Falhou. Não o sistema cirúrgico, não a equipe médica, não a compatibilidade sanguínea — mas a conversa que nunca aconteceu dentro de casa. No Brasil de 2025, com mais de 82,7 mil pacientes cadastrados na fila de espera por um órgão, o maior obstáculo ao transplante não está nos hospitais: está na sala de estar. Quarenta e cinco por cento das famílias brasileiras recusam a doação quando abordadas pelas equipes hospitalares, índice que supera amplamente a média dos países desenvolvidos e que, traduzido em vidas, representa uma tragédia silenciosa e evitável.

Uma fila que cresce mais rápido do que o sistema consegue atender

O Brasil encerrou 2023 com o maior número de doações de órgãos da última década — crescimento de 17% em relação ao ano anterior, com mais de 6.766 transplantes registrados entre janeiro e setembro. O sistema público de saúde concentra 86% de todos os procedimentos realizados no país, ficando atrás apenas dos Estados Unidos em números absolutos. O SUS transplanta mais do que qualquer outro sistema público no mundo. Apesar disso, a fila cresce. Em 2024, apenas cerca de 27% das notificações de potenciais doadores se converteram em doações efetivas — pouco mais de uma em cada quatro abordagens.

A desigualdade regional aprofunda o problema. Dois estados — Amapá e Roraima — sequer realizam transplantes até o momento. A infraestrutura hospitalar especializada é concentrada no Sudeste e Sul, o que significa que mesmo quando a família diz sim, a janela biológica para aproveitamento dos órgãos pode ser perdida por razões logísticas. A recusa familiar, porém, continua sendo o principal gargalo. E ela não é aleatória: tem endereço cultural, tem história, tem crença.

Pollyana Guedes, dona de casa de São Paulo, viveu os dois lados dessa equação. Sua filha Pietra, aos 4 anos, tornou-se o caso mais jovem do país a receber um transplante de pulmão.

"Eu ouvi muito: 'pra sua filha viver, alguém teve que morrer?' Isso é falta de informação. Uma família, mesmo na dor, disse sim. E esse 'sim' salvou a vida da minha filha."
O relato condensa o que pesquisadores e gestores de saúde vêm tentando traduzir em política pública há décadas: a recusa não nasce de má-fé, mas de um vácuo de informação preenchido por medo, crença e luto mal acolhido.

O que está por trás do não — crenças, medo e silêncio familiar

A psicóloga e professora do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF), Marilei de Melo Tavares e Souza, aponta que o transplante no Brasil opera desde 1997 como programa nacional, mas a cultura de doação ainda não acompanhou a evolução técnica dos procedimentos. O desconhecimento sobre o conceito de morte encefálica — condição clínica que habilita a doação de órgãos de doadores cadáveres — alimenta o medo de mutilação e a desconfiança de que o diagnóstico possa ser precipitado para favorecer outro paciente.

Esse medo — irracional do ponto de vista médico, mas absolutamente compreensível do ponto de vista antropológico — se mistura com convicções religiosas que associam integridade corporal à ressurreição ou à passagem espiritual. Não existe, entre as principais religiões praticadas no Brasil, uma proibição formal à doação de órgãos. Mas a interpretação popular de doutrinas evangélicas, espíritas e afro-brasileiras frequentemente constrói barreiras simbólicas que nenhuma campanha de TV desfaz em trinta segundos. A conversa precisa acontecer antes da morte, dentro de casa, entre pessoas que se amam — e ela raramente acontece.

A Lei nº 14.722, sancionada em novembro de 2023, reconheceu essa lacuna ao instituir a Política Nacional de Conscientização e Incentivo à Doação e ao Transplante de Órgãos e Tecidos. Entre as medidas previstas, a criação de uma semana temática no calendário escolar, em setembro, e o investimento em formação continuada para profissionais da saúde e da educação. A lógica é estrutural — não adianta mobilizar famílias no momento do luto se elas nunca foram expostas ao tema antes.

O modelo fluminense e o que ele revela sobre gestão do luto

O Rio de Janeiro — estado que concentra algumas das maiores desigualdades sociais do país e, ao mesmo tempo, uma das redes hospitalares mais densas — chegou a 67% de autorização familiar em 2025, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes divulgado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). O índice coloca o estado empatado com o Paraná e atrás apenas de Santa Catarina, que registrou 68%. A média nacional é de 55%. A taxa de doadores efetivos no Rio chegou a 22,4 por milhão de habitantes, contra 20,3 da média brasileira.

O secretário estadual de Saúde, Ronaldo Damião, atribui o resultado a uma estratégia sistêmica:

"A doação de órgãos simboliza a continuidade da vida, e por isso temos trabalhado para ampliar os transplantes. Temos tecnologias de ponta e profissionais preparados para acolher as famílias enlutadas. Também fortalecemos as Organizações de Procura de Órgãos que atuam em todo o estado e as UTIs onde estão os potenciais doadores."

O Rio conta hoje com mais de cem Comissões Intra-hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) — equipes treinadas para conduzir conversas sensíveis com técnicas de escuta ativa, iniciando o contato com familiares antes mesmo do diagnóstico formal de morte encefálica. Esse detalhe operacional não é trivial: abordar a família no momento do diagnóstico, sem preparação prévia, tende a gerar recusa reflexiva. Abordar antes, com informação e acolhimento, muda o campo emocional da decisão.

Alan Melquíades, diretor do RJ Transplantes, reforça que a decisão familiar é soberana — e que isso exige responsabilidade de todos:

"A decisão da família é soberana quanto à doação de órgãos. Por isso, é fundamental comunicar aos familiares o desejo de ser doador. Temos trabalhado com campanhas educativas e divulgação de exemplos positivos para ampliar a conscientização sobre a importância dos transplantes."
O modelo fluminense — replicado a partir de experiências bem-sucedidas no Sul do país — demonstra que o problema da recusa não é intratável. É, antes, um problema de mediação cultural que exige tempo, equipe qualificada e presença institucional antes da crise.

O Brasil tem os instrumentos legais, a estrutura hospitalar e o histórico de meio milhão de transplantes em 25 anos para avançar. O próximo teste concreto virá com a avaliação dos dados do Registro Brasileiro de Transplantes referente ao primeiro semestre de 2026, prevista para divulgação em setembro de 2026, quando o país também celebra o Dia Nacional de Incentivo à Doação de Órgãos — e quando saberemos se a Lei 14.722 começou, de fato, a mover a agulha do índice de recusa.