17 de junho de 1993. O Brasil perde para o Uruguai por 1 a 0 nas Eliminatórias e fica a um passo de ficar fora da Copa de 1994 — precisou da última rodada para se classificar. Aquela noite resume o que foi o ciclo pré-94: dois treinadores (Paulo Roberto Falcão e Carlos Alberto Parreira), nenhum título, 60,9% de aproveitamento. O Brasil chegou aos Estados Unidos como um time que ninguém apostava. Saiu de lá tetracampeão.

Trinta e dois anos depois, os números do ciclo atual são ainda mais duros: 37 jogos disputados, 17 vitórias, 10 empates e 10 derrotas. Aproveitamento de 54,5% — o pior de toda a história da Seleção Brasileira em ciclos preparatórios para uma Copa do Mundo. Quatro técnicos desfilaram pelo banco: Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. Nenhum título conquistado.

O que os números dos ciclos campeões revelam sobre o Brasil atual

A comparação estatística entre os seis ciclos vitoriosos do Brasil é direta e implacável. O ciclo de 1962 lidera com 80,3% de aproveitamento, seguido por 1970 com 74,5% e 1958 com 69,9%. Os dois ciclos mais próximos do atual em termos de desempenho foram exatamente os de 2002 (66,6%) e 1994 (60,9%). O ciclo 2026, com 54,5%, fica abaixo de todos eles — mas a distância para 1994 não é abissal: 6,4 pontos percentuais separam o atual do ciclo do tetra.

O pré-2002 foi estruturalmente caótico. Entre a final perdida contra a França em 1998 e o penta no Japão e Coreia do Sul, o Brasil passou por quatro treinadores — Vanderlei Luxemburgo, Candinho, Emerson Leão e Luiz Felipe Scolari — antes de Felipão assumir o comando a menos de um ano do torneio. O paralelo com o ciclo atual é quase literal: também foram quatro técnicos, com Ancelotti chegando tarde ao processo. A Copa de 2002 foi a primeira realizada em dois países; a de 2026 amplia o modelo para três nações — Estados Unidos, México e Canadá — com a particularidade de repetir solo norte-americano pela primeira vez desde 1994.

Os ciclos de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022 contam uma história diferente. A Seleção chegou a todos esses torneios com aproveitamentos superiores, acumulou títulos de Copa América, Copa das Confederações e medalha olímpica, mas não ergueu a taça do Mundial. A tese que cresce nos bastidores da CBF — de que chegar como favorito pode ser um obstáculo — tem base empírica, mesmo que parcial.

Romário no vestiário e a pressão como combustível

O maior artilheiro do Brasil na Copa de 1994 não ficou calado diante do jejum de 24 anos. Romário, que marcou cinco gols no torneio disputado nos Estados Unidos — incluindo o pênalti decisivo na final contra a Itália —, tem se comunicado diretamente com jogadores do grupo de Ancelotti. A mensagem é crua e direta, como sempre foi o estilo do Baixinho.

"Cara, eu posso dizer assim, no fundo depende de cada um. Eu particularmente uso bem a pressão. Para mim, o jogo grande me motiva, a pressão e a responsabilidade de decidir me dão um tesão do car... Assim como hoje, em 94 também estávamos há 24 anos sem ganhar um Mundial. Eu sabia que aquela seria a minha Copa, e que tínhamos uma seleção com total capacidade de trazer o tetra", disse Romário ao ge.

O intervalo sem título se repete com exatidão matemática. Entre o tricampeonato de 1970 e o tetra de 1994, foram 24 anos. Entre o penta de 2002 e a Copa de 2026, são também 24 anos. A coincidência é numericamente perfeita e alimenta o imaginário de um grupo que precisava de qualquer narrativa para sustentar a crença coletiva.

Romário foi além do dado histórico ao apontar o comportamento que separa os grandes dos demais:

"Tem jogador que sente? Tem, claro! Na verdade, todo mundo sente, só que uns conseguem usar isso positivamente, outros se intimidam, se escondem. É nessa hora que o grande jogador aparece, que o cara diferenciado tem de assumir essa responsabilidade."

O atacante Endrick chega ao seu primeiro Mundial carregando uma simbologia adicional: assim como Bebeto eternizou a comemoração do "bebê imaginário" em 1994 após o nascimento do filho, o jovem atacante do Real Madrid também vive a expectativa da paternidade durante a Copa de 2026. São detalhes que, num ambiente de alta pressão psicológica, funcionam como âncoras emocionais dentro do vestiário.

A decisão tática que Ancelotti precisa acertar agora

Os paralelos históricos constroem narrativa, mas não ganham jogos. O que os ciclos de 1994 e 2002 têm em comum, além dos números modestos de aproveitamento, é a clareza de identidade tática que emergiu nas semanas finais antes do torneio. Parreira montou um esquema defensivo e funcional ao redor de Romário e Bebeto — dois centroavantes clássicos que somaram 9 dos 11 gols do Brasil na campanha. Felipão construiu o pentacampeonato em torno de um trio ofensivo (Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho) que funcionava de forma autônoma, com os demais jogadores servindo de suporte.

Ancelotti enfrenta a mesma equação com variáveis distintas. Vinicius Júnior e Rodrygo formam a espinha dorsal ofensiva, mas a ausência de Neymar por lesão — assim como Ronaldo ficou em dúvida até a véspera da Copa de 2002 após convulsionar no dia anterior à final de 1998 — cria uma lacuna de liderança técnica que ainda não foi preenchida por nenhum nome com clareza. A diferença é que em 2002 Ronaldo voltou e marcou dois gols na final contra a Alemanha. O que Ancelotti decidir nas próximas semanas vai definir se o Brasil de 2026 tem uma identidade ou apenas uma esperança.

O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 19 de junho, contra o Marrocos, no SoFi Stadium, em Los Angeles — exatamente no mesmo país onde Romário decidiu a história 32 anos atrás.