A delegação já estava de malas prontas quando o surto se tornou grande demais para ignorar. Todos os integrantes da seleção da República Democrática do Congo precisaram deixar Kinshasa até o dia 20 de maio de 2026 — prazo imposto pela quarentena de 21 dias exigida pelos três países-sede da Copa do Mundo. Cinquenta e dois anos de ausência de um Mundial e a estreia estava, de repente, cercada por protocolos sanitários de emergência.

O que o retorno do Congo ao Mundial significa em números históricos

Para compreender o peso desse momento, é preciso voltar a 1974. Naquele ano, o país ainda se chamava Zaire e disputou sua única Copa do Mundo, na Alemanha Ocidental, com resultados que entraram para a história pelo lado mais doloroso: três derrotas, 14 gols sofridos e nenhum marcado. A derrota mais emblemática foi o 9 a 0 para a Iugoslávia, em 22 de junho de 1974, em Gelsenkirchen. Desde então, 52 anos de eliminatórias sem classificação — até que a campanha nas qualificatórias africanas para 2026 encerrou esse jejum. Nenhuma outra seleção africana esperou tanto tempo entre duas participações consecutivas em Copas.

O grupo K reservou ao Congo estreia contra Portugal, em solo norte-americano, no dia 11 de junho. O segundo jogo é contra a Colômbia, em 23 de junho, no México. Apenas em caso de classificação como segundo colocado do grupo, o time jogaria no Canadá, em 2 de julho — justamente o país que proibiu a entrada de residentes congoleses até agosto de 2026.

Como o Ebola desestruturou o planejamento da comissão técnica

O surto, declarado no início de maio de 2026, atingiu em cheio o cronograma de preparação. A primeira fase previa três dias de concentração em Kinshasa, com atividades junto à torcida local — momento simbólico para um país que não vivia essa experiência desde a geração de 1974. A etapa foi cancelada. Membros da comissão técnica que residiam na região tiveram de antecipar a saída do país para não comprometer a participação no torneio.

A federação congolesa reagiu com rapidez. Em reunião realizada no penúltimo fim de semana de maio, representantes da entidade e da Fifa confirmaram que toda a delegação havia deixado o território até o dia 20 de maio — o que garante, matematicamente, o cumprimento da quarentena de 21 dias e libera a chegada aos Estados Unidos em 11 de junho. Os dois amistosos preparatórios foram mantidos: no dia 3 de junho, contra a Dinamarca, em Liège, na Bélgica; e no dia 9, contra o Chile, em solo espanhol.

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O que o retorno do Congo ao Mundial significa em números históricos 52 anos de e
"A Fifa está ciente e monitorando a situação relacionada a um surto de Ebola e está em estreita comunicação com a Associação de Futebol da RD Congo para garantir que a equipe esteja ciente de todas as orientações médicas e de segurança. A Fifa continua trabalhando com os governos dos três países anfitriões da Copa do Mundo para garantir um torneio seguro e protegido, já que a saúde de todos os envolvidos continua sendo prioridade da Fifa."

O comunicado oficial da entidade, reproduzido em reportagem publicada pelo SportNavo, confirma o monitoramento ativo — mas não detalha protocolos específicos para a delegação africana além das orientações gerais de saúde.

Os torcedores congoleses que podem não ver a história ser feita

Se para os jogadores o impacto é logístico e contornável, para os torcedores a situação é mais cruel. Quem adquiriu ingresso para a estreia contra Portugal precisava ter deixado o Congo até o dia 27 de maio — prazo que, para muitos, chegou antes que a gravidade do surto fosse completamente dimensionada. Para o jogo contra a Colômbia, em 23 de junho no México, a data-limite de saída era 2 de junho.

O Canadá representa o cenário mais severo: residentes congoleses estão proibidos de entrar no país até agosto de 2026. Caso o Congo avance como segundo do grupo K, o jogo da terceira fase seria justamente em território canadense. Torcedores que residem em Kinshasa ou em outras cidades congolesas simplesmente não teriam como comparecer — independentemente de terem ingresso em mãos.

A comparação histórica torna o quadro ainda mais agudo. Em 1974, a delegação do Zaire viajou para a Alemanha Ocidental em meio a pressões políticas do regime de Mobutu Sese Seko, que ameaçou cortar os salários dos jogadores caso sofressem mais de três gols no jogo contra o Brasil — partida que terminou em 3 a 0. Meio século depois, a seleção enfrenta uma barreira diferente, biológica, mas igualmente externa ao futebol.

Os amistosos de preparação contra Dinamarca e Chile, ambos em solo europeu, servirão como termômetro real das condições do elenco. A estreia contra Portugal está marcada para 11 de junho, 21 dias exatos após o prazo de saída da delegação do território congolês.