Diz-se que meias de volume alto de jogos, mas baixa participação direta em gols, são jogadores que estão apenas ocupando espaço na escalação. Na verdade, não estão — e entender por que importa mais do que parece à primeira leitura do relatório de desempenho.

O dado que ninguém olha mas explica tudo

Zé Ricardo completou 34 jogos no Brasileirão Série B de 2026 até aqui. Um gol, duas assistências. À primeira vista, o número de participações diretas em gols é baixo para um meia com 27 anos em pleno período de maturidade técnica.

"DOA A QUEM DOER, DIGAM O QUE DIGAM!" Messi desabafou após a classificação da Argentina #shorts

Mas 34 jogos numa competição de desgaste como a Série B não é acidente. É escolha do treinador.

Para um clube como o Remo, que disputa a segunda divisão nacional com estrutura limitada e pressão constante por acesso, escalar o mesmo jogador 34 vezes numa temporada tem custo de oportunidade real. Significa que José Ricardo Araújo Fernandes — nome completo do meia nascido em 3 de fevereiro de 1999 no Rio de Janeiro — foi considerado insubstituível ou, ao menos, a melhor opção disponível em quase todas as rodadas da competição.

Como ele chega a esse número

A trajetória de Zé Ricardo até Belém tem três momentos que funcionam como inflexões claras de carreira.

O primeiro foi no Tombense, clube mineiro que o revelou ao futebol profissional. Em 2022, o meia disputou 34 jogos na Série B pelo Tombense — o mesmo volume que acumula agora no Remo em 2026 — e registrou dois gols e uma assistência, com nota média de 7,05 na plataforma de dados da temporada. Era um jogador de segunda divisão com consistência acima da média para o patamar.

O segundo momento foi em 2023, quando dividiu a temporada entre Tombense e Goiás. Pelo clube goiano, disputou 13 partidas na Série A — a elite do futebol brasileiro — além de cinco jogos na CONMEBOL Sudamericana, competição continental que exige adaptação tática e intensidade distintas da Série B. A nota média de 7,02 na Série A indica que o salto de nível não o desorganizou.

O terceiro foi a passagem pelo Kawasaki Frontale, em 2024, na J1 League japonesa. Onze jogos. Zero gols, zero assistências. Nota 6,83. Números que, isolados, sugerem dificuldade de adaptação. Mas o contexto é relevante: o Kawasaki Frontale é historicamente um dos clubes mais organizados do Japão, com exigências táticas elevadas e ritmo de jogo diferente do brasileiro. Passar por esse ambiente e retornar ao Brasil não é retrocesso — é dado de currículo que poucos meias da Série B carregam.

Os outros números que falam o mesmo idioma

Zé Ricardo soma, pelas informações disponíveis em seu histórico, ao menos 99 partidas na carreira profissional, com passagens por Campeonato Mineiro, Copa do Brasil, Copa Verde, Série A, Série B, CONMEBOL Sudamericana e J1 League. É um portfólio de competições que poucos jogadores da Série B de 2026 conseguem apresentar.

O recorte comparativo é direto: um meia de 27 anos, 180 cm, 72 kg, com experiência em futebol japonês e continental, disputando a Série B como titular recorrente, representa um ativo de mercado que o Transfermarkt ainda não precifica com destaque — justamente porque os números de participação direta em gols são contidos.

Conforme registrado pelo SportNavo em perfis anteriores da mesma divisão, jogadores com esse perfil de volume de jogos e currículo multidivisional tendem a ter valorização de mercado descolada das estatísticas brutas. O mercado de intermediação no futebol brasileiro sabe disso; os números de gols e assistências são apenas uma camada da análise.

  • Temporada atual (2026): 34 jogos, 1 gol, 2 assistências — Série B
  • Pico de carreira (2022): 34 jogos, 2 gols, 1 assistência — Série B pelo Tombense, nota 7,05
  • Experiência continental: 5 jogos na CONMEBOL Sudamericana em 2023, nota 6,80
  • Experiência no exterior: 11 jogos na J1 League pelo Kawasaki Frontale em 2024

A camisa 55 — número incomum para um meia — é detalhe menor. O que o número de jogos na temporada diz é que Zé Ricardo é o tipo de peça que treinadores usam quando precisam de confiabilidade, não de espetáculo.

O risco de confiar só nesse dado

Há um risco real em usar apenas o volume de jogos como termômetro de valor.

Um gol e duas assistências em 34 partidas de Série B é uma produção ofensiva que, num mercado de transferências criterioso, seria classificada como insuficiente para um meia que precisa justificar luvas ou salário acima da média da divisão. Agentes que trabalham com intermediação no futebol brasileiro sabem que clubes da Série A — destino natural para quem sobe de divisão — exigem métricas de criação mais robustas antes de abrir negociação.

A passagem pelo Kawasaki Frontale, apesar de agregar currículo, não gerou números que facilitam a narrativa comercial do jogador. Zero gols e zero assistências em 11 jogos no Japão é um dado que aparece nos relatórios e precisa ser contextualizado por quem representa Zé Ricardo numa eventual janela de transferências.

Há também a questão da trajetória não-linear. Tombense, Goiás, Japão, Remo: são quatro destinos em quatro anos, o que pode ser lido como versatilidade ou como ausência de proposta sólida de clube de maior porte. No mercado, essa leitura varia conforme o interesse do comprador.

O que Zé Ricardo tem a seu favor é que a Série B de 2026 ainda não terminou. Com 34 jogos já disputados, a temporada segue aberta — e uma sequência de entregas mais expressivas nos jogos restantes pode mudar a conversa de mercado antes do encerramento da competição.

Em dezembro de 2026, quando a Série B fechar e as janelas de janeiro começarem a se movimentar, saberemos se esses 34 jogos foram a construção de algo maior ou apenas o retrato de um jogador ainda em busca do contexto certo para liberar seu melhor desempenho.