Almeida lembram que o esporte tem múltiplas camadas — e que o circuito ITF produz narrativas que os holofotes dos Grand Slams raramente iluminam.
"O mais louco é que hoje ainda preciso trabalhar em período integral enquanto tento seguir o tênis profissional apenas part-time por questões financeiras. Acredito que essa história pode inspirar muita gente que está correndo atrás de um sonho mesmo enfrentando dificuldades reais da vida", declarou Almeida ao Guia do Tenista.
Com o título em Vero Beach, Almeida somou 15 pontos na ATP e deve aparecer entre os 1.050 melhores tenistas do mundo na próxima atualização do ranking — sua melhor marca histórica, superando o 1.244º lugar de setembro de 2024. Aos 24 anos, com o primeiro troféu profissional de simples no currículo e a prova de que consegue superar match points e ex-top 40 mesmo lesionado, o paraense de Orlando parte agora para a próxima etapa do circuito ITF com um número concreto na bagagem: 15 pontos que, há duas semanas, eram zero.








