— Você viu o jogo ontem?
— Vi. Parei tudo.
— Todo mundo parou.
Essa conversa aconteceu em bares, grupos de WhatsApp e mesas de almoço em todo o Brasil na segunda-feira, 2 de junho. E ela tem um número por trás: 28 pontos de média em São Paulo, com 48% de participação na faixa horária. O amistoso entre Brasil e Panamá, disputado no último domingo no Maracanã, registrou a maior audiência de um jogo da Seleção na capital paulista em quase dois anos — e bateu o recorde da faixa dominical desde 30 de outubro de 2022, quando o segundo turno das eleições presidenciais parou o país. Para comparar: naquele domingo eleitoral, o Brasil parou por obrigação cívica. No dia 31 de maio, parou por vontade própria.
O que 28 pontos em SP dizem sobre o apetite do país pela Copa
No Rio de Janeiro, os números foram ainda mais expressivos. A vitória brasileira sobre o Panamá alcançou 30 pontos de audiência e 48% de participação na praça fluminense — crescimento de 88% na média do horário em relação aos quatro domingos anteriores e a maior marca da faixa no Rio desde julho de 2019. Isso significa que quase metade de cada televisor ligado naquele horário estava sintonizado no Maracanã. Em São Paulo, o índice representou o dobro da audiência média dos quatro domingos anteriores. Dobro. Esse dado, registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da preparação da Seleção, não é detalhe — é termômetro.
A partida foi o último compromisso do Brasil em território nacional antes da Copa do Mundo. E o torcedor sentiu isso. Havia algo de despedida no ar do Maracanã naquele domingo à tarde — o calor úmido do Rio, as bandeiras verdes e amarelas nas arquibancadas, o manto canarinho sendo visto em casa pela última vez antes de virar notícia do outro lado do Atlântico. Vini Jr abriu o placar aos dois minutos, foi ovacionado, e a torcida entendeu o recado: esse time quer chegar longe.
Segundo análises da emissora, o crescimento de audiência reflete uma mobilização popular que não se via desde os ciclos anteriores de Copa do Mundo, quando qualquer amistoso da Seleção era evento nacional.
Como o jogo contra o Panamá expôs o que ainda falta resolver
A goleada por 6 a 2 não esconde as arestas. O primeiro tempo foi irregular: o Panamá empatou aos 13 minutos em cobrança de falta de Murillo que desviou em Matheus Cunha e enganou Alisson. Por um bom trecho dos primeiros 45 minutos, a equipe de Carlo Ancelotti atuou com o freio de mão puxado, oferecendo espaços ao adversário. O Brasil só engrenou depois de Casemiro, aos 38 minutos, completar cruzamento de Vini Jr para fazer 2 a 1. O segundo tempo, com dez alterações, foi outro jogo — e foi nele que a goleada se construiu. O desafio de Ancelotti para a Copa é justamente esse: encontrar o time que joga os 90 minutos no mesmo nível em que jogou os últimos 45 contra o Panamá.
A irregularidade dentro de campo, porém, não esfriou a temperatura nas arquibancadas nem nas telas. Esse contraste — um time ainda em construção sendo assistido com a intensidade de uma final — é exatamente o que os números de audiência revelam. O torcedor brasileiro não está esperando um time perfeito. Está esperando a Copa.
O que ainda falta antes da estreia contra o Marrocos
A preparação tem mais um capítulo. No sábado, 6 de junho, às 19h (horário de Brasília), o Brasil enfrenta o Egito em amistoso no Huntington Bank Field, em Cleveland, nos Estados Unidos. Esse será o último teste de Ancelotti antes da fase de grupos — e o técnico terá apenas uma semana entre esse jogo e a estreia no Mundial.
A estreia está marcada para 13 de junho, às 19h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, contra o Marrocos. Depois, o Brasil enfrenta o Haiti em 19 de junho, às 21h30, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, e fecha a primeira fase contra a Escócia em 24 de junho, às 19h, no Hard Rock Stadium, em Miami. Três jogos. Três cidades. Um objetivo.
Nas palavras de integrantes da comissão técnica ouvidos nos bastidores, o amistoso contra o Egito em Cleveland será usado para ajustes táticos específicos — não para experimentos. O tempo acabou.
O número que ficou desta semana não é o 6 a 2 do placar. São os 28 pontos em São Paulo e os 30 no Rio — uma audiência que não se via num amistoso da Seleção desde 2022 e que coloca o Brasil numa posição rara: entrar numa Copa do Mundo com o país genuinamente aceso. A pergunta que fica é se o time que começa em campo em Nova Jersey, no dia 13 de junho, vai corresponder ao Brasil que já parou.










