Três coisas: 40 anos de espera, um treinador australiano e um grupo com França e Senegal. Tudo se explica daí.

O México de 1986 e o que ficou na memória iraquiana

A Copa do Mundo de 1986 foi a única referência que o futebol iraquiano teve por quatro décadas. A classificação veio em 1985, com uma vitória por 3 a 1 sobre a Síria nas eliminatórias — resultado que encerrou uma espera que começara em 1973, quando o Iraque disputou sua primeira partida de eliminatórias sem chegar perto de uma vaga.

No México, o cenário foi duro. Comandado pelo brasileiro Evaristo de Macedo, o time perdeu os três jogos da fase de grupos: 1 a 0 para o Paraguai, 2 a 1 para a Bélgica e 1 a 0 para o México, anfitrião do torneio. O único gol iraquiano daquela Copa foi marcado por Ahmed Radhi, contra os belgas — um nome que virou símbolo de uma geração que chegou longe sem ter estrutura para ir além.

O contexto daquela época era de auge regional: o Iraque havia vencido a Copa do Golfo pela primeira vez em 1979, repetido o título em 1984 e conquistado a Copa das Nações Árabes em 1985. Uma sequência que fazia sentido com o que veio depois — mas que o Mundial revelou como insuficiente para o nível global.

"Aquela geração de 1986 jogou com coragem, mas sem referência de como era competir nesse nível. Essa de 2026 tem algo que aquela não tinha: sabe o que é perder e voltou assim mesmo." — comentarista esportivo especializado em futebol asiático

Décadas de instabilidade e o retorno improvável

Entre 1986 e 2026, o futebol iraquiano viveu mais fora dos campos do que dentro. Guerras, sanções internacionais, instabilidade política e colapso de infraestrutura esportiva fizeram o país desaparecer do mapa das Copas por 40 anos. Não foi falta de talento — foi ausência de condição mínima para desenvolver futebol competitivo de forma contínua.

O México de 1986 e o que ficou na memória iraquiana 40 anos depois, o Iraque vol
O México de 1986 e o que ficou na memória iraquiana 40 anos depois, o Iraque vol

A virada começou a tomar forma quando Graham Arnold assumiu o comando da seleção em 2023. O treinador australiano, que havia dirigido a Austrália na Copa do Mundo de 2022, encontrou um grupo com potencial mas sem coesão tática. O trabalho dele foi exatamente construir isso: uma identidade coletiva em um time que mistura jogadores experientes com jovens que nunca tinham vivido um torneio desse porte.

A classificação para 2026 foi descrita por analistas do futebol asiático como um dos feitos mais históricos da AFC nos últimos anos — não pelo nível técnico em si, mas pelo que representou superar décadas de dificuldades estruturais para chegar até aqui.

O que os números dizem sobre os Leões da Mesopotâmia em 2026

Analisar o Iraque pelas métricas modernas revela um time que joga com intensidade defensiva acima da média asiática, mas ainda com limitações na criação ofensiva. Três pontos se destacam:

  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): o Iraque apresentou índices entre 8 e 10 nas eliminatórias asiáticas, o que indica uma pressão moderada — longe do estilo agressivo de times como o Japão (PPDA abaixo de 7), mas consistente o suficiente para não ser dominado em transições.
  • xG (expected goals) por jogo: a média ficou em torno de 1,1 xG por partida nas fases decisivas da classificação. É um número que mostra um time que cria oportunidades reais, mas raramente gera volume de finalizações de alta qualidade.
  • Progressive passes por 90 minutos: o meio-campo iraquiano completou em média 38 passes progressivos por jogo — abaixo de seleções europeias de elite, mas funcional para um sistema que prioriza transição rápida sobre posse elaborada.

O perfil do elenco atual mescla jogadores que atuam em ligas do Golfo com alguns nomes em ligas europeias de segunda e terceira divisão. A falta de experiência em torneios de alto nível é real, mas Arnold construiu uma equipe que entende seus limites e joga dentro deles — algo que a geração de 1986 não teve tempo de aprender.

Noruega, França e Senegal — o Grupo I não perdoa

O Iraque estreia nesta terça-feira (16 de junho) contra a Noruega, às 19h (horário de Brasília), em jogo válido pelo Grupo I da Copa do Mundo. A mesma chave reúne França e Senegal, que jogam horas antes, às 16h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — conforme registrado pelo SportNavo.

A Noruega, com Erling Haaland como referência, representa o adversário mais acessível do grupo no papel — mas ainda assim um time com capacidade ofensiva brutal. A França de Mbappé e Deschamps entra como favorita ao título, enquanto o Senegal aposta na dupla Sadio Mané e Nicolas Jackson para surpreender.

Para o Iraque, o objetivo realista não é avançar de fase — é mostrar que 40 anos depois, os Leões da Mesopotâmia voltaram com outra maturidade. Uma vitória ou empate contra a Noruega já seria resultado histórico para um país que, em sua única Copa anterior, não somou um único ponto. O próximo jogo do Iraque no Grupo I está programado para a segunda rodada, com data ainda a ser confirmada pela FIFA.