Não foi a CazéTV que fragmentou a transmissão da Copa do Mundo no Brasil. A fragmentação começou muito antes, em silêncio, edição por edição, e o canal de Casimiro Miguel é apenas o ponto de chegada de um processo que se iniciou em 2002, quando a Globo consolidou o monopólio das transmissões abertas e empurrou os jogos simultâneos para a TV paga. O que muda em 2026 é que, pela primeira vez em mais de meio século de Copa do Mundo no Brasil, aproximadamente 50 partidas — incluindo estreias de Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal — só poderão ser vistas por quem tiver acesso a internet e disposição para navegar por uma plataforma de streaming.

De 1970 a 1998, quando a TV aberta era dona da Copa

Entre 1970 e 1998, a lógica era simples: ligar a televisão e escolher o canal. A Copa do México de 1970, primeira transmitida ao vivo para o Brasil via satélite, chegou aos lares brasileiros pela TV Globo com a narração de Fiori Gigliotti. Quatro anos depois, na Alemanha Ocidental, a diferença de fuso horário de quatro horas não impediu que milhões acompanhassem o tetracampeonato com Rivelino, Jairzinho e Pelé na memória recente. Nas edições de 1982 (Espanha), 1986 (México) e 1990 (Itália), o modelo se repetiu com pequenas variações de emissoras, mas sempre com TV aberta como protagonista absoluta.

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O ápice desse modelo coletivo foi a Copa do Mundo de 1998, na França. Naquele torneio, cinco emissoras abertas transmitiam os jogos simultaneamente: TV Globo, Band, SBT, Record e a extinta Manchete. Um torcedor em Caxias do Sul podia ligar em qualquer canal e encontrar Ronaldo, Romário ou Bebeto. A diferença de imagem entre emissoras era de frações de segundo — imperceptível. Era a Copa como fenômeno verdadeiramente nacional, onde o gol de Ronaldo contra a Holanda nas semifinais parou o país inteiro no mesmo instante.

A partir de 2002, esse modelo começou a se desfazer. A Globo assumiu controle quase total dos direitos de transmissão aberta, dividindo apenas com a Band nas edições de 2010 (África do Sul) e 2014 (Brasil). Os jogos simultâneos da última rodada da fase de grupos — impossíveis de transmitir em canal único — migraram para ESPN e SporTV, que, com seus múltiplos canais pagos, conseguiam exibir as duas partidas ao mesmo tempo. Quem tinha antena comum e nada mais perdia aquela rodada ou ficava dependente da escolha editorial da Globo.

Como a CazéTV chegou a 104 jogos enquanto a Globo ficou com uma fatia

A licitação dos direitos de transmissão para 2026 consolidou uma inversão histórica. A LiveMode, empresa por trás da CazéTV, garantiu os direitos de todos os 104 jogos do torneio — o primeiro com 48 seleções e formato expandido —, tornando-se a única plataforma com cobertura integral ao vivo. A Globo e o SBT negociaram fatias menores, cobrindo os jogos do Brasil e algumas partidas de maior audiência projetada, mas deixando de fora exatamente aquelas estreias que historicamente mobilizavam o torcedor: Argentina x adversário na fase de grupos, Alemanha abrindo campanha, Portugal com Cristiano Ronaldo.

Segundo análises do portal Trivela, que acompanha o setor de transmissões esportivas no Brasil há anos, houve melhora sensível no delay do streaming nos últimos quatro anos, chegando a níveis próximos — mas ainda não idênticos — aos da TV aberta. O atraso, que em 2022 chegava a 40 ou 50 segundos em relação ao sinal aberto, caiu para algo entre 10 e 20 segundos nas transmissões mais otimizadas. Para quem mora em condomínio ou tem vizinhos com antena, a diferença ainda é suficiente para ouvir o grito de gol antes de ver o chute.

"A CazéTV é a única opção em praticamente 50 jogos", registrou o colunista do Trivela, que vem acompanhando os esforços de LiveMode e Globo para reduzir o delay nas transmissões há anos — e reconhece a melhora, sem esconder que o problema persiste.

Há um dado que resume bem a mudança de paradigma: em 2014, quando o Brasil sediou a Copa, qualquer torcedor com televisão e antena assistiu a todos os jogos da Seleção em TV aberta, de graça, com qualidade de sinal garantida pela proximidade geográfica das transmissões. Em 2026, quem quiser ver as estreias de Argentina e Espanha precisará de conexão de internet estável, conta em plataforma digital e, dependendo da qualidade do provedor, aceitará um delay que pode custar a emoção coletiva do gol em tempo real.

O torcedor diante da Copa mais individualizada da história

Quem não tem cão caça com gato — e o torcedor brasileiro de 2026, sem a TV aberta unificada de outros tempos, vai caçar a Copa onde conseguir. Mas o custo dessa adaptação não é apenas técnico; é sociológico. A transmissão unificada em TV aberta criava o que sociólogos da comunicação chamam de "experiência simultânea de massa": o gol de Bebeto em 1994, o pênalti de Baggio, o choro de Ronaldo na véspera da final de 1998 — tudo vivido ao mesmo tempo por dezenas de milhões de pessoas, com o mesmo delay zero, no mesmo canal.

O streaming individualiza essa experiência. Cada torcedor assiste no celular, no notebook ou na SmartTV com seu próprio delay, sua própria qualidade de conexão, sua própria plataforma. Quem tem Globo Play assiste em um app; quem prefere a CazéTV vai ao YouTube; quem tem SBT no pacote de TV a cabo acessa por ali. O resultado é que, pela primeira vez, dois amigos no mesmo bar podem estar vendo o mesmo jogo com 15 segundos de diferença entre si — e o gol que um comemora ainda não aconteceu na tela do outro.

Há precedente para esse tipo de ruptura na história das transmissões esportivas brasileiras. Em 2021, quando a Conmebol migrou os direitos da Copa Libertadores para o streaming do DAZN e depois para o Amazon Prime Video, milhões de torcedores que acompanhavam Flamengo e Palmeiras em TV aberta se viram obrigados a contratar novos serviços ou assistir por streams não oficiais. O movimento gerou reclamações massivas, mas também acelerou a adoção de plataformas digitais entre faixas etárias acima dos 45 anos, que historicamente resistiam ao streaming.

"Havia um pequeno delay, o famoso atraso de segundos, entre quem via o jogo pelo sinal da antena comum VHF e quem via na TV por assinatura", lembrou o colunista do Trivela — mas o que se vivia em 2002 era incomparavelmente menor do que o abismo atual entre plataformas.

A questão do acesso também não pode ser ignorada. Segundo dados do IBGE referentes a 2023, cerca de 40 milhões de brasileiros ainda não têm acesso regular à internet de banda larga em casa. Para essa parcela da população, a Copa de 2026 dependerá integralmente do que Globo e SBT decidirem transmitir em sinal aberto — ou seja, os jogos do Brasil e pouco mais. As estreias de Argentina e Alemanha, que em 1998 estavam em cinco canais abertos ao mesmo tempo, simplesmente não existirão para esse público.

É o mesmo cenário que o torcedor brasileiro viveu em 2021, quando a Libertadores saiu da TV aberta de vez — só que agora a aposta é diferente, porque o torneio em jogo é a Copa do Mundo, e o buraco deixado pela fragmentação é grande demais para ser tapado com um aplicativo.