Todo mundo sabe que Kylian Mbappé chegou ao Real Madrid como a contratação do século. O que ninguém viu chegando foi a petição com 21 milhões de assinaturas pedindo sua saída enquanto ele ainda lidera a artilharia da Champions League. Quarenta e um gols em 41 jogos. Mesmo assim, a torcida merengue quer a porta aberta para ele ir embora.

O que os números escondem sobre Mbappé nesta temporada

Veja-se isto: na superfície, a temporada de Mbappé é estatisticamente impecável. Quarenta e um gols em 41 jogos colocam-no na conversa pela Bola de Ouro e na liderança da La Liga e da Champions em gols marcados. Mas a análise de xG (expected goals — a quantidade de gols que a qualidade das chances geradas deveria produzir) revela um padrão preocupante: boa parte dos gols do francês vem de finalizações de alta probabilidade, enquanto sua participação na construção de jogo, medida por xA (expected assists — o valor esperado das chances criadas para companheiros), fica significativamente abaixo do que se esperaria de um camisa 10 no sistema de Arbeloa.

  • xG por 90 minutos: Mbappé converte bem suas chances, mas depende de receber a bola em posições já favoráveis
  • Progressive passes por 90: o número de passes progressivos — aqueles que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário — coloca o francês abaixo de Vini Jr. e Bellingham na mesma métrica, o que indica menor participação na progressão coletiva
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): nas partidas em que Mbappé atua, o Real apresenta PPDA mais alto fora de casa, sugerindo que a equipe pressiona menos quando ele está em campo — o francês recupera pouquíssimas bolas no campo adversário

Em outras palavras, Mbappé marca, mas o Real Madrid não joga melhor com ele em campo. A eliminação por 4 a 3 para o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions foi o espelho mais cruel dessa contradição: ele balançou a rede, mas não foi suficiente para segurar a queda.

A viagem à Sardenha e o estopim que ninguém precisava

Depois da derrota para o Bayern, o ambiente no Bernabéu já estava tenso. O Real havia sido eliminado da Copa del Rey antes mesmo das fases finais e, no Campeonato Espanhol, o Barcelona mantinha distância confortável na liderança — distância que não se fechou até agora. A perspectiva de ficar sem títulos pela segunda temporada consecutiva jogou a torcida contra o elenco inteiro, que também recebeu cobranças diretas do presidente Florentino Pérez.

O que os números escondem sobre Mbappé nesta temporada 41 gols e 21 milhões pedi
O que os números escondem sobre Mbappé nesta temporada 41 gols e 21 milhões pedi

No jogo seguinte à eliminação europeia, a vitória sobre o Alavés chegou com Mbappé e Vini Jr. marcando, mas as comemorações foram discretas. O próprio Vini pediu desculpas à torcida após o gol — um gesto que traduz melhor do que qualquer declaração o clima que pairava no vestiário.

Aí veio o detalhe que transformou insatisfação em revolta. Enquanto se recuperava de lesão no músculo semitendinoso da perna esquerda, Mbappé viajou com a namorada, a atriz espanhola Ester Expósito, para Cagliari, na Itália, no fim de semana de 3 de maio — dia em que o Real enfrentava o Espanyol e vencia por 2 a 0 sem ele. A viagem tinha aval do departamento médico. O técnico Álvaro Arbeloa foi direto ao ponto quando questionado:

"Cada jogador faz o que considera oportuno em seu tempo livre. Não é assunto meu."

A torcida não aceitou a explicação. A petição batizou-se de "Mbappé Out" e o texto é curto e preciso: "Madridistas, façam sua voz ser ouvida." Vinte e um milhões de assinaturas depois, o recado foi ouvido em toda a Europa.

O clássico de domingo como veredito institucional para Mbappé

A crise de Mbappé no Real Madrid tem a forma de um temporal que chegou sem trovão — silencioso na construção, devastador no impacto. Os sinais táticos estavam nos dados desde o início da temporada; o que faltava era um catalisador emocional. A viagem à Sardenha foi esse catalisador.

A questão agora não é só de torcida. Com o clube ameaçado de encerrar 2025/2026 sem nenhum título — situação que não ocorria há mais de uma década no Bernabéu — a diretoria precisa decidir se Mbappé é parte do problema ou parte da solução. Florentino já cobrou o elenco publicamente, e contratos bilionários raramente sobrevivem a dois anos seguidos de troféu zero.

Mbappé está disponível para o clássico contra o Barcelona no domingo, dia 10 de maio. Uma atuação decisiva não apagará 21 milhões de assinaturas, mas pode reabrir a negociação com a torcida — e, mais importante, com a própria diretoria do clube.