37 jogos. Para um zagueiro de 37 anos que atua na Champions League, esse número não é trivial — é quase uma declaração de princípios.

O dado que ninguém olha mas explica tudo

Scott Arfield completou 37 partidas nesta temporada 2025/2026 pela Atalanta. Para contextualizar: a Champions League reúne os melhores clubes do continente, e manter um zagueiro de 37 anos em campo durante uma temporada inteira é uma escolha técnica deliberada, não uma coincidência de escalação. Gasperini — treinador que historicamente privilegia sistemas de três zagueiros e exige polivalência defensiva — não mantém jogadores por nostalgia. Quando um veterano atravessa uma temporada europeia completa, o dado de presença é, por si só, uma avaliação de desempenho.

Scott Arfield (Atalanta)
Scott Arfield (Atalanta)

Para quem acompanhou a Série A italiana nos anos 90 e 2000, esse tipo de fidelidade a um defensor maduro tem precedente claro. Costacurta ainda defendia o Milan aos 36 anos, em 2002, exatamente porque lia o jogo de um ângulo que jovens de 22 anos simplesmente não conseguem enxergar. A longevidade de Arfield na Atalanta desta temporada evoca esse mesmo princípio: há um valor intangível no futebol europeu que os números de mercado não capturam — o da presença que organiza.

Como ele chega a esse número

Nascido em 1º de novembro de 1988, Arfield chegou aos 37 anos ainda em atividade de alto nível. Isso, por si só, já é estatisticamente raro: segundo padrões históricos da Champions League, a participação de defensores acima dos 36 anos em competições europeias de elite caiu progressivamente desde os anos 2000, quando o futebol passou a valorizar atletismo puro em detrimento de inteligência posicional. O fato de o britânico estar na camisa 23 da Atalanta — clube que nas últimas temporadas construiu uma identidade europeia sólida — sugere que ele passou por um processo de adaptação tática bem-sucedido ao modelo bergamasco.

Com 178 cm e 69 kg, Arfield não é o zagueiro imponente da tradição italiana — aquele marcador de área que dominou a Serie A entre os anos 80 e 90, da era Baresi à era Cannavaro. É o tipo de defensor que joga com o cérebro antes do corpo, compensando a falta de centímetros com antecipação. É a parede de ferro construída de leitura, não de musculatura. Esse perfil tem funcionado dentro do sistema de Gasperini, que desde pelo menos 2016 prioriza zagueiros que participam da saída de bola e entendem o espaço como variável dinâmica, não estática.

Os outros números que falam o mesmo idioma

Dois gols e uma assistência em 37 jogos. Para um zagueiro em Champions League, esses números têm peso específico. Não estamos falando de um defensor que se transforma em atacante nos escanteios — estamos falando de contribuição ofensiva real dentro de uma função primariamente defensiva. Na temporada 1999/2000, por exemplo, quando o Real Madrid venceu a Champions com Hierro como líder defensivo, o espanhol somou 3 gols na competição — um número que a imprensa europeia tratou como sinal de maturidade tática, não de sorte.

A proporção de Arfield nesta temporada — 2 gols em 37 jogos — coloca-o numa faixa de contribuição ofensiva que, historicamente, diferencia zagueiros que simplesmente cumprem função daqueles que ampliam o repertório coletivo do time. Uma assistência em competição europeia, especialmente na fase de mata-mata ou grupos de alto nível, pode ser o detalhe que separa uma eliminação de uma classificação. Os dados disponíveis desta temporada não permitem isolar em qual contexto essas participações ocorreram, mas o volume de jogos confirma: ele estava em campo quando essas jogadas aconteceram.

O risco de confiar só nesse dado

Toda análise baseada em presença carrega um risco metodológico. Estar em campo 37 vezes não significa ter sido determinante em 37 ocasiões. A Champions League de 2025/2026 tem um calendário expandido — o novo formato com fase de liga aumentou o número de partidas disponíveis, o que naturalmente infla os totais de participação de toda a equipe. Um zagueiro que jogou 37 partidas neste formato pode ter acumulado minutos em jogos de menor tensão competitiva, preservado para decisões ou substituído cedo em partidas já definidas.

Há também a questão da idade. Aos 37 anos, qualquer atleta enfrenta o que o fisiologista Tudor Bompa chamou de "janela de declínio funcional" — não necessariamente de inteligência de jogo, mas de capacidade de recuperação entre partidas. A Atalanta de Gasperini exige alta intensidade física, com pressão alta e transições rápidas que, desde pelo menos a temporada 2018/2019 — quando o clube bergamasco começou a chamar atenção europeia —, são a marca registrada do estilo da casa. Manter esse ritmo aos 37 anos é possível, mas exige gestão de carga que os dados de presença, sozinhos, não revelam.

O que os próximos 12 meses reservam para Arfield depende de uma variável que nenhum número captura: a renovação de contrato. Zagueiros veteranos em clubes de Champions League raramente recebem extensões longas — o mercado europeu, desde os anos 2000, tende a tratar defensores acima dos 35 anos como soluções de curto prazo, não como projetos. A Atalanta, porém, tem histórico de surpreender nesse aspecto. Gasperini já manteve peças que outros técnicos descartariam por critério de idade, priorizando o encaixe tático sobre a lógica de mercado.

É o mesmo cenário que o Milan viveu em 2002 com Costacurta — só que agora a aposta é diferente: não é sobre um clube tentando preservar uma lenda, é sobre um sistema de jogo que ainda precisa de quem saiba exatamente onde ficar antes de a bola chegar.