1974. Era o nome Zaire estampado na camisa quando a República Democrática do Congo pisou pela última vez num campo de Copa do Mundo. Cinquenta e dois anos depois, os Léopards voltam — e o caminho até aqui foi tão dramático quanto a espera foi longa. A classificação veio pela repescagem africana, com eliminação de Copa do Mundo de dois gigantes do continente: primeiro Camarões, depois a Nigéria, vencida nos pênaltis após empate por 1 a 1. Não foi sorte. Foi sangue frio.
O calor da repescagem africana e o dia em que Camarões caiu
A semifinal contra Camarões não era um jogo qualquer. Os Leões Indomáveis carregam sete Copas do Mundo no currículo e uma reputação construída em décadas de futebol africano de alto nível. A RD Congo entrou em campo sabendo que eliminar Camarões seria o primeiro sinal de que esta geração é diferente. E foi. A vitória na semifinal abriu a porta para a decisão mais tensa da campanha congolesa.

A final contra a Nigéria foi o tipo de jogo que envelhece quem assiste. Empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, nervos à flor da pele, e então os pênaltis — aquele ritual de crueldade coletiva que o futebol africano conhece bem. O que para o argentino é o abraço após o gol de Maradona, para o nigeriano é a memória de uma disputa de pênaltis perdida: dói diferente, mas dói igual. Os congoleses converteram quando precisavam. A Nigéria, não.
"Nos Léopards prontos para escrever mais um capítulo da história, 52 anos depois", publicou a federação congolesa nas redes sociais logo após a classificação — uma frase curta que carregava décadas de silêncio.
O técnico Sébastien Desabre e os nomes que assustam qualquer grupo
O técnico Sébastien Desabre definiu uma convocação de 26 jogadores que mistura experiência europeia com qualidade técnica acima da média para uma seleção africana. Aaron Wan-Bissaka, lateral formado no Manchester United com passagem pela Premier League inglesa, é um dos pilares defensivos. No meio e no ataque, Gaël Kakuta, Théo Bongonda, Cédric Bakambu e Yoane Wissa formam um quarteto que qualquer treinador europeu gostaria de ter à disposição.
Wissa, em especial, vem de uma temporada sólida pelo Brentford na Premier League e chega à Copa como o nome mais quente do grupo. Bakambu, veterano com passagens por Villarreal e clubes chineses, traz a experiência que uma estreia em Copa exige. Na avaliação do SportNavo, este é o elenco mais competitivo que a RD Congo já montou para um torneio desta magnitude.
O Grupo K e o encontro com Portugal em Houston
O sorteio colocou a RD Congo no Grupo K ao lado de Portugal, Colômbia e Uzbequistão. A estreia será no dia 17 de junho, em Houston, contra os portugueses de Cristiano Ronaldo — um batismo de fogo que poucos selecionados teriam coragem de pedir. Portugal é uma das favoritas ao título; a Colômbia vem de uma Copa América 2024 onde chegou à final; o Uzbequistão é a incógnita do grupo.
Segundo o técnico Desabre, a preparação da equipe foca em intensidade física e transições rápidas — exatamente o estilo que pode incomodar seleções acostumadas a controlar a posse de bola.
Passar da fase de grupos será difícil. Mas a RD Congo não chegou até aqui para ser figurante. A campanha na repescagem africana provou que este grupo joga sob pressão — e joga bem. Camarões e Nigéria são testemunhas.
O legado de Kinshasa e o que 52 anos de ausência significam
Kinshasa é uma cidade de 17 milhões de pessoas. Uma das maiores da África. Uma das mais apaixonadas por futebol do continente. E que não via sua seleção numa Copa do Mundo desde quando o país ainda se chamava Zaire e o mundo ainda vivia a Guerra Fria. A geração que vai a campo em junho de 2026 nunca assistiu ao próprio país numa Copa — porque simplesmente nunca aconteceu nas suas vidas.
A RD Congo estreia contra Portugal no dia 17 de junho, em Houston, Texas. Para um país que esperou 52 anos, o apito inicial já é vitória.









