Três números, uma leitura invertida, um paradoxo histórico. Apenas 29% dos brasileiros acreditam no título na Copa do Mundo de 2026, segundo o Datafolha — o menor índice desde que o instituto começou a medir esse termômetro, em 1994. A pesquisa Genial/Quaest vai na mesma direção: 68% dos entrevistados afirmam que o Brasil não será campeão, o maior percentual pessimista da série histórica. E a Ipsos-Ipec confirma o quadro: apenas 16% dos brasileiros estão "muito animados" com o Mundial, ante 33% em 2022. Agora, antes de decretar crise, convém olhar para o retrovisor.

Quando o Brasil ganhou sem que ninguém apostasse

Em 1994, o Brasil chegou aos Estados Unidos carregando a sombra de oito anos sem Copa e um técnico, Carlos Alberto Parreira, que era alvo de chacotas na imprensa. A seleção era tachada de burocrática, sem brilho, apesar de ter Romário e Bebeto. O título veio nos pênaltis contra a Itália, e o país explodiu de surpresa — inclusive porque poucos esperavam chegar tão longe com aquele futebol pragmático. Em 2002, o roteiro foi ainda mais dramático: o Brasil havia sido eliminado nas quartas de final em 1998 e chegou à Coreia do Sul e ao Japão com Ronaldo recém-saído de um colapso médico na final anterior. A imprensa europeia mal citava o Brasil entre os favoritos. O resultado foi o pentacampeonato com 18 gols marcados e apenas quatro sofridos em sete jogos.

A lógica é simples e cruel ao mesmo tempo: quando o Brasil chega como favorito absoluto, o peso da expectativa esmaga. Em 1950, o Maracanã lotado aguardava a coroação — e veio o Maracanazo. Em 1982, a seleção de Sócrates, Zico e Falcão era considerada a mais talentosa do mundo e caiu para a Itália de Paolo Rossi. Em 2006, o Datafolha registrou 56% de brasileiros apostando no título — e Ronaldinho Gaúcho voltou para casa nas quartas de final, eliminado pela França. Quem não tem cão caça com gato, e quem não tem favoritismo, aparentemente, caça troféu.

A convocação de Ancelotti e o peso que ela não carrega

Nesta segunda-feira (18), Carlo Ancelotti anunciou no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, os 26 jogadores que representarão o Brasil na Copa do Mundo de 2026. A lista traz Neymar Jr., do Santos — uma das grandes novidades depois de meses de especulação —, além de Raphinha, do Barcelona, Vinicius Jr., do Real Madrid, e o jovem Rayan, do Bournemouth. Na meta, Alisson, Ederson e Weverton, do Grêmio. A convocação encerra um ciclo de cinco Datas Fifa em que Ancelotti passou por 58 atletas desde que assumiu o comando da seleção, em maio de 2025.

O técnico italiano deixou claro durante todo o processo que não trabalha com dívidas afetivas. Sobre Neymar, foi categórico em dezembro:

"Se Neymar merecer estar, se estiver bem, melhor que outro, ele vai jogar a Copa do Mundo e ponto. Não tenho dívida com ninguém."
Essa postura — fria, técnica, desapegada do simbolismo — é exatamente o que um grupo com 46% de aprovação do treinador (Quaest) precisa para funcionar sem o fardo do favoritismo. Ancelotti não promete título. Promete processo. E processos sem pressão excessiva costumam render melhores resultados.

O que os dados de audiência revelam sobre o humor do torcedor

O pessimismo não é apenas emocional — ele tem contorno econômico e social. A queda no entusiasmo é mais acentuada entre os homens: em 2022, 40% declaravam estar muito animados com a Copa; agora, esse número despencou para 18%. Entre jovens de 16 a 24 anos, o recuo foi de 44% para 28%. O percentual de brasileiros que afirmam não pretender assistir a nenhuma partida subiu de 24% em 2022 para 35% em 2026 — um dado que deveria preocupar patrocinadores e emissoras tanto quanto a CBF.

Mas há uma fissura interessante nesse quadro. Mesmo com o desânimo generalizado, 63% dos brasileiros ainda pretendem assistir aos jogos da seleção, sendo 21% dispostos a acompanhar todos os jogos possíveis. E quando a pesquisa Ipsos-Ipec perguntou qual sentimento melhor define o momento, a palavra mais citada foi "esperança", com 27% — à frente de "alegria" (15%) e "preocupação" (14%). O SportNavo identificou esse padrão em levantamentos anteriores de Copa: o brasileiro que diz não acreditar ainda liga a televisão. E quando liga, torce. O desânimo declarado raramente sobrevive ao primeiro gol.

"Pode ser que agora não temos um jogador referente neste sentido, mas teremos muitos jogadores referentes. Quero jogadores que querem ganhar a Copa. O importante não é ter referentes, mas ter jogadores que querem ganhar", disse Ancelotti em entrevista coletiva nos Estados Unidos, durante o sorteio dos grupos.

Ancelotti, os 56% de aproveitamento e o que vem agora

O técnico italiano completou dez jogos à frente da seleção com cinco vitórias, dois empates e três derrotas — aproveitamento de 56%. A aprovação de 41% na Quaest é menor que esse aproveitamento, o que diz algo sobre a desconfiança estrutural do torcedor, não necessariamente sobre o trabalho em si. Para comparação, Tite chegou à Copa de 2018 com aprovação superior a 60% — e o Brasil foi eliminado nas quartas de final pela Bélgica, de virada, após sair na frente do placar.

O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 em 11 de junho, nos Estados Unidos, Canadá e México. Antes disso, os 26 convocados se apresentam na Granja Comary, em Teresópolis, e fazem um amistoso de preparação contra o Panamá, no dia 31 de maio, no Maracanã. São 13 dias para Ancelotti transformar 29% de crença popular em coletivo funcional. A história mostra que esse número baixo já foi, antes, o ponto de partida para dois títulos mundiais.