Confesso: eu errei sobre o Botafogo desta temporada. Quando Franclim Carvalho assumiu o comando, escrevi que o maior risco do time seria a passividade ofensiva — pouco volume, poucas chegadas, dependência excessiva de lances individuais. O que vimos na quarta-feira (20), em Assunção, foi o oposto: 41 finalizações contra o Independiente Petrolero, mais do que qualquer time brasileiro produziu em um único jogo de Copa Sul-Americana nesta edição. O problema não é criar. O problema é converter. E esse, sim, é um erro que precisei reconhecer.
O que Franclim disse depois dos 41 chutes no Paraguai
O técnico português saiu do estádio Defensores del Chaco sem disfarçar a insatisfação, mesmo com o placar de 3 a 0 consolidado. Franclim Carvalho foi direto ao ponto na entrevista pós-jogo, sem poupar o próprio elenco.
"Com este volume ofensivo, não podemos fazer só três gols. Claro que o adversário também joga e tem mérito. Mas nós temos que ter mais eficácia e mais qualidade na frente no momento de finalizar. Não tivemos. Tivemos três gols. Tínhamos a obrigação de, pelo que criamos, fazer mais. Como eu disse, eu fico chateado. Mas os jogadores também. Eles são os primeiros a querer fazer gol", declarou o treinador de Miranda do Corvo.
A fala revela algo além da frustração pontual: Franclim reconhece que o padrão de criação do Botafogo já está consolidado, mas a conversão ainda não acompanha. Três gols em 41 tentativas representam um aproveitamento de 7,3% — índice que, para efeito de comparação, é inferior ao registrado por qualquer time classificado às oitavas da Copa Libertadores nesta mesma rodada de jogos sul-americanos. Times que chegam às fases eliminatórias com médias acima de 12% de conversão costumam ter margem para errar contra adversários mais qualificados. O Botafogo, por enquanto, não tem essa margem.

O treinador também detalhou a dinâmica tática no corredor direito, explicando as trocas de posição entre Villalba e Cabral durante a partida. Segundo apuração do SportNavo, a flexibilidade posicional foi deliberada e planejada para explorar diferentes perfis defensivos do Petrolero ao longo dos 90 minutos.
"A questão do lado direito tem a ver com as características. O Villa é um jogador mais de ataque à profundidade. O Cabral tem mais conforto no apoio. Dependendo do adversário e do espaço que o adversário nos dá, tentamos encontrar formas de ligar diferentes. Eles têm essa liberdade para fazer contra-movimentos", explicou Franclim.
O que os números do Grupo E revelam sobre a eficiência do Glorioso
O Botafogo encerrou a fase de grupos do Grupo E da Copa Sul-Americana na liderança, com classificação já garantida antes da rodada 5. A vitória sobre o Petrolero foi a mais volumosa em termos de finalizações, mas não foi a única em que o aproveitamento ficou abaixo do esperado. Nas cinco rodadas disputadas, o time carioca acumulou uma média superior a 18 finalizações por jogo — volume que, em tese, deveria produzir ao menos seis gols por partida, considerando os padrões médios de conversão do futebol sul-americano em fase de grupos.
A realidade ficou aquém: o Glorioso marcou 11 gols em cinco jogos, média de 2,2 por partida. Para dimensionar o problema, o Fluminense, eliminado precocemente da Libertadores nesta temporada, teve aproveitamento de finalizações superior ao do Botafogo nas primeiras quatro rodadas da fase de grupos — mesmo com desempenho coletivo considerado decepcionante pela torcida tricolor.
O padrão de jogo que Franclim construiu favorece a posse longa, a circulação lateral e a criação de espaços por acumulação. Isso explica o alto volume de finalizações — muitas delas de fora da área ou em ângulos fechados, fruto de jogadas que não encontraram o último passe ideal. A questão que o técnico precisa resolver antes das oitavas de final é qualitativa, não quantitativa: onde e como os atacantes estão finalizando, e não quantas vezes.
O que muda com a classificação direta e o cenário nas oitavas
A liderança do Grupo E garante ao Botafogo a entrada direta nas oitavas de final da Copa Sul-Americana, sem passar pelos playoffs contra terceiros colocados da Libertadores — fase que consome duas datas do calendário e impõe desgaste físico adicional. Para isso se concretizar, o Caracas precisaria não vencer o Racing, em Avellaneda, na quinta-feira (21), em jogo sem público na Argentina.
O cenário favorável na tabela, porém, não elimina a urgência tática. Nas oitavas, os adversários terão nível técnico significativamente superior ao do Petrolero — time que terminou a fase de grupos sem vencer nenhuma partida. Contra defesas mais organizadas e linhas mais compactas, um aproveitamento de 7,3% nas finalizações pode custar a eliminação do clube.

Antes disso, o Botafogo ainda tem um compromisso pela rodada 6: visita o Caracas na próxima semana para encerrar a fase de grupos. A partida, mesmo sem valor classificatório para o Glorioso, serve como laboratório para Franclim Carvalho testar soluções para o problema que ele mesmo admitiu publicamente. O técnico tem sete dias para trabalhar a eficácia — e um aproveitamento de 7,3% para superar.









