Um leilão de arte em Christie's com chuteiras na parede. É assim que a Copa do Mundo de 2026 se apresenta ao torcedor comum que tentou comprar um ingresso nos últimos meses — e essa imagem não é hipérbole: a Fifa recebeu 500 milhões de solicitações para um torneio que, mesmo expandido para 48 seleções e 104 partidas, comporta uma fração ínfima desse universo de demandantes.

A avalanche que Infantino usou como escudo em Los Angeles

Na Conferência Global do Milken Institute, realizada em Los Angeles, Gianni Infantino não recuou um centímetro diante das críticas crescentes à política de preços da entidade. Com a segurança de quem tem os números do lado, o presidente da Fifa expôs o argumento central de sua defesa: diante de 500 milhões de pedidos de ingressos, qualquer valor praticado pela organização — por mais elevado que seja — encontra comprador. O mercado secundário tratou de confirmar sua tese de forma brutal: bilhetes para a final de 19 de julho, no MetLife Stadium em Nova Jersey, foram revendidos por mais de 2 milhões de dólares em plataformas não oficiais.

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"Se alguém realmente comprar um ingresso por esse valor, eu mesmo faço a entrega de um cachorro-quente e uma Coca-Cola para garantir uma experiência diferenciada", disse Infantino, em tom de brincadeira, durante o evento em Los Angeles.

A piada revelou mais do que pretendia. Quando o presidente de uma federação esportiva global consegue transformar um ingresso de 2 milhões de dólares em anedota, o distanciamento entre a instituição e o torcedor médio deixou de ser uma percepção para se tornar política declarada.

Da final no Catar a Nova Jersey — a escalada em números concretos

Para entender a magnitude da ruptura, basta comparar as duas edições mais recentes. Na Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar, os ingressos para a final em Doha eram comercializados pela Fifa em faixas que iam de US$ 206 a US$ 1.607. Em 2026, a tabela oficial para a decisão parte de US$ 2.030 e chega a US$ 6.370 — um aumento de quase 300% na entrada mais barata da partida mais importante do futebol mundial. Trata-se de uma escalada que não encontra paralelo em nenhuma Copa anterior, nem mesmo nas edições americanas de 1994, quando o torneio bateu recordes de público com médias superiores a 68 mil espectadores por jogo.

A Fifa, que tem no Mundial sua principal fonte de receita — o torneio de 2022 gerou aproximadamente 7,5 bilhões de dólares —, justifica a elevação argumentando que opera no mercado de entretenimento mais desenvolvido do planeta. Infantino citou explicitamente o padrão americano de precificação de eventos como referência legítima para os valores praticados. A organização Football Supporters Europe (FSE) discordou com ação judicial: classificou a política como extorsiva e moveu processo contra a Fifa na Comissão Europeia. Parlamentares norte-americanos também se manifestaram publicamente contra os preços, uma pressão política incomum sobre a entidade que raramente enfrenta resistência organizada nos países-sede.

A estrutura de preços da Fifa para 2026 lembra uma corrente de ar quente subindo por um corredor estreito — invisível a quem está do lado de fora, sufocante para quem está dentro. A entidade oferece um número limitado de ingressos a US$ 60 nos setores superiores dos estádios, e garante que 25% das entradas para a fase de grupos custam menos de US$ 300. O que não diz é que esses ingressos mais acessíveis desaparecem em minutos diante de 500 milhões de demandantes simultâneos, enquanto o mercado secundário oficial — no qual a Fifa cobra comissão de 15% tanto do comprador quanto do vendedor — absorve a liquidez restante com elegância institucional.

O torcedor brasileiro entre a conta e o campo

Para o brasileiro que planejava acompanhar a Seleção nos Estados Unidos, os números produzem um exercício doloroso. Considerando apenas o ingresso oficial mais barato para a fase de grupos — cerca de US$ 100 nas categorias populares —, um pacote realista com passagem aérea, hospedagem e alimentação para assistir a três partidas do Brasil ultrapassa facilmente R$ 40 mil, dado que o SportNavo mapeou ao longo dos últimos meses acompanhando a evolução das tarifas aéreas e hoteleiras nas cidades-sede. Cidades como Nova York, Los Angeles e Dallas registram diárias médias 40% acima do normal durante as semanas do torneio.

Historicamente, o Brasil sempre teve presença maciça de torcedores nas Copas realizadas no continente americano. Em 1994, nos EUA, a Seleção de Parreira — com Taffarel, Aldair, Mazinho, Mauro Silva, Branco, Cafu, Marcio Santos, Leonardo, Mazinho, Mauro Silva, Bebeto e Romário — foi acompanhada de perto por dezenas de milhares de brasileiros que cruzaram a fronteira de carro ou ônibus saindo do Brasil via comunidades latinas nos EUA. Em 2026, a logística é a mesma, mas a barreira financeira cresceu em proporção geométrica.

"A política de preços da Fifa é extorsiva e precisa ser investigada pelas autoridades competentes", afirmou a Football Supporters Europe em nota oficial que embasou a ação movida contra a entidade na Comissão Europeia.

A Copa de 2026 começa oficialmente em 11 de junho, com a fase de grupos distribuída entre 16 cidades dos três países-sede. O Brasil estreia no torneio com a expectativa de disputar o hexacampeonato 24 anos após o penta conquistado em Yokohama — e a final de 19 de julho em Nova Jersey já tem ingressos no mercado secundário que custam mais do que um apartamento em várias capitais brasileiras. A demanda existe, os 500 milhões de pedidos provam. A questão que permanece aberta não é econômica — é moral. Infantino respondeu com uma piada sobre cachorro-quente — faltou alguém na plateia perguntar quantos desses 500 milhões de torcedores poderiam, de fato, pagar a conta.

A Copa do Mundo chega ao mês mais quente do verão americano com ingressos que nenhum trabalhador de salário médio consegue comprar — está vendida para quem pode pagar — falta saber se a Fifa ainda se lembra de quem inventou o jogo.