O relógio do Maracanã ainda marcava menos de 24 horas desde o apito final quando os jogadores do Flamengo já estavam de volta ao campo de treinamento. O gol de Pedro aos 19 minutos do segundo tempo, na quarta-feira (20), havia selado o 1 a 0 sobre o Estudiantes e garantido a classificação antecipada às oitavas da Libertadores com a liderança do Grupo A — 10 pontos, três a mais que o Independiente Medellín. Mas não havia espaço para celebração prolongada: o calendário de maio não espera por ninguém.

A sequência que Leonardo Jardim precisa administrar

Em 11 dias, o Flamengo disputará quatro partidas no Maracanã, alternando Brasileirão e Libertadores: Palmeiras no sábado (23), Cusco na terça-feira (26) e Coritiba na sexta-feira (30). A lógica do calendário empilhou as competições de forma que o clube terá praticamente 72 horas de intervalo entre cada confronto nos dois primeiros duelos. Na história recente do futebol brasileiro, poucos clubes sustentaram desempenho de alto nível com esse tipo de compressão — o próprio Flamengo, nas campanhas do tetracampeonato brasileiro entre 2019 e 2022, enfrentou maratonas similares, mas raramente com quatro jogos em casa num intervalo tão curto.

O técnico Leonardo Jardim já sinalizou que a rotação será inevitável. O desafio, contudo, vai além de simplesmente trocar peças: trata-se de manter intensidade competitiva em jogos de peso diferente. O clássico contra o Palmeiras, válido pela 17ª rodada, envolve a disputa direta pela liderança do Brasileirão — o Palmeiras chega com 35 pontos, o Fla com 31, e uma vitória rubro-negra reduziria a diferença para apenas um ponto, com um jogo a menos na conta.

Pedro, a comparação com Berbatov e o debate sobre a Copa do Mundo

Na coletiva pós-jogo, Jardim não economizou elogios ao atacante que decidiu a partida. A comparação que o treinador português fez foi reveladora do peso histórico que ele enxerga no centroavante rubro-negro:

"O Pedro é um jogador especial, e acho que no Brasil não há nenhum jogador com as características dele e com o repertório dele em termos técnicos. Tive um jogador que foi o Berbatov, que se associava muito à qualidade que o Pedro tem. Por isso, é uma pena não vê-lo nesta chamada à Seleção", disse Jardim.

A menção a Dimitar Berbatov não é trivial. O búlgaro foi um dos atacantes mais elegantes da Premier League no final dos anos 2000, artilheiro da competição inglesa na temporada 2010/2011 com 20 gols pelo Manchester United. Comparar Pedro a um jogador desse perfil técnico diz mais sobre a percepção que Jardim tem do camisa 9 do que qualquer estatística isolada. O gol contra o Estudiantes foi o tipo de finalização de área que o técnico do Flamengo valoriza: posicionamento, leitura de jogo, eficiência.

A cera do Estudiantes e a queixa que veio do adversário

O jogo em si foi uma aula sobre contraste de intenções. O Estudiantes entrou no Maracanã determinado a impedir que a bola rolasse — e conseguiu por boa parte do primeiro tempo. Segundo o relato do próprio treinador argentino Alexander Medina, o grupo ainda depende do resultado do último jogo para decidir sua classificação. Mas Medina optou por um caminho diferente ao analisar a derrota:

"Não gostei da atuação do árbitro, poderia ter tomado outras decisões. Muitas vezes não se tem um bom dia e creio que ele não esteve bem hoje", declarou o técnico, que ignorou os mais de 60 minutos de jogo travado praticados pela sua equipe.

O árbitro uruguaio Esteban Ostojich, que apitou a partida, virou o bode expiatório de uma estratégia que o próprio placar desmentiu. O Flamengo, mesmo diante do anti-jogo adversário, encontrou o caminho do gol no segundo tempo e administrou o resultado com a solidez de quem já havia garantido sua vaga.

Há também um ruído paralelo que incomoda o ambiente da competição: a Conmebol ainda não definiu o W.O. do jogo entre Flamengo e Independiente Medellín, disputado — ou não disputado — em 7 de maio. Duas semanas depois, a indefinição chegou a irritar o próprio técnico do Estudiantes, que cobrou publicamente uma resolução antes do jogo desta semana. A situação permanece em aberto.

O sábado que pode redesenhar o Brasileirão

Quantos clubes brasileiros conseguiram vencer um clássico direto com menos de 72 horas de recuperação após um jogo de Libertadores?

A pergunta que o SportNavo faz não é retórica por acidente. A resposta histórica é escassa: os exemplos de desempenho pleno nesse intervalo costumam depender exatamente da profundidade do elenco e da capacidade do treinador de identificar quem está apto fisicamente, não quem é titular fixo. Jardim terá de tomar essa decisão nas próximas 48 horas.

O confronto de sábado (23), às 21h, no Maracanã, transmitido pelo Premiere, tem dimensão de final antecipada. Se o Flamengo vencer o Palmeiras e o jogo adiado contra o Mirassol — que a CBF ainda não remarcou — for disputado com vitória rubro-negra, o clube pode assumir a liderança do Brasileirão. Depois disso, virão o Cusco, adversário de menor porte pela Libertadores, e o Coritiba pelo campeonato nacional — janelas para poupar os titulares mais desgastados.

O Flamengo sabe que ganhar as quatro partidas transformaria maio em plataforma de lançamento para o segundo semestre. A questão concreta é: Jardim vai escalar força máxima já no sábado contra o Palmeiras, arriscando o desgaste acumulado, ou vai apostar numa formação alternativa e aceitar a possibilidade de ceder pontos para o líder?