Confesso: eu errei sobre Matías Zaracho em 2024. Vi os números fragmentados, as passagens intermitentes, e concluí que era um jogador de ciclos curtos — brilhante por lampejos, mas sem fôlego para sustentar uma narrativa inteira. Hoje, olhando para o que ele está construindo no Racing Club, preciso admitir que subestimei a capacidade de um meia de 28 anos de encontrar, tardiamente, o seu melhor momento.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Sete gols. Não é um número espetacular à primeira vista — mas é o que Matías Zaracho acumula em 32 jogos nesta temporada pela Copa Sudamericana e pelo calendário do clube argentino. Para um meia que historicamente oscilou entre a invisibilidade e o protagonismo episódico, esse número fala uma língua diferente. Fala de consistência. Fala de presença. Fala de um jogador que parou de ser coadjuvante da própria carreira.
O que torna esse dado revelador não é a quantidade em si, mas o ritmo com que chegou. Sete gols em 32 jogos significa que Zaracho participa de um gol a cada 4,5 partidas — uma cadência que poucos meias da Copa Sudamericana conseguem manter sem ser centroavantes. Para alguém que pesa 67 quilos e mede 171 centímetros, isso não é força bruta. É leitura de jogo. É timing. É o tipo de inteligência que não aparece no perfil físico.
Como ele chega a esse número
Wilde, na Grande Buenos Aires. É daí que vem Federico Matías Javier Zaracho — nascido em 10 de março de 1998 numa cidade que não costuma aparecer nos roteiros do futebol glamouroso. O caminho até o Racing Club foi construído com paciência e algumas curvas inesperadas.
Pela base argentina, Zaracho disputou o Campeonato Sul-Americano Sub-20 e a Copa do Mundo da categoria, ambos em 2017. Não era um prodígio de manual — era um meio-campista que processava o jogo mais rápido do que a maioria e usava o corpo pequeno como vantagem em espaços apertados. Decidiu. Em algum momento entre as categorias de base e o profissional, ele optou por construir ao invés de explodir.
No Racing Club, foi parte do elenco campeão do Campeonato Argentino na temporada 2018-19 e do Trofeo de Campeones de la Superliga Argentina em 2019. Naquele mesmo ano, em março, estreou pela seleção principal argentina numa vitória por 1 a 0 contra Marrocos, em Tânger — uma partida que parecia o início de algo maior. Em maio, entrou na lista preliminar de convocados para a Copa América de 2019.
A passagem pelo Atlético Mineiro foi o capítulo mais rico da carreira em termos de títulos: quatro edições do Campeonato Mineiro (2021, 2022, 2023 e 2024), a Copa do Brasil de 2021, o Campeonato Brasileiro de 2021 e a Supercopa do Brasil de 2022. São conquistas que constroem currículo, mas que também cobram pedágio — o jogador que carrega muita medalha às vezes perde o fio da narrativa individual no caminho. Zaracho passou por isso. Manteve produção, teve períodos de adaptação, viveu as margens e o centro do time alternadamente.
A volta ao Racing Club trouxe algo que os números anteriores não conseguiam capturar: a Recopa Sul-Americana de 2025, conquistada pelo clube, foi o reencontro de Zaracho com um ambiente que ele já conhecia — e que agora conhece melhor do que ele.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Dois assistências nesta temporada completam o quadro. Não é um número alto, mas combinado com os sete gols, revela um perfil específico: Zaracho não é o criador puro que distribui e recua. Ele finaliza. Ele aparece na área. Ele prefere ser o destino do passe à ser o intermediário.
Numa matéria publicada em julho de 2026 no SportNavo, o debate colocou Zaracho ao lado de Chura como os meias mais relevantes da Copa Sudamericana neste momento — uma comparação que, em si, já é um dado. Ser citado nesse contexto, aos 28 anos, usando a camisa 11 num clube com a história do Racing Club, significa que a narrativa finalmente convergiu para o jogador que ele sempre prometeu ser.
Pela seleção Sub-23, Zaracho fez parte do grupo que conquistou o Torneio Pré-Olímpico Sul-Americano em 2020 — uma conquista coletiva que exigiu exatamente o tipo de inteligência posicional que ele hoje exibe com mais frequência. O jogador que aprendeu a se movimentar sem bola num torneio de alta pressão é o mesmo que hoje aparece nos momentos certos dentro da área adversária.
O risco de confiar só nesse dado
Sete gols são sete gols — mas o futebol sul-americano cobra mais do que números isolados. O risco de ler Zaracho apenas pelos seus gols nesta temporada é o mesmo risco de ler qualquer meia pela estatística mais conveniente: você vê o resultado sem entender o processo.
O que os números não mostram é a capacidade de Zaracho de sustentar esse rendimento ao longo de uma campanha inteira na Copa Sudamericana, onde o desgaste físico é desproporcional ao calendário europeu e onde o adversário te estuda com uma profundidade que poucos clubes brasileiros ou argentinos têm recursos para preparar. Um meia de 171 centímetros que prefere aparecer na área vira alvo prioritário quando o scout adversário faz o dever de casa.
Nos próximos doze meses, o cenário mais realista para Zaracho passa por uma sequência simples: manter a cadência de gols, ampliar o número de assistências — que ainda está abaixo do que seu posicionamento sugere ser possível — e transformar a Copa Sudamericana numa vitrine suficientemente grande para reabrir conversas que a passagem pelo Brasil talvez tenha deixado em aberto. Aos 28 anos, ele está no pico de leitura de jogo, com energia física ainda preservada e um currículo que mistura títulos nacionais, sul-americanos e experiência de seleção. É uma janela rara.
É o mesmo cenário que o Atlético Mineiro viveu em 2021 — um meia que chegou sendo coadjuvante e terminou o ano como peça central de um time campeão — só que agora a aposta é diferente: quem precisa apostar é o próprio Zaracho, não o clube.











